O projeto JK

 

Juscelino Kubitschek, ou JK, foi eleito em 1955, num contexto mundial de fortes tensões, decorrentes da descolonização da África e Ásia, e das disputas dos Estados Unidos e aliados com a União Soviética. Por outro lado, esse foi também um período de crises econômicas, levando muitas empresas norte-americanas, européias e japonesas a mudar seu antigo modelo de exploração dos países periféricos (importação de matérias primas e exportação de manufaturados) pelo modelo de investimento em plantas industriais nesses países.

 

No Brasil, esse foi ainda um período de forte mobilização social e política em torno da nacionalização das reservas naturais, em especial do petróleo, e de um projeto soberano de desenvolvimento nacional, que desembocou na crise política que levou Vargas ao suicídio, em 1954. Foi nesse ambiente que JK, com a promessa de ampliar os direitos democráticos e realizar, através de um Plano de Metas, um desenvolvimento de 50 anos em 5, conseguiu reunir em torno de sua candidatura uma frente política ampla, dos conservadores do PSD aos comunistas do PCB, e isolar os setores reacionários e golpistas da UDN.

 

Esse Plano de Metas abrangia empreendimentos em energia, indústrias de base, transportes, alimentos e educação. A construção de Brasília e da rodovia Belém-Brasília seriam os elos a puxar as demais cadeias industriais. Cético quanto à disposição da burguesia paulista em investir em outras regiões, JK tinha clareza das mudanças em curso nos investimentos capitalistas e do papel que o Estado poderia jogar.

 

Seu Plano de Metas teve, então, como suporte, a utilização de recursos externos, em investimentos diretos e em financiamentos, e a utilização de recursos internos, por meio da emissão de papel-moeda, canalizados para os projetos coordenados pelo Estado. Capitais estrangeiros, mesmo com maquinaria obsoleta, deram surgimento às indústrias automobilística (Volkswagen, Willis, Simca) e naval (Ishikawagima, Velrome).

 

O desenvolvimento dos 5 anos JK foi superior, em termos de capital acumulado, ao da Era Vargas. A atração da mão-de-obra para a indústria e para a construção de estradas, hidrelétricas e novas plantas manufatureiras deu partida a um forte processo de retirada de meeiros, parceiros e rendeiros das malhas do latifúndio, o que foi facilitado pela extensão da legislação trabalhista ao campo. Em certa medida, reduziu a dependência do país ao chamado modelo agroexportador.

 

Por outro lado (sempre há um outro lado), o desenvolvimento da era JK, como um típico desenvolvimento capitalista desigual e, ainda por cima, dependente das decisões dos capitais dos países centrais, incrementou as disparidades regionais entre o Sudeste e as demais regiões, em especial com o Nordeste, apesar da criação da SUDENE (Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste). E, além de uma inflação voraz, uma enorme dívida externa e déficits na balança de pagamentos do país legaram à sociedade brasileira um sistema rodoviário de transportes caro e irracional.

 

Assim, como no caso da Era Vargas, se há algo a aproveitar do período juscelinista, foi a decisão política de realizar o desenvolvimento utilizando o Estado e seus grupos executivos para empurrar a burguesia. No entanto, querer repetir o modelo JK é o mesmo que retornar a uma dependência da qual o Brasil não precisa mais.

 

Wladimir Pomar é analista político e escritor.

 

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Comentários   

0 #1 Fosse isso, seríamos sortudosRaymundo Araujo Filho 13-04-2009 07:53
Em uma leitura de síntese, acho que podemos interpretar este artigo do Wladimir Pomar, talvez ainda não como uma crítica direta, mas ao menos, um alerta para tipo de modelo desenvolvimentista atrelado aos interesses meramente empresariais, afinal adotado incontestavelmente por Lula.

Mas, sinceramente, acho que o que temos aí é muito pior do que uma volta ao modelo Jucelinista, o que já seria um erro, concordando com o W. Pomar.

O que temos é a completa exoneração de nossas riquezas, exploração atroz do trabalho, supressão aguda de qualquer serviço básico de Estado, com as suas privatizações e altas cobranças. Além do desrespeitar de mínimos consensos, digamos, republicanos.

Precisamos aumentar o tom das críticas e passar a uma Ação Política de Oposição ao continuismo neoliberal de Lula, se quisermos deixar, ao menos, alguma semente para lutas futuras, ante o desastre que está sendo o governo daquele que representou 25 anos de esforços na organização de uma agenda popular para governar o país.

Ao meu ver, compará-lo com JK é muito leve, a esta altura do campeonato.
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