Cidadão Kane Abençoa Lula

 

Tenho, e já há bastante tempo, denunciado uma velha tática jornalística, hoje muito usada pelo que chamo de jornalismo lulo-petista.

 

O estratagema consiste na "eleição" de adversários com opiniões insustentáveis, para fazer com que Lula e seu esquema político mantenham, aos olhos da opinião pública, uma fachada "popular" de "apoio aos pobres" etc. Chamo isso de Refração Ilusória à Esquerda ou, de forma mais coloquial, "a transformação da discussão política em um Fla-Flu", isto é, o abandono das divergências conceituais (tática de jogo e estratégias a serem alcançadas) pela simples disputa de poder por grupos antagônicos. É mais ou menos o que se sucede nesta política Fla-Flu que denuncio.

 

Enquanto isso, o chamado jornalismo lulo-petista faz bonito, combatendo com artigos e bravatas os generais e direitistas saudosos da ditadura que hoje, decrépitos, reúnem-se em eventos comemorativos à quartelada de 64. Mas, contraditoriamente, este mesmo jornalismo adesista limita-se a criticar os representantes deste segmento que têm lugar (e de destaque) no governo Lula, que apóiam. Criticam o Jobim e o Edson Lobão, mas não quem os nomeou e os mantém no governo.

 

E ainda, "por falta de espaço na agenda", deixam de responder às críticas à esquerda que lhes são feitas. Querem dar a impressão de que o Lula e sua base aliada de "esquerda" (menos de 10% do total) configuram-se como uma espécie de Rubicão, delimitando o que é esquerda e direita.

 

É este pequeno exército de jornalistas lulo-petistas que abarrotam a mídia, notadamente a alternativa e internética (listas, jornais virtuais, blogs políticos etc.), com artigos, nos quais tergiversam a realidade, escolhendo as Vejas, Organizações Globo, RBS, Grupo Folha, entre outros, como se estivessem em campos ideológicos, e de projetos para o país, antagônicos.

 

Quando, na verdade, a esta altura do campeonato, penso estar claro que é muito mais uma briga de quadrilhas econômicas e políticas que estão jogando pela conquista do aparelho político e de Estado. Todas as forças deste combate são hegemônicas ou neoliberais radicais, ou reformistas do capitalismo quando muito. Talvez por acharem que é preciso mais miséria para a criação da tal "contradição visível às massas".

 

Mas todos os Rubicões deságuam no mar. E não seria diferente no Brasil, onde o Amazonas, o São Francisco, o Paraíba, o Uruguai deságuam no mesmo mar, o Atlântico.

 

Recentemente, com a agudização da fragilidade do (ou falta de) projeto do governo Lula, são necessárias mais e mais concessões, não só no campo econômico, mas também no político.

 

Para gerir esta "crise" de acumulação de capital, etapa prevista pelo assalto neoliberal iniciado há 25 anos, Lula precisou tomar todas as medidas de transferência direta do erário para as economias privadas. Tudo em nome da tal estabilidade. Esta ação integrada com os patrões do primeiro mundo culmina com o empréstimo "chic" para o FMI de 5% de nosso sofrido e injusto superávit primário. Enquanto isso, reduz a carga de impostos (dinheiro para a coletividade) para facilitar e abaixar o custo das empreiteiras e que tais, nesta farsa midiática do PAC da Habitação. Enquanto remédios, passagens (não as de avião) e comida aumentam a olhos (e bolsos!) vistos. Fora a exposição do fiasco das estradas, transportes de massa, hospitais públicos e serviços básicos, privatizados, ineficientes e caríssimos.

 

O aplauso da mídia corporativa tão combatida pelo jornalismo lulo-petista foi total. O comentarista econômico da Rede Globo e a representante das corporações nesta Organização do Cidadão Kane brasileiro pessoalmente manifestaram-se de acordo e saudaram a "solidez" da economia brasileira.

 

Esta mesma mídia, tão combatida pelo jornalismo lulo-petista, omitiu da opinião pública não só a notícia em destaque, mas também análises e contradições de importantes medidas deste governo que temos. Uma foi a sanção da lei que entrega para as mineradoras e companhias de energia elétrica as cavernas brasileiras e todo o patrimônio histórico-cultural, material e estratégico que elas podem representar. Nem um pio deram, em total anuência a tamanho absurdo. E os lulo-petistas também calaram.

 

Outra omissão gravíssima diz respeito à Lei do Gás, sancionada em março e quase que totalmente omitida pela grande mídia - e silenciada convenientemente pelos bocas-tortas da adesão, de plantão vigilante para poderem omitir-se. Este decreto presidencial, em resumo, privatiza os gasodutos, impõe que o gás a ser industrializado na refinaria Abreu e Lima virá da Nigéria, onde é explorado pela anglo-saxônica (olhos azuis) da Brittish Oil e transportado por navios da própria. E todos calados, os Al e os Capones.

 

Agora vemos a união quase que carnal entre o PT, Lula e a Veja no caso Daniel Dantas, onde, após a senha dada por José Dirceu, "denunciando" ser perseguido pelo Protógenes Queiroz, fez com que este delegado da PF fosse abandonado não só pelo governo que lhe tinha encomendado a ação, mas pelos petistas e que tais que ainda o apoiavam. É que a reentrada de José Dirceu oficialmente nas hostes petistas e governistas, a meu ver, pode ter tido este preço. Afinal, com o disse o próprio Lulla, "aqui não tem santos". E os jornalistas lulo-petistas continuam calados.

 

Poderia citar a completa paralisação da Reforma Agrária abandonada por Lula, e que sequer fez arrefecer a sanha vingativa dos latifundiários e representantes do agronegócio contra o MST - que, agora, ensaiando críticas um pouco mais fortes (mas sem rompimento) ao Lula, está sendo jogado à própria sorte.

 

Assim, vai entortando a boca (e a caneta-teclado) dos membros desta confraria que chamo de jornalismo lulo-petista, cada vez mais parecido com a tal mídia corporativa que tanto dizem combater. A boca torta já está igual. E a capacidade do silêncio-omissão também.

 

Raymundo Araujo Filho é médico veterinário homeopata e especialista em perceber os boca-torta-por-uso-do-cachimbo-adesista.

 

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Comentários   

0 #9 Nome aos BoisRaymundo Araujo Filhor 20-04-2009 07:06
Comunico que não quero expor o Correio da Cidadania a nenhuma responsabilização solidária (como está na Lei) sobre a publicação direta de nomes que, ao meu ver, justificam a denominação de jornalistas Lullo Petistas (= adesistas e colaboracioniostas de classe).

Mas, como disse, não costumo fufgir da raia. E gosto de assumir sozinho as minhas responsabilidades políticas. Por isso, disponibilizo o endereço eletrônico , para aqueles que queiram dar continuidade e, segundo alguns, dar legitimidade (o que discordo, mas acato)ao artigo, possam comunicar-se pessoalmente, que envio (pedindo perdão por algumas omissões, pois são muitos a serem relacionados, fora os que sequer conheço) e com a justificativa ao lado.

Façamos, pois, o bom debate, sem responsabilizar terceiros por possíveis retaliações. De minha parte a divulgação do que eu enviar é totalmente livre, desde que citando a fonte e sem fins comerciais.

Raymundo Araujo Filho"
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0 #8 adendoRaymundo Araujo Filho 18-04-2009 17:25
E não posso deixar de fora estes citados lá em cima. Caros Amigos, inclusive.

A situação do Brasil de Fato e do MST, carece de uma exposição política mais clara e inequívoca sobre ser ou não ser oposição ao Lulla, além de uma boa e sincera autocrítica política de sua direção nacional, sobre o adesismo desenfreado que protagonizaram nos últimos 6 anos.

Como eu diswse, não é do meu feitio fugir do debate, ou dar nome aos bois. Sou um experimentado veterinário de campo.
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0 #7 Contra!Aramis Martins Leão de Souza 18-04-2009 16:50
Não vê quem não quer que o Brasil ja é outro desde Lula assumiu, tambem imaginava uma revolução geral, com reforma agrária ampla,tomar dos quem muito para distribuir para quem não tinha,mas hoje estou convencido que o é possível estamos fazendo, pelas beradas muitas coisas ja melhoraram para maioria, nosssa atitude peante o mundo o modo como Lula trata com os grandes deste país sem dobrar o joelhos. Não consigo entender que grente tão sabida não compreende estas coisas.
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0 #6 Nomes aos Bois 2Marco Antonio Costa 18-04-2009 15:18
Concordo com o Rafael Dantas; para ter credibilidade é preciso dar nomes aos "bois". Afinal de contas, quem são os jornalistas "lulo-petistas"?
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0 #5 cadé o \"companheiro\" lulaRobito Bonino 17-04-2009 22:27
No lugar da tv pública, bilhoes para a mafia privada.
No lugar de reforma agraria, bilhoes para o agronegocio.
No lugar de Marina Silva e preservar o patrimonio ambiental, Minc e Mangaveira filhos da midia.
No lugar de resgatar o imenso patrimonio do povo(133 empresas publicas) privatizado (subtraido) pela gang FHC, deu mais bilhoes para os novos "proprietarios".
No lugar de segurança alimentar, toda a nação é cobaia da monsanto e seus transgenicos.
No lugar de criar industria de carros nacional, deu bilhoes para a gang multi.e etc, etc
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0 #4 Nome aos boisRafael Dantas 17-04-2009 06:21
Acho que pro debate ser sério precisa dar nome aos bois, caso contrário fica a crítica fica muito vazia e geral. Marx quanto escrevia dava nome ao objeto de suas críticas aos expoentes das ideologias combatidas e isso com centeza dá muita credibilidade, de nada adianta fazermos críticas raiovosas a pessoas em geral, temos que saber de quem estamos falando. Estamos falando de quem? Quem são os jornalistas lulo-petistas? Os da Carta Maior? Do Vermelho? do Brasil de Fato? da Palavra Operária? do Viomundo? Carta Capital? Correio da Cidadania? Caros Amigos?
Com os nomes o debate fica mais claro, e com certeza pode até ser mais fraterno, mas com esse deixar no ar a coisa fica mais rasteira, a meu ver.


Saudações
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0 #3 Paulo Antonio Turrim 16-04-2009 16:35
Lamento que um jornal tão sério se permita um artigo com bases tão solapadas.
Pior; dtermina que os leiamos.
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0 #2 Não v~~ao deixar saudades.Hamilton Alem 16-04-2009 14:38
Caro Raimundo; Seu artigo veio em boa hora esclarecendo a todos nóa inclusives os bocas-tortas. Só queria lembrar que não é só na imprensa lulo-petista que acontece esses descalabros, o que de pior fêz este governo além da politica de enganação e propaganda é que nunca se propagou tanto como agora o puxa-saquismo oficial entre os que governam e seus aliados, alguns outrora ativos combatentes dessa prática. Nossa esperança hoje é que num tempo, espero breve, todos passarão e livres de todos essea zés manés possamos retomar as lutas de nosso povo por uma mudança nova com uma verdadeira Reforma Agrária, um Ensino Liber-tario e uma Saúde de qualidade. Êles não são os caras. Um abraço Hamilton.
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0 #1 ANTONIO DE SOUZA BATISTA 16-04-2009 14:06
NÃO ME SINTO REEPRESENTADO PELO GOVERNO LULA, COMO ELES (jornalistas, intelectuais, profº universitários "lulo-petista"!)

Sobre as eleições de Lula da Silva, fiquei também contente que isso tenha acontecido. Mas, diferente DELES, hoje não me sinto representado pelo que esse governo vem implementando no País. Para os altos empresários e os banqueiros continuarem, como antes, a aumentar as suas rendas, não precisaríamos ter eleito “um candidato dito socialista”, “da esquerda ideológica”, vindo do povo. Bastava continuar nas mãos de quem estava. Entretanto, as elites, detentoras do capital no País, precisavam de mais garantias, para que os lucros e os lucradores fossem afastados do perigo, para que os seus calcanhares não estivessem pisoteados pelos trabalhadores nacionais. Para que tudo isso acontecesse, era necessário um homem do povo, da esquerda ideológica, um companheiro, enfim, um Lula da Silva, que hoje governa sem nenhum sindicato, sem nenhuma central sindical atormentando os seus ouvidos e com uma garantia de lucro invejável para os bolsos dos capitalistas (bancos e altas indústrias).
Para aplacar os trabalhadores, uma falsa idéia de posses: nos governos anteriores, o instrumento era o salário família, hoje é uma bolsa família aqui, uma bolsa escola, uma bolsa presídio ali, um trocadinho aqui, uma bolsa “boa vida” ali. Com sinceridade, não houve e não há, como d’antes, uma sociedade feliz.
Labutamos muito para que o Governo chegasse às mãos de Lula da Silva. Não tínhamos uma perspectiva de implantação imediata do Socialismo no País. Porém almejava-se uma Conduta Socialista. Não desejávamos a tomada do poder à força. Entretanto, onde está o Plano Socialista para o desenvolvimento da Nação? Como tornar explícitas as linhas centrais de uma Estratégia Socialista de médio e longo prazos?
Cadê o choque nas burguesias nacional e internacional hegemonizadoras do poder no território brasileiro?

Elegi Lula da Silva para oferecer ao povo brasileiro um planejamento socialista, um projeto que estrategicamente levasse a classe dos trabalhadores nacionais a um desenvolvimento social, político e financeiro diferente do que está posto e inserido, nesse governo de Lula, pelas elites nacional e internacional.

Elegi Lula da Silva para implementar as táticas e as estratégias que deveriam ser suporte para o avanço na luta contra estas elites internacional e nacional rumo à concretização do referido projeto proposto.

Não Elegi Lula da Silva para ver a burguesia continuar a se projetar no imaginário coletivo nacional e até internacional, com toda sua onipotência como a única alternativa de implementação de planos de ação de curto, médio e longos prazos como se nós estivéssemos nos outros governos que antecederam ao de Lula da Silva.

Hoje, por conta das incertezas que correm nos trilhos do plano da economia Brasileira e pelas abordagens governamentais sobre a crise é que é imprescindível a sua identificação, a sua interpretação e a sua contextualização. Repito, onde está o Plano Socialista para o desenvolvimento da Nação? Como tornar explícitas as linhas centrais de sua Estratégia Socialista de médio e longo prazos?

O Brasil vive hoje, como antes, uma onda neoliberal com todas as mazelas impostas pelo aparato de informação e da formação do imaginário coletivo, sem o governo de Lula da Silva apresentar à Nação um avanço, um suspiro possível, sobre as perspectivas a serem alcançadas a partir do trabalho concreto de retomada do público sobre o privado e do Estado como representante legítimo e legal das rédeas dos rumos.
Elegi Lula da Silva para que pudéssemos enxergar que um outro mundo é possível, Uma outra América Latina é possível a partir da ação planejada de governos organizadores e implementadores do processo de maneira unificada.

Frente a isso, e com base na realidade brasileira, imersa no brutal processo de crise oriunda do histórico pacto burguês e escamoteada pelos agentes midiáticos do governo ("jornalismo lulo-petista") , elegi Lula da Silva para ver a centralidade do Estado como interventor direto e indireto na economia, retomando as suas funções de produtor direto nos setores estratégicos da economia, como por exemplo, telecomunicações, energia, agricultura e petróleo fiscalizando e jogando o tributo, na sua fatia maior, para o capital transnacional quando fazem uso dos recursos extraídos da sociedade brasileira.

Se nada disso aconteceu no governo de Lula da Silva, por conta dos seus pactos, da falta de amor pelo POVO BRASILEIRO, pelo descompromisso com a alteração do Status quo, vamos continuar a ver a incapacidade de grupos da situação e da oposição de apresentarem plano e programa anticapitalista e anti-neoliberal.
Como a América Latina é um território grande e como sou também, além de basileiro, cidadão da AL, vamos esperar que outros governos me representem como eu gostaria de ser representado pelo de Lula da Silva.


Profº
Antônio Batista
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