Críticas ao PAC

 

As críticas que pretendem comparar a política do governo Lula com as políticas neoliberais dos governos Collor e FHC possuem ângulos diferenciados. Um deles diz respeito ao que chamam de sacrificar o imenso potencial natural e as imensas bacias hidrográficas em função de interesses imediatistas dos setores agroexportadores e produtivistas. Os recursos naturais e a natureza do Brasil estariam sendo utilizados como mecanismos de "barateamento" dos custos operacionais das grandes empresas, representando perdas irreversíveis para a população.

 

O PAC, por seu turno, teria a mesma lógica de crescimento dos projetos daqueles setores que se tornaram dinâmicos justamente em meio ao processo de fragmentação e desmonte do país. Desse ponto de vista, o PAC seria um programa perverso, pois reforçaria os que já são fortes e não estabeleceria nenhuma prioridade para resgatar os setores que encadeiam a economia nacional, ou seja, aqueles voltados para o mercado interno, para os mercados regionais, para processos de agregação de valor e multiplicação de talentos, de capacidade, de geração de tecnologias.

 

Assim, o PAC seria um programa para ampliar a escala dos setores já inseridos no mercado mundial, especialmente o agronegócio e o setor mineral. Portanto, teria sido elaborado para reforçar a concentração do modelo vigorante. As possibilidades de desenvolvimento econômico do país estariam sendo suprimidas em função do uso predominante do território pelas grandes corporações. Com isso, a população brasileira teria perdido a condição de usar seu território para utilizar as alternativas sustentáveis e permanentes.

 

As grandes corporações gerariam apenas surtos de crescimento, favorecendo grupos voltados para o mercado externo, e deixando muito pouco de retribuição. Em vista disso, o programa que a sociedade brasileira esperaria seria aquele que trouxesse investimentos maciços na infra-estrutura social. O PAC, ao contrário, ao fortalecer o modelo que concentra a renda e rebaixa o perfil tecnológico-econômico do mercado mundial, estaria transformando o Brasil num país especialista em matérias-primas e produtos manufaturados de baixo valor agregado.

 

Resumindo, o PAC estaria errado porque tem como foco o desenvolvimento da infra-estrutura econômica, o que beneficiaria apenas os setores oligopolistas da economia brasileira, incapazes de gerar crescimento de longo prazo, retribuir devidamente à sociedade e tornar o país tecnologicamente avançado e produtor de manufaturados de alto valor agregado. Ao invés desse PAC, o que o Brasil precisaria é de um PAC Social, relacionado ao desenvolvimento do ecoturismo, da agricultura e da pesca familiares.

 

É evidente que essas críticas esquecem que o país especialista em matérias-primas e produtos manufaturados de baixo valor agregado é herdado, em especial, do desmonte da era Collor-FHC. Não está sendo transformado nisso agora. Além disso, não conseguem explicitar como o ecoturismo, agricultura e pesca familiares vão gerar um crescimento de longo prazo, tecnologicamente avançado e produtor de manufaturas de alto valor agregado. Sem enxergar sequer as contradições de seus argumentos, também são incapazes de levar em conta as contradições reais do desenvolvimento capitalista brasileiro.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

 

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Comentários   

0 #7 O desenvolvimentismo é questão de gestãHugo Renato 15-06-2010 08:22
Não adianta discutirmos as mudanças de amiguinhos que o Lula faz, pois se a gestão não for eficiente e honesta, nada feito.

Claro que se vamos beneficiar consumidores dando "prêmios por bom comportamento", tais como Bolsa Escola, Celular ou Presídio, tais medidas surtirão, obviamente, impactos nos ganhos das empresas... Ora, a economia é uma roda gigante que só vai parar se alguém parar de consumir ou de produzir... Então o PAC, que tanto nos faz pensar no bondoso Lula, encobre sim, fatores que favorecem muito mais a classe capitalista... pois estamos num sistema socialista?

Por um lado, podemos suspirar aliviados que muitas crianças não morrem e pais de família estão sobrevivendo com a ajuda do governo(não quero ser irônico como o Wladimir), mas também muitos empresários agro-exportadores aguardam anciosos em suas novas aquisições na beira do rio para que a tranposição do Rio São Francisco possa levá-los a ganhar mais... Infelizmente, esse é nosso Brasil.

Obs.: Na minha ótica meio marxista, é a estrutura que anda de lado com a superestrutura, e é o fator econômico (ganancioso ou honesto) que irá sempre impulsionar a mente política, e não o contrário (mas achei que a dialética que o amigo comentou faz mais sentido).
Parabéns pelo artigo, principalmente "como o ecoturismo, agricultura e pesca familiares vão gerar um crescimento de longo prazo, tecnologicamente avançado e produtor de manufaturas de alto valor agregado?"... Também não sei!
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0 #6 A verdade tal qual é.Bruna Maldonado 23-04-2010 06:28
Muitas vezes a gente se esquece do principal:
Nem tudo é uma questão de dinheiro!

Tenho certeza que você, caro leitor, quando ainda não sabia andar teve o incentivo e o apoio de alguém para que isso viesse acontecer, é a ordem natural dos fatos.

Foca-se muito em processos, e esquece-se das pessoas envolvidas.

Acredito que o assunto "economia" seria tão mais plausível se adota-se um padrão mais social, de maneira que ficasse explicito, que o bem estar da nossa gente (isso envolve saúde, educação, cultura etc) é muito mais importante que qualquer título internacional de reconhecimento.

Leio constantemente críticas e até idéias que propõe um Brasil melhor. E o que eu leio nas entrelinhas de quase todas estas é bem simples: O povo vai ter que continuar disfarçando, afinal queremos que o país creça em investimentos, que seja evidenciado pelo seu otencial econômico, tapando o Sol com a peneira no âmbito social.

Hoje discute-se sobre os lucros do pré-Sal, quem deverá ficar com quanto, enquanto debaixo de um dos viadutos da Grande São Paulo uma família está morrendo de fome.
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0 #5 Precisamos de outra logica, mas qual?Joao Felipe Fleming 23-06-2009 22:12
Concordo, precisamos de outra logica, mas qual? ou pelo menos Como? Outra coisa, como assim a politica determina a economia? Nao seriam as duas coisas juntas e ao mesmo tempo? Nao seria dialetico? E o resultado dessa dialetica seria a correlacao de forcas na sociedade?

Falar que deve ser assim, como por exemplo, precisamos de outra logica, deixar de lado as condicoes concretas de vida e trabalho do povo brasileiro o que remete a um voluntarismo claro creditando os rumos do Governo Lula a uma mera questao de vontade politica!

Acho que alem de opinar dizendo como deveria ser, devemos tambem explicar como deve ser feito para vir a ser o que queremos!
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0 #4 Antonio Julio 25-04-2009 07:21
O autor bate numa velha e desgastada fórmula: a esquerda deve apoiar mais e mais capitalismo. O que necessitamos, Pomar, é de outra lógica de sociedade e não esta que já se mostrou falida em 500 anos. Uma a lógica não economicista, não consumista, não capitalista!!
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0 #3 Reparo e pedido de desculpasRaymundo Araujo Filho 24-04-2009 10:16
O artigo é de Wladimir pomar, e não Walter pomar, como me referi.
Peço desculpas.
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0 #2 Autonomia Social e EconômicaRaymundo Araujo Filho 24-04-2009 08:32
Fico sinceramente impressionado como alguns que se dizem de esquerda aqui no Brasil, adotaram vertiginosamente o discurso macroeconômico (coisa de "gente grande"), para justificar as políticas do atual governo, que segue, e isso ninguém consegue contestar, as diretrizes anunciadas criticamente como tendo a partenidade de Collor e FHC.

Ora! Temos, em primeiro lugar, de inserir a questão Política, pois esta precede SEMPRE a questão econômica (macro e micro), pois é a Política que determina a economia, e não ao contrário, como se o viés econômico tivesse uma base idealista, como se sempre estivesse estado onde está.

Lula foi eleito em um contexto eleitoral, de discursos anti neoliberalismo, onde as forças sociais populares manifestaram-se com bastante clareza, contra o Projeto Neoliberal. Era um momento onde o próprio MST tinha conquistado a visibilidade e aceitação social, com suas reinvindicações de terras e Reforma Agrária sendo aceitas até por conservadores (não os fascínoras do agronegócio).

Lula, ao ser eleito em 2002, inicia seu mandato oPTando em conclamar o Povo a ficar em casa, pois faria o Fome Zero, Geração de empregos e a Distribuição de Renda. Mas, ao contrário instituiu esta esmola governamental (é verdade que mantém a miséria, ao menos sem tantas mortes por inanição, ou causas correlatas), mas que após 6 anos, não apresenta nenhuma porta de saída do que a tentativa de criação de empregos, em uma economia cujos setores industriais mecanizam-se cada vez mais, os oligopólios se consolidam e a concentração de terras é imensa.E sem sinais e indicadores de reversão ou diminuição desta voraz concentração, aumentada pela rapinagem direta ao erário com a dimunuição de impostos, sem contrapartida nem em manutenção de empregos , ou até redução da margem de lucro dos empresários (em torno de 100% EM QUALQUER SETOR – o maior do mundo). E, sem uma sólida política de empregos, senão esta polica Canguru desnoerteado que vemos. Salta, salta e continua no mesmo lugar, relaticvamente ao que a economia deveria ter crescido.

Resolveu assim, seguir a carreira do “governabilidade institucional”, em vez de estimular a organização e manifestação popular, para garantir algumas reformas, ao menos (não refiro-me a nenhuma Revolução). O resultado todos vimos e sofremos, ainda hoje. O descrédito do toma lá da cá político institucional, além de configuração de uma nova elite burocrática, que sequestra e compartimenta o que é público, em parcelas privadas ou corporativas.

E, sob o prisma econômico, posse e devo discordar do nobre articulista Walter Pomar, dizendo que é obrigação de quem pode e consegue pensar um mínimo estrategicamente, que precisamos estimular a geração de dezenas de milhares de Redes Agroindustriais e Industriais Urbanas de pequeno e médio porte, estas sim com grandes reduções tributárias e amnplas linhas de crédito (inclusive com o BNDES), articulada com a aprovação de diretrizes que determinem a preferência das Compras de Estado, de parte de suas produçõies, com amplo apoio institucional e facilitação de inserção social (este sim o filé mignom oculto), pois descentralizará e distribuirá renda nos municípios, de forma mais horizontal. Além de iniciar um debate vivo, sobre a possibilidade e necessidade desta descentralização de vasta área dos meios de produção (agroindustriais, confecções, gráficas, pequenas e médias metalurgias, cooperativas horizontais de prestadores de serviços, entre outros.

Quanto aos setores de ponta e estratégicos, lembro ao nobre articulista, que até bem pouco tempo era palavra de ordem corrente em amplos setores dos que se dizem de esquerda a famosa “auditoria das privatizações e dívidas interna e externa”. Parece que boa parte dos que se dizem de esquerda abandonaram este dito, o substituindo pela ídéia que excelência e desenvolvimento destes setores, só é possível nas mãos (e bolsos) do Mundo Corporativo Empresarial.

Água Mole em Pedra Dura....
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0 #1 Não inventou, mas aprofundaRodolfo Pelegrin 23-04-2009 15:47
Caro Wladimir, vc pode até argumentar que não tenha sido Lula quem inventou o capitalismo dependente no Brasil. Mas não pode discordar que o PAC investe maciçamente no aprofundamento dessa condição. Basta comparar os valores de investmento em cada uma das atividades por vc citadas. O próprio montante de recursos destinados ao setor sucro-alcooleiro, altamente destrutivo e concentrador de renda, já é suficiente pra demonstrar os compromissos do governo Lula.O verniz que cobre o governo pode ser outro, mas os interesses que ele representa são os mesmos.
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