O deus do agronegócio

 

"Padres devem ser cobrados para que formalizem posição contra demarcações em Mato Grosso do Sul. Para justificar a exigência, produtores rurais devem lembrar aos párocos que 'o que mantém obras sociais nos municípios vêm em sua maior parte do campo'", orienta entidade rural em nota divulgada à imprensa.

 

A recomendação é para que os fazendeiros procurem os padres e "peçam a eles que se manifestem, inclusive formalmente, por carta, em relação à questão indígena". A Famasul também comenta as doações feitas às igrejas, dizendo que "não é admissível que financiem ações de entidades como o Cimi (Conselho Indigenista Missionário), apontada como a principal fomentadora de invasões de propriedades por índios". (Campo Grande News, 28 de março de 2009).

 

Não fosse suficiente as pérolas acima citadas, é só abrirmos o Progresso, onde o chicote do agronegócio é brandido contra os índios e seus aliados. No editorial "Direito de Propriedade" conclamam que "o setor produtivo precisará mostrar força para impedir que a Funai leve adiante esta aventura que viola o direito de propriedade e atropela todos os preceitos constitucionais". E para alcançarem tão nobre objetivo, é preciso "que o governo do Estado coloque toda sua estrutura jurídica, e principalmente política..." (idem) para a impedir a demarcação das terras indígenas em defesa da vaca sagrada da propriedade privada.

 

Destilando ódio e veneno por todos os poros do agronegócio, seu mago maior, na câmara de vereadores de Dourados afirma impunemente "se existe marginal neste conflito, certamente ele não está atuando entre os fazendeiros, mas sim entre organismos bandidos como o Cimi e tantos outros apoiados, inclusive pela Funai, para espalhar o terror pelo campo" (O Progresso, Dourados 28 e 29/03/09 página 4)

 

Na televisão, desfilaram outras autoridades manifestando sua firme intenção de impedir a demarcação das terras indígenas no Estado. O governador afirmou de peito inflado que em seu governo a Funai não demarcará terras aqui. Por sua vez a presidente da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária, CNA, senadora Kátia Abreu, rodeada de microfones disparou nesta mesma direção. No afã de angariar apoios à sua santa cruzada contra os direitos indígenas à terra, Katia anunciou que vai se encontrar com o bispo local, participar de missa, como parte de sua nobre missão. Amanhã vai discursar para o agronegócio em Dourados. Numa de suas requintadas compreensões do processo de identificação das terras indígenas no MS, "A represente da CNA chamou as demarcações de "invasões à caneta" e acusou a Funai e outros órgãos de usar a bandeira social para fazer a expropriações" (campograndenews, 28/03/09).

 

Deus é grande. Certamente não se deixará aprisionar pela ganância do agronegócio. Pelo contrário, conforme repetidas vezes afirma no Evangelho, estará com os que sofrem, com os que são explorados, com os que são presos, com os que são injustiçados e maltratados... porque deles é o reino dos céus!

 

Egon Heck é coordenador do Cimi (Conselho Indigenista Missionário) do Mato Grosso do Sul.

 

{moscomment}

Para ajudar o Correio da Cidadania e a construção da mídia independente, você pode contribuir clicando abaixo.

Relacionados