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Os aleijados às avessas Imprimir E-mail
Escrito por Gabriel Perissé   
Quarta, 08 de Abril de 2009
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Guiado por uma de suas geniais intuições, Nietzsche escreveu sobre os aleijados às avessas. Aleijados que têm em demasia algum órgão do corpo.

 

Por exemplo, alguém que fosse uma orelha, uma grande e dominante orelha. Esse homem que fosse apêndice de sua própria e imensa orelha, esse homem ouviria demais, preocupado demais com o que se diz. Teria informações auditivas em excesso. Seria vítima de sua maravilhosa audição.

 

Um homem que não passasse de uma grande boca seria outro tipo de aleijado às avessas. Sua capacidade de abocanhar e mastigar lhe traria imensos sofrimentos. Boca por excelência, esse homem passaria o dia engolindo a tudo e a todos. Sua capacidade devoradora seria sua ruína. Pior do que a fome recorrente é o desejo insaciável, por mais que alguém possa consumir.

 

Outro aleijado às avessas: o homem-olho. Aquele olho observador, atentíssimo, absorvendo mais imagens do que a mente humana possa concatenar e compreender. Quanta dor essa visão abrangente ofereceria ao homem-olho! Quantos motivos de medo!

 

E o homem-nariz, então?! Quantos cheiros e aromas perseguiriam essa pobre criatura, "abençoada" pela tremenda capacidade de possuir, ou melhor, de ser nariz. E sendo nariz poderoso, tal homem padeceria horrivelmente. Porque seria, sobretudo, nariz, saberia que nenhuma flor é flor que se cheire, que todo perfume esconde fedor, que todo fedor prenuncia a dor.

 

Todos somos propensos a desenvolver algum tipo de deformação às avessas, hipertrofiando algo de nós, transformando-nos em seres superdotados em um único aspecto, limitados pelo fato de ultrapassarmos os limites.

 

Posso me tornar um homem-mão. E essa tamanha habilidade para pegar, fazer, manipular... será motivo diário para um cansaço indescritível.

 

Ou posso me tornar homem-pescoço, homem-joelho, homem-ventre, homem-ombro — e em todas essas situações, e em todas as demais possibilidades que nos ocorra imaginar, serei prisioneiro de uma melhoria localizada, de uma perfeição fragmentada, de um tudo que é nada.

 

O aleijado às avessas tem, na sua força, a sua fraqueza. Tem, na sua especial competência, a sua maior incompetência.

 

Podemos ir mais longe.

 

O homem-cartão-de-crédito, cujo poder de compra é sua infinita pobreza.

 

O homem-eloqüência, fadado a falar, falar, falar... e falir.

 

O homem-pontualidade... alvo fácil para a morte.

 

O homem-sorte, sem motivos para lutar, sem fracassos a superar.

 

O homem-texto, que escreve mais do que vive, e não adquiriu a sabedoria de colocar o ponto final.

Gabriel Perissé é doutor em Educação pela USP e escritor.

 

Website: http://www.perisse.com.br/

 

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