topleft
topright
ISSN 1983-697X

Boletim Diário

Email:
Para assinar o boletim de
notícias preencha o
formulário abaixo:
Nome:

Brasil nas Ruas

Confira os artigos sobre manifestações e movimentos sociais no Brasil.

Arquivo - Artigos

Áudios

Correio da Cidadania, rádio Central 3 e Revista Vaidapé fazem “debate autônomo” sobre as eleições  

Leia mais...
Image

Plinio de Arruda

MEMÓRIA

Confira os textos em homenagem a Plinio


Leia Mais

Plinio em Imagens



Confira a vida de Plínio


Charge


Imagem




Artigos por data

 Nov   December 2016   Jan
SMTWTFS
   1  2  3
  4  5  6  7  8  910
11121314151617
18192021222324
25262728293031
Julianna Willis Technology

Links RSS

Correio da Cidadania Correio da Cidadania Correio da Cidadania Correio da Cidadania Correio da Cidadania

Áudios - Arquivo

AumentarDiminuirVoltar ao original
Dois amigos Imprimir E-mail
Escrito por Frei Betto   
Segunda, 13 de Abril de 2009
Recomendar

 

A comemoração (fazer memória) da Paixão de Jesus me remete a dois amigos recentemente transvivenciados e a quem me ligavam laços de fraternura: Victor Siaulys e Márcio Moreira Alves.

 

Vítima de leucemia, Victor me chamou ao hospital no domingo, 15 de março. Mulher, filhos e alguns amigos rodeavam-lhe o leito. Após anos de incansável luta contra a doença, o homem que fabricava remédios – era sócio do laboratório Achê – sabia que a ciência chegara a seu limite. Seu organismo definhava, a dor o consumia, embora o espírito estivesse impregnado da fé que, sobretudo nos últimos anos, lhe dilatava o coração.

 

Disse-me desejar atravessar a linha da vida. Perguntou-me se tal anseio é pecado. Respondi-lhe que não; é direito. A ciência esgotara seus atuais recursos. Agora, nem se devia apressar-lhe a transvivenciação, nem adotar procedimentos que trazem lucro aos hospitais sem esperança ao paciente. Melhor permitir que a natureza cumprisse, no seu ritmo, os desígnios de Deus.

 

Victor queria saber se Deus haveria de recebê-lo bem. Lembrei-lhe que Deus é Amor e ele, Victor, a amorosidade personificada, como atestam todos que tiveram o privilégio de conhecê-lo. Seu testemunho de vida, ele o registrou em sua autobiografia, "Mercenário ou missionário?" (São Paulo, ed. Laramara, 2008), redigida durante os meses de enfermidade.

 

Entre as muitas obras da família Siaulys se destaca a Laramara, a mais respeitada instituição do Brasil destinada à qualificação profissional de cegos de baixa renda.

 

Frisei que, à porta do Céu, ele seria bem acolhido por são Pedro que, como ele, veio de uma família de peixeiros. Victor sorriu. Orgulhava-se de ser filho de imigrante lituano que, graças à banca de peixes nas feiras-livres de São Paulo, sustentou a família e o estudo dos filhos.

 

Oramos juntos, dei-lhe a bênção e, em seguida, ele fechou os olhos e dormiu. Quatro dias depois, faleceu. Deixou escrito o próprio epitáfio, um poema de louvor à existência. E predeterminou que cada pessoa presente ao velório saísse dali levando em mãos um símbolo da vida: num pequeno jarro, a muda de ipê amarelo. Doravante, todos os ipês amarelos são, para mim, sacramentos da presença amorosa de Victor Siaulys.

 

No sábado, 4 de abril, foi a vez da partida de Marcito, como os amigos tratavam Márcio Moreira Alves. Jornalista e político, foi o primeiro a desnudar, em livro, a ditadura militar, ao relatar seu caráter desumano no livro "Torturas e torturados" (Rio, Idade Nova, 1966). Foi também o primeiro a perceber que uma nova Igreja Católica brotava de comunidades populares reunidas para celebrar a fé em um Jesus libertador.

 

Eleito deputado federal pelo Rio, em 1966, pronunciou o mais famoso discurso contra o regime militar, ao instigar a população a ausentar-se das comemorações do 7 de setembro de 1968. O tom indignado e profético de seu pronunciamento serviu de pretexto à decretação do Ato Institucional n° 5, a 13 de dezembro do mesmo ano. O Brasil mergulhou nas trevas e Marcito deixou o país clandestinamente.

 

Ao retornar do exílio em 1979, reassumiu o jornalismo e foi atrás do "Brasil profundo", como ele qualificava aquelas situações que, para o bem ou para o mal, traduzem a verdadeira face da realidade brasileira.

 

Afetado por um acidente vascular, recolheu-se à vida familiar. Visitei-o com freqüência em casa e no hospital. Gostava de receber a bênção da saúde. Em seu velório, li trechos da carta que me escreveu de Vitória, em junho de 1966, ao terminar sua pesquisa para a redação da obra "O Cristo do povo" (Rio, Sabiá, 1968). O contato com bispos, padres, religiosas e, sobretudo, leigos, a gente pobre que iniciava, Brasil afora, as Comunidades Eclesiais de Base, suscitou em Marcito o reavivamento da fé cristã:

 

"Betto irmão: Estou sozinho em meu quarto de hotel, à espera do avião, com todo o esquema de um livro montado na cabeça e consciente de que não mais poderei atrasar o momento de começar a transformá-lo em linhas, páginas e capítulos. (...) Não só encaminhei-me para a Fé, titubeante a princípio, incerto ainda em muitos pontos, sobretudo de ignorância, mas hoje já sólido e acho que tocado pela Graça, meti-me em todo o mecanismo da Igreja no Brasil, vasculhando-lhe os porões, descobrindo primeiro suas fraquezas mas também sua glória e missão. É isto que me atemoriza. Sei que cada um de nós tem de dar seu testemunho. Mas estou mal preparado para o meu. Entrei nas investigações com espírito político e chego ao fim com espírito cristão. É muito mais difícil e jogo com instrumentos pouco familiares, que não domino direito.

 

 "(...) E mais, de ver-me de posse de uma massa de informações que me coloca, cristão novo e incerto, com a responsabilidade de julgar os outros e a minha Igreja. Eu sabia que o compromisso que assumia de viver cristãmente ia ser duro, sobretudo para minha vida pessoal, hedonista e, talvez, para minha vida pública, ambiciosa. Mas até aí o risco era meu, pessoal e, possivelmente, de minha mulher, sem cujo apoio não poderia caminhar muito.

 

"Só a ti é que escrevo tudo isto. Precisava desabafar um pouco. (...) Um abraço do Márcio".

 

Frei Betto é escritor, autor de "A mosca azul – reflexão sobre o poder" (Rocco), entre outros livros.

 

Recomendar
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




Para ajudar o Correio da Cidadania e a construção da mídia independente, você pode contribuir clicando abaixo.


Vídeos

Índios Munduruku: Tecendo a Resistência

Imagem

Documentário sobre as resistências indígenas às hidrelétricas do Tapajós
Leia mais...

A Ordem na Mídia

Eugênio Bucci: “precisamos de um marco regulatório democrático na comunicação”


Há uma falência nos modelos de negócios refletida nas relações trabalhistas, na concentração de propriedade, formação de monopólios e oligopólios e no aparelhamento por parte de igrejas e partidos. Entrevistamos Eugênio Bucci, jornalista e professor da ECA-USP, que afirmou a necessidade de um marco regulatório democrático para fortalecer a democracia no Brasil.
Leia mais...


Brasil_de_fato
Adital
Image
Image
Banner_observatorio
Image
Image
Image
Image
Image
Image
Image
Image

Diario Liberdade

Espaço Cult

Image
Image
Revista Forum
Joomla Templates by JoomlaShack Joomla Templates