Senado: a cultura do ascone

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O Senado brasileiro acaba de extinguir 50 das suas 181 diretorias, das quais 70% criadas pelo senador José Sarney (PMDB-AM), ao presidir a Casa entre 2003 e 2005. Esse pequeno corte representa uma economia anual de R$ 4,8 milhões do dinheiro do contribuinte.

 

Diretorias cassadas não significam diretores desempregados. Perderam apenas o cargo e, com ele, algumas mordomias, como gratificação mensal (variável de R$ 2 mil a R$ 5 mil), uso de celular (conta paga por nós) e a vaga na garagem do Senado.

 

Entre as diretorias extintas se destaca a Coordenação de Apoio Aeroportuário. Para que servia? Ora, onde já se viu um senador (há honrosas exceções, felizmente) fazer o próprio check-in e aguardar embarque misturado ao comum dos mortais? Nada como dispor de um serviçal atendido por um solícito funcionário da empresa aérea, sem fila nem risco de viajar no assento do meio, enquanto o parlamentar espera confortavelmente instalado na sala VIP.

 

E ao desembarcar, lá está outro serviçal para aguardá-lo à porta da aeronave, prestimoso em carregar-lhe a pasta, recolher as malas na esteira e encaminhá-lo ao veículo oficial solenemente estacionado em local vetado ao cidadão comum.

 

Havia uma diretora do Gabinete de Coordenação e Execução (de quê?). Ingressou na Casa como telefonista e, graças à conivência de senadores, chegou à função de diretora. Entre alto salário e gratificações, permitia-se a ela estacionar, na garagem privativa do Senado, um reluzente BMW. Aliás, não era a única diretora do referido gabinete. Havia mais três!

 

Entre as 50 secretarias extintas, figuravam três Secretarias Técnicas de Eletrônica e, ainda, uma Subsecretaria de Convergências Tecnológicas e uma Subsecretaria de Tecnologia da Informação. Fico a imaginar a que atividades se destinavam tais órgãos. Possivelmente a instalar e reparar equipamentos eletrônicos, como computadores. O que seria "convergência tecnológica"? A padronização de linguagens informáticas ou a sincronização de programas e planilhas?

 

Chama a atenção que, dispondo de tanta tecnologia, o Senado ainda registre suas sessões por meio de taquigrafia. Não é tempo de gravar discursos e debates dos parlamentares em fitas magnéticas, vídeos e dvds? Continuam em plena vigência as subsecretarias de Registro Taquigráfico, Redação Taquigráfica, Revisão Taquigráfica e Supervisão Taquigráfica. Por que não usar a estenotipia?

 

Reza um antigo provérbio latino: "Senatores boni viri, senatus autem bestia" (Os senadores são boas pessoas, mas o senado é uma besta). Na verdade, bestas somos nós, que nem sempre somos criteriosos ao eleger nossos políticos. É verdade que, entre os 81 senadores, há aqueles que primam pela ética, não se deixam picar pela mosca azul e até ousam denunciar que a corrupção grassa entre alguns de seus pares.

 

Agora o Senado conta com 131 diretorias! Entre elas a Secretaria da Polícia do Senado, e as Subsecretarias de Polícia Ostensiva, de Proteção a Autoridades e de Polícia Judiciária. Verdadeiro Exército de Brancaleone! Essa policiada toda investiga, lá dentro, indícios de corrupção, abusos de autoridade, nepotismo e malversação?

 

O mal do Senado é endêmico na máquina pública: a cultura do Ascone – Assessor de Coisa Nenhuma. Balança-se a árvore dos ministérios, das estatais, dos governos estaduais, das assembléias legislativas, das câmaras de vereadores e das prefeituras, e se constata que há uma legião de funcionários inteiramente dispensáveis, pessoas que ocupam funções inócuas criadas para acomodar apadrinhados de políticos.

 

O político safado não tem o menor escrúpulo em cavar um emprego público para o cabo-eleitoral, o filho do correligionário, o afilhado da cunhada, a filha do financiador de campanha. E quando a imprensa cumpre o seu papel de fiscalizar como é gasto o dinheiro do povo há senadores que, como disse Jesus, vêem o cisco no olho alheio e não enxergam a trave no próprio. Ou seja, acham que o exagero é da mídia, e não de uma Casa parlamentar que se dá ao luxo de empregar aproximadamente 10 mil funcionários (3,4 mil concursados; 3,1 mil comissionados; e cerca de 3 mil terceirizados). Este total representa 123,4 servidores para cada um dos 81 senadores. Tudo pago pelo contribuinte.

 

O governo nos deve a reforma política. Enquanto não vier, a máquina pública continuará a servir de cabidão para amigos, parentes e aliados de políticos, e bandidos e corruptos disputarão mandatos políticos para gozarem de impunidade e imunidade.

 

Numa República decente, os senadores seriam os primeiros a dispensar foro privilegiado, matricular os filhos em escolas públicas e recorrer ao SUS em caso de problemas de saúde.

 

Os políticos jamais deveriam se sentir incomodados por prestar contas à opinião pública. É o dever deles.

 

Frei Betto é escritor, autor de "Calendário do Poder" (Rocco), entre outros livros.

 

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Comentários   

0 #4 SENADO, GALINHEIRO DO ZÉ RIBAMAR.Marcos Pinto Basto 02-04-2009 02:35
Indo direto ao assunto, interessa saber apenas o grau de produtividade de bem estar social do Povo brasileiro, produzido no senado. Pelo que estamos vendo agora, existe um número exagerado de diretores e de funcionários em geral que custam uma fortuna e quem paga a conta? Somos nós! Portanto, temos o direito de reclamar pela escrita de Frei Beto que não quiz insurgir-se contra a taquígrafia, apenas achou estranho que tantos avanços tecnológicos na área da informática não possam substituir o processo até então usado, fato que também me causou estranheza. Mas é possível registrar com alta fidelidade todos os sons e imagens produzidos por uma pessoa, sem interferências, basta usar os meios tecnológicos corretos. O excesso de funcionários é um retrato de José Ribamar Costa, vulgo Sarney que já deveria ter-se retirado da vida pública há muito tempo porque sua contribuição foi muito negativa e pode ser comprovada pelo seu mega enriquecimento. Um imortal tão rico assim poderia dedicar-se a escrever um livro didático, ensinando todos os brasileiros a melhorarem a vida sem apelarem para meios excusos.
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0 #3 Senado: a cultura do asconeEdson Conselheiro 28-03-2009 20:06
Finalmente, consegui encontrar um artigo de Frei Betto com o qual não posso concordar, ainda que em parte. Trata-se da afirmação de que a taquigrafia pode ser vantajosamente substituida pela estenotipia. Para melhor ter uma idéia sobre a questão, sugiro a leitura da resposta publicada em http://www.taquibras.com.br/noticias.php?noticia=904
Quanto à questão dos custos envolvidos no serviço, sugiro a leitura, no mesmo site, do artigo em
http://www.taquibras.com.br/noticias.php?noticia=899
Assim, como pesquisador e estudante de taquigrafia, fico com a clara impressão de que o articulista opinou sem conhecimento de causa, baseado apenas na impressão de que a taquigrafia é uma atividade obsoleta - idéia que, diga-se de passagem, eu mesmo tive há alguns anos, antes de voltar a me interessar pelo assunto.
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0 #2 A Respeito da Taquigrafia do Senado - ReWaldir Cury 28-03-2009 17:13
A RESPEITO DA TAQUIGRAFIA DO SENADO
RESPONDENDO AO FREI BETTO

Por: WALDIR CURY
Taquígrafo-revisor aposentado da Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro e
Professor de Taquigrafia (Proc. 1273/68-Ministério de Educação e Cultura)

No artigo publicado no “Correio da Cidadania”, em 28 de março, por Frei Betto, sob o título “Senado:a Cultura do Ascone”, lemos o seguinte trecho:

Chama a atenção que, dispondo de tanta tecnologia, o Senado ainda registre suas sessões por meio de taquigrafia. Não é tempo de gravar discursos e debates dos parlamentares em fitas magnéticas, vídeos e dvds? Continuam em plena vigência as subsecretarias de Registro Taquigráfico, Redação Taquigráfica, Revisão Taquigráfica e Supervisão Taquigráfica. Por que não usar a estenotipia?

Causou-nos espécie a pergunta do respeitado articulista, por demonstrar total desinformação sobre a natureza, importância e o modus laborandi dos taquígrafos num parlamento, e, de modo especial, no Senado brasileiro. Tudo leva a crer que Frei Betto nunca tenha visitado um departamento de taquigrafia para constatar in loco a relevância e a competência desses profissionais no registro e no tratamento da palavra.
É aceitável que, por ser um leigo no assunto, desconheça a utilidade dos taquígrafos num parlamento, “quando vivemos no meio de tanta tecnologia”. O que não é aceitável é que pergunte se não é tempo de gravar discursos e debates dos parlamentares em fitas magnéticas. Mas os discursos e debates dos parlamentares são gravados! E isso já acontece há muito tempo, pelo menos, desde a década de 60 do século passado!
Aliás, é até bom lembrar, segundo nos conta Akio Morita no seu livro “Made In Japan”, que quando os técnicos da Sony inventaram o gravador de fita, não conseguiam vender nenhuma peça: todos achavam “o brinquedo” muito interessante, mas ninguém queria comprar, pois não viam nele muita serventia. Os primeiros que compraram foram os taquígrafos da Suprema Corte. O trecho é o seguinte:
Assim, com a ajuda de Maeda. conseguimos fazer uma demonstração de
nossa máquina na Suprema Corte, e no ato vendemos vinte unidades! Aquela gente não
demorou para descobrir como poderia dar uso prático ao nosso instrumento – reconheceram imediatamente o valor do gravador de fita. que para eles não era nenhum brinquedo.
De modo, prezado Frei Betto, que o uso de gravadores pelos taquígrafos já data de muitos e muitos anos!
Quanto à pergunta “Por que não usar a estenotipia?”, devemos lembrar que a estenotipia é taquigrafia. Existem a taquigrafia manual (lápis e papel) e a taquigrafia mecânica (a máquina de estenotipia). É bom saber também que, mesmo a estenotipia acoplada ao computador, vai requerer meses e meses a fio (para não dizer anos) de treinamento e prática para o seu uso num nível parlamentar e/ou judiciário.
Se pesquisarem, como já o fizemos, nos parlamentos e tribunais do mundo inteiro, verão uma diversidade no uso da captação da palavra. Há parlamentos que usam taquígrafos manuais, outros, a estenotipia, e , outros, os dois, a taquigrafia manual e a estenotipia. E todos, sem exceção, usam, como suporte, a gravação. Exatamente para efeito da fidedignidade exigida, quer em relação aos pronunciamentos e debates de um parlamento, quer em relação aos de um egrégio tribunal.
Apenas três exemplos: a House of Representatives americana usa estenotipistas. A Bundestag alemã, bem como a Dieta japonesa, usam taquígrafos manuais.
No final das contas, o que vale mesmo, é a preparação e o nível de competência, quer do taquígrafo, quer do estenotipista. Caso contrário, não há tecnologia que resolva o problema.
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0 #1 Gravação x TaquigrafiaPaulo Xavier 28-03-2009 15:20
GRAVAÇÃO X TAQUIGRAFIA

Em artigo publicado no Correio da Cidadania, editado pela Sociedade para o Progresso da Comunicação Democrática, o escritor Frei Betto fez a seguinte observação:

“Chama a atenção que, dispondo de tanta tecnologia, o Senado ainda registre suas sessões por meio de taquigrafia. Não é tempo de gravar discursos e debates dos parlamentares em fitas magnéticas, vídeos e dvds? Continuam em plena vigência as subsecretarias de Registro Taquigráfico, Redação Taquigráfica, Revisão Taquigráfica e Supervisão Taquigráfica. Por que não usar a estenotipia?”

O objetivo da matéria a seguir publicada é transmitir argumentos que respondem à freqüente indagação, repetida por Frei Betto, a propósito da depreciação da taquigrafia manual em face da utilização de gravadores.

A crítica e a indagação de Frei Betto nos enseja oportunidade para enumerar as inconveniências que ocorreriam, se os registros de discursos e debates no Senado Federal fossem feitos exclusivamente com utilização de fitas magnéticas:

- dificuldade na identificação das vozes dos oradores,
- superposição de falas,
- intervenções inaudíveis ou ininteligíveis,
- corrosão da camada de óxido da fita,
- reprodução com ruídos,
- baixa fidelidade de áudio,
- citação de termos técnicos sem a consulta direta ao orador,
- má pronúncia de vocábulos estrangeiros (às vezes neologismos, portanto ainda sem registro para efeito de consulta) etc.

E mais, vários fatores devem ser levados em conta, no que se refere à composição das fitas magnéticas:

- respostas nas altas freqüências,
- relação sinal-ruído,
- transferência do sinal para as áreas adjacentes (eco),
- deformação do sinal, pela influência do tempo e dos campos magnéticos externos.

Acresce observar, ainda, para esclarecer aos leigos: para que as gravações correspondam com um som puro e sem distorções, é preciso, entre outras coisas, que se ajuste o nível de gravação de tal maneira que, durante o som mais alto previsto, o ponteiro indicador de nível apenas “toque” na região vermelha do mostrador, alcançando zero decibéis ou cem por cento de otimização.
É necessário, ainda, que se tenha em mente que sons muito altos saturam a fita e causam distorção. Mas também níveis muito baixos provocam aproximação entre o som e o ruído eletrônico do sistema gravador-fita, o que resulta em aumento do chiado de fundo na reprodução.
Por outro lado, nem a melhor fita magnética reproduzirá um som claro e “limpo”, se estiver contaminada com acúmulos de poeira, resíduos gordurosos ou qualquer outro tipo de impureza. Mais grave, ainda, e absolutamente desastroso, é o “apagamento” acidental do material gravado em carretel ou fita magnética. Uma das causas mais comuns do “apagamento” acidental é a proximidade da fita a campos eletromagnéticos intensos, tais como motores elétricos ou transformadores de tensão, ou, ainda, a campos magnéticos de imãs permanentes.
E mais: tanto as temperaturas elevadas como o excesso de umidade, ao cabo de certo tempo, terminam por prejudicar as fitas gravadas. O material da base da fita é um bom lugar para a proliferação de fungos, o que resulta em mofo. Permanecendo a falta de cuidado, daí pode resultar o desprendimento da camada de óxido magnético. A umidade pode fazer com que duas espiras adjacentes fiquem coladas uma na outra, com tanta força, que a fita se parte. Em temperaturas superiores a 30 graus centígrados, aproximadamente, a fita começa a perder a flexibilidade. Ela possui, normalmente, um lubrificante especial que a mantém bastante flexível, para que melhor possa adaptar-se à superfície da cabeça magnética. Na eventualidade de partir-se, sem que isto seja notado, estará criado um problema de difícil solução. Por outro lado, com o calor, a fita vai-se tornando um tanto quebradiça, e aumenta a possibilidade de quebrar-se e de a camada magnética desprender-se.

Em relação à pergunta “Por que não usar a estenotipia?”, esclarecemos que todas as tentativas para uso de máquinas de estenotipia nos plenários do Senado, da Câmara dos Deputados, do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios não apresentaram resultados satisfatórios, razão pela qual não foi adotada.

Paulo Xavier
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