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Escrito por Léo Lince   
Qui, 02 de Abril de 2009
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Em matéria de metáfora rombuda não tem para ninguém, o presidente Lula é imbatível. A última, no sentido de mais recente, está nos jornais. Com o ar solene de quem faz revelação importantíssima, o presidente pintou o retrato falado do responsável pela catástrofe que se abate sobre nós: "a crise foi feita por gente branca e de olhos azuis". Solicitado a fornecer maiores detalhes, acrescentou ao étnico-racial outra condição do meliante a ser malhado: "banqueiro".

 

Quando joga a culpa no branquelo ("alemão batata, come queijo com barata"), embora possa ser ele próprio preconceituoso, o presidente na realidade premedita por cálculo político. Ele sabe que o preconceito pode amalgamar o senso comum da massa despolitizada. Sabe também que a imagem pública dos banqueiros, desde que os fenícios inventaram o dinheiro, é a pior possível. Artífices e beneficiários da usura, prática condenada por todas as religiões universais, eles são pintados pelos cartunistas modernos como são vistos pelos olhos da massa: frios, cruéis, brancos, gordos e, mais, ascendem charutos caríssimos com nota de cem dólares.

 

Por suposto, não se conhece um único e escasso preto ou índio que ocupe lugar na abonada condição de banqueiro. O Lula está certo. O problema, no entanto, não reside na cor dos olhos ou da pele, nem mesmo na ganância de tal ou qual, mas no lugar ocupado pela casta financeira no formato atual do capitalismo mundial. O xis do problema é o modelo econômico, no qual os banqueiros não operam sozinhos. Os governantes, titulares do poder executivo e, como tal, responsáveis pelas definições chaves da política econômica das nações, jogaram e continuam jogando papel decisivo na reprodução de tal modelo. Tais governantes, sejam eles brancos, pretos, pardos, mulatos ou cafuzos, são sócios da patranha e tão responsáveis quanto os banqueiros pela catástrofe que nos engolfa.

 

A lógica do Lula, ao apontar o banqueiro loiro de olhos azuis como responsável pela crise, é a de quem procura se colocar fora do rol dos possíveis acusados pela calamidade. Ademais, guarda coerência com as "explicações" anteriores. Ora, se a crise era "coisa do Bush", se o pepino é do Obama, se a marolinha cresceu e escangalha a economia brasileira, faz sentido providenciar uma nova retórica de contenção. Pura retórica. Os banqueiros estão tranqüilos. Conhecem a peça. Sabem que ele, tal qual o padre Gatica do anedotário andaluz, não pratica o que predica. Cacareja num lugar e bota ovos no outro.

 

O governo Lula, desde as origens do seu primeiro mandato, está comprometido até a medula com os magnatas supremos do capital financeiro. A hipótese, improvável, de que as recentes declarações (a descoberta tardia da periculosidade dos banqueiros) pudessem significar uma guinada de política sequer chegou a ser cogitada. São palavras ao vento. Por outro lado, firme como uma rocha, a presença de Henrique Meirelles no cerne do governo é a prova provada de que falta alguém neste retrato falado.

 

Léo Lince é sociólogo.

 

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