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Fidel e o veredicto da história Imprimir E-mail
Escrito por Atílio Boron   
Quarta, 25 de Março de 2009
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Na primeira parte desta matéria, dizíamos que Fidel está canalizando todas as suas energias na estratégica "batalha das idéias", condição necessária para a construção de uma alternativa pós-capitalista e não somente pós-neoliberal, como anseiam alguns antigos esquerdistas desiludidos. À medida que sobreviva o capitalismo como modo de produção, sua natureza exploratória, opressiva e predatória se manifestará em todas as suas expressões históricas, desde o laissez faire do início do século 20 ao neoliberalismo de finais do mesmo século, passando pelo keynesianismo e o desenvolvimentismo. A preocupação do Comandante em reler Gramsci e os clássicos da teoria marxista é acompanhada por um renovado interesse na obra de Darwin e o estudo do impacto da nanotecnologia sobre os processos produtivos e, portanto, sobre os bens e serviços aos quais a população poderia ter acesso.

 

Há tempos os avanços da informática o apaixonam e por sua inspiração Cuba desenvolveu uma Universidade de Ciências da Informação, que se encontra entre as mais avançadas do mundo. Isso apesar da manutenção de um criminoso bloqueio que a Casa Branca se encarregou de estender ao acesso à internet, obrigando os países vizinhos a abster-se de oferecer conexão de banda larga a Cuba, sob pena de fechar o acesso de suas exportações ao mercado norte-americano. Graças à Venezuela bolivariana, essa chantagem será desfeita em pouco tempo. O Comandante sabe que as novas tecnologias de comunicação e informação são um poderoso instrumento de dominação ideológica, porém, dialeticamente, também podem ser uma formidável arma para conscientizar a população e facilitar a disseminação do pensamento crítico, como se faz desde os diversos cursos que oferecemos no PLED (Programa Latino-americano de Educação à Distância em Ciências Sociais). No entanto, sua inquietude não fica por aí: também lê sobre as mudanças climáticas, a crise econômica, os processos políticos e os temas candentes da realidade internacional. A lista seria interminável.

 

Se bem sua recuperação física e seu moderado aumento de peso descaracterizaram um pouco sua figura quixotesca do passado, seu intelecto e seu coração seguem sendo fiéis à nobre tradição de D. Quixote, e sua paixão em disparar críticas e fazer o bem é tão imensa quanto antes. É esse espírito que o levou a tomar de assalto o Moncada e, tempo depois, com Raul e Che, a iniciar a epopéia de Sierra Maestra. Tal como havia prognosticado, em seu célebre depoimento aos juízes do Moncada, a história o absolveu - e como! Também lhe deu razão quando em 1985 demonstrou matematicamente a impossibilidade de pagar a dívida externa, contrariando opiniões de sediciosos "especialistas" que elaboraram engenhosos artifícios para mostrar o contrário.

 

Também lhe sorriu em 92, no Encontro da Terra, celebrado no Rio de Janeiro (Eco-92), quando nos exatos sete minutos que cada participante tinha de direito denunciou a catástrofe ambiental e climática que se avizinhava. Sua intervenção foi fulminada como apocalíptica e meramente ideológica por uma multidão de pigmeus, os quais o pensamento convencional identificava como "realistas" e "especialistas". Quem agora se lembra daqueles anões? E o que dizer dos governantes ali presentes – Menem, Fujimori e outros da mesma laia – que fizeram ouvidos moucos diante do discurso de Fidel e que com sua criminosa indiferença agravaram o problema? E a história voltou a sentenciar a seu favor quando em 1998 convocou economistas para discutir a crise em gestação, em momentos em que o saber oficial assegurava que não existia – e que não existiria – crise, senão que, no máximo, uma transitória desaceleração do crescimento econômico. Uma década mais tarde os fatos consumados demonstrariam uma vez mais que a razão estava com Fidel.

 

Esse foi o homem que me honrou com o seu convite para discutir alguns aspectos de minha proposta. Interessou-lhe, sobretudo, o conceito de "burguesia imperial", concebido para caracterizar o entrelaçamento produzido entre as classes dominantes das principais metrópoles capitalistas e a forma como unificaram sua estratégia de dominação global. Seus integrantes se encontram anualmente em Davos para coordenar sua estratégia em escala mundial, revisar suas riquezas, harmonizar seus discursos e políticas e potencializar sua influência política e ideológica em nível internacional, sempre convidando governantes, "especialistas" e comunicadores sociais para transmitir a boa nova. Pediu-me detalhes, exemplos, razões, pelos quais utilizo tal conceito. Queixou-se de sua falta de tempo: não pôde receber vários presidentes e aos que atendeu não pôde dedicar o tempo desejado.

 

Falamos um pouco sobre a Argentina e me disse que havia lhe surpreendido positivamente a força e convicção que demonstrou a presidenta Cristina Fernandez de Kirchner e sua vontade de lutar, mas estava preocupado pelas seqüelas do conflito que no ano passado enfrentou o governo com os setores do campo. Ao examinar o panorama sócio-político latino-americano, expressou sua preocupação, porque o pêndulo ideológico, que na última década havia se movido para a esquerda – se bem que com diferente amplitude segundo alguns países –, poderia deter sua marcha ou, pior, iniciar uma reversão, ameaçando a estabilidade ou a continuidade dos governos progressistas na região. Sabe que o imperialismo está no encalço para "corrigir o rumo" de seus quintais regionais; conhece-o em detalhes e pode dizer, como Martí, que "conheço suas entranhas e minha pedra é a mesma de David". Com essa pedra teve a seu lado o Golias americano durante 50 anos e terminou isolando-o: em outubro de 2008, dos 192 países membros da ONU, 185 votaram a favor de uma resolução que exigia pôr fim ao bloqueio contra Cuba. Somente dois acompanharam o império em sua eterna humilhação: Israel, a mega-base militar estadunidense no Oriente Médio, e Palau, ilhota perdida no Pacífico povoada por 21.000 pessoas e utilizada como campo de testes da artilharia das Forças Armadas norte-americanas. Outras duas, as Ilhas Marshall (63.000 habitantes) e Micronésia (107.000) consideraram demais tamanha ignomínia e se abstiveram. No entanto, essa mensagem da comunidade universal é ignorada na Casa Branca e seus mandatários: o complexo industrial-militar. Esses querem aproveitar a crise para voltar a "disciplinar" a região e acabar com a primavera esquerdista.

 

A sucessão do governo da Coalizão no Chile parece inexoravelmente destinada a reinstalar um personagem da direita no Palácio de la Moneda, seja o situacionista Eduardo Frei ou o opositor Sebastián Piñera. E as previsões não são muito mais alentadoras para Argentina, Brasil e Uruguai. A crise econômica poderia ser o fator de impulsão dessa recomposição direitista, e tal ameaça não pode ser vista sem atenção. Caso se concretizasse, o isolamento de Venezuela, Bolívia e Equador poderia se agravar, pondo em risco a viabilidade política e econômica dos projetos transformadores atualmente em curso, com negativas consequências para Cuba. Também me fez saber de sua inquietação pela pressão a que está sendo submetido o governo de Fernando Lugo no Paraguai e a necessidade de que Argentina e Brasil adotem uma postura solidária e generosa em relação às duas grandes represas de Yaciretá e Itaipu, cuja propriedade compartilham com o Paraguai.

 

Já transcorrera uma hora e quarenta minutos de conversa e era preciso pôr fim a esse diálogo. Perguntei-lhe com todo o respeito se não seria possível que alguém nos tirasse uma foto, porque do contrário não seriam poucos os que me considerariam um impostor falando de uma entrevista que só teria existido na minha imaginação. Fidel aceitou de bom grado meu pedido, queixando-se jocosamente de que todos lhe dizem o mesmo e o obrigam a fotografar-se. Então, virou-se para um de seus colaboradores e disse: "Deixe-me ver. Tragam um espelho". Trazem-lhe, ele se olha e diz, brincando: "Hum, ficou bem!", e é certo. Estimulado pelo seu bom humor, aproveito para felicitá-lo por sua recuperação e dizer-lhe que está muito bem, com um aspecto tão bom como o mostrado por Ingrid Betancourt quando de sua misteriosa libertação pelo exército colombiano. Uma estrondosa gargalhada selou a piada. Preparamos-nos para a foto e ali, embalado pelo clima relaxado e alegre que se instalara na fase final de nossa conversa – muito distante da imagem de um hospital ou de uma sala de recuperação de um convalescente –, atrevi-me a lhe dizer que, com o logo da Adidas do uniforme dos atletas cubanos que trajava seus detratores, agora o criticariam por fazer publicidade a uma multinacional. Nova gargalhada e, rápido como um raio, com o luminoso olhar de sempre e seu dedo indicador repetidamente afundando em meu peito, me disse, mastigando cada sílaba: "É-que-eu-sou-uma-vítima-de-tua-burguesia-imperial". Mais risos, foto e um forte abraço de despedida que permite comprovar o bom estado muscular de seu físico e, com alívio, que teremos Comandante por mais tempo.

 

Atílio Boron é doutor em Ciência Política da Universidade de Harvard e professor titular de Teoria Política na UBA (Universidade de Buenos Aires). É autor do livro "Império e Imperialismo. Uma leitura crítica de Michael Hardt e Antonio Negri", publicado pela editora CLACSO em 2002.

 

Website: www.atilioboron.com

 

Trazido por Gabriel Brito, jornalista.

 

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