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Tempo-Narração: São Bernardo, de Leon Hirszman Imprimir E-mail
Escrito por Cassiano Terra Rodrigues   
Qui, 12 de Março de 2009
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Por que alguém iria querer contar a própria história? "A única ambição do narrador é aparecer como alguém necessário", diz Jean-Claude Carrière.

 

Isto soa ainda mais verdadeiro quando se trata de querer contar a própria história, como Paulo Honório, personagem principal de São Bernardo, romance de Graciliano Ramos, filme de Leon Hirszman: Paulo Honório conta a história de sua vida e conclui que ela foi o resultado de suas atitudes agrestes. Agora, tudo narrado, tudo amarrado – os limites claros, os pingos nos is, nenhuma ambigüidade, nenhum ponto desatado, não poderia ter sido diferente. Depois de contar sua história, Paulo Honório pode parar, tudo agora faz sentido, resta esperar a luz da vela se extinguir.

 

Diz-se que tanto o livro quanto o filme mostram o embrutecimento, a reificação de Paulo Honório. Com o lançamento recente do filme em DVD, pelo Projeto Leon Hirszman, é hora de lançar outras interpretações. Acerca dos filmes de Leon Hirszman, um dos maiores cineastas nacionais, muito ainda há a ser falado.

 

Realizado sob estritíssimas condições orçamentárias, fracasso de público, obra-prima de adaptação para certos críticos, realização duvidosa para outros, o filme não se deixa enquadrar facilmente. E, ainda que a precariedade da produção resulte em limitações do resultado final, o olhar atento percebe ali o toque de arte que diferencia a banalidade corriqueira da obra genuína.

 

O momento final da narração de Paulo Honório coincide com o momento inicial da história a ser contada – a ação só pode começar depois de já ter sido. A narração, assim, fecha-se sobre si mesma – e, de fato, o fechamento lógico é condição necessária de todo ato de narrar, pois é condição de conhecimento.

 

Se fosse possível restaurar no conto todos os aspectos do real, signo e objeto coincidiriam, e nenhuma mediação, nenhum significado seria possível – o narrador não conseguiria encadear os eventos, porquanto não conseguiria uma perspectiva reflexiva.

 

Uma narração é um uso semiótico muito peculiar das leis do tempo, já que encadeia objetos, eventos, estados e ações em certa sequência. Assim, uma narração é sempre uma interpretação; não fosse assim, o leitor/espectador/ouvinte jamais se situaria como tal e se perderia em meio a indefinições e não-conexões simultâneas. É preciso, portanto, escolher não só o que contar, mas também como contar. Por isso, uma narração é uma operação transfiguradora – dá sentido ao caos, liga distâncias, faz do fato um exemplo. A temporalidade narrativa delineia um horizonte de possibilidades ali onde antes todas as possibilidades eram possíveis. Ela opera, assim, uma restrição.

 

Uma narração não pode, então, se desdobrar ad infinitum. Somente quando ordenamos logicamente as ações empíricas concretas num tempo é que conseguimos salientar e caracterizar distintamente certos traços e aspectos como pontos discretos de uma continuidade; só assim conseguimos comunicá-las.

 

Não se trata só de determinar um ponto de vista, mas também de percorrer um caminho. E a riqueza do relato será medida pela sua capacidade de nos mostrar o que normalmente não vemos, ou, em outras palavras, de nos surpreender, encadeando o contado de uma maneira como não imaginaríamos – liberando, com isso, nossas possibilidades de imaginar outras tramas.

 

Já se disse que a lentidão do filme foi a maneira encontrada pelo diretor para transpor à linguagem cinematográfica a aridez da prosa de Graciliano. Mas como se filma um advérbio? Esse é todo o problema: a câmera de Leon Hirszman não adapta a linguagem de Graciliano Ramos, ela busca captar a experiência temporal de Paulo Honório contando sua própria história – Paulo Honório religando, reconstruindo, ressignificando sua vida. Meta-signos, os movimentos da câmera estão apostos às inflexões da voz do personagem-narrador; ambos os tempos – o das imagens e o da voz de Paulo Honório – se sobrepõem, sugerindo modalidades possíveis de ser/ligar/unir/continuar/mediar/criar outra temporalidade.

 

Paulo Honório usa uma linguagem agreste, súbita, seletiva, cortada. Limitação sobre a limitação, negação da negação, signo de signo, os movimentos da câmera de Leon Hirszman formam um peculiar modo de enunciação, ou seja, escolhem uma maneira – dentre muitas possíveis – muito própria de contar como Paulo Honório conta a própria história.

 

A câmera é continuamente estática, lenta, demorada. Longos planos, poucos cortes, cenas à distância, raros closes. Súbito, velozmente, a câmera corre atrás de Paulo Honório, anunciando o momento decisivo. Dentre todas as outras, é a única cena de movimentos bruscos e velocidade acelerada. A partir desse momento, entendemos por que Paulo Honório precisa contar sua história. Aqui, Leon Hirszman nos conta a lição do mestre: como transformar limitações orçamentárias em cinema.

 

Cortar/encadear/surpreender/mostrar. Eis a essência do cinema. Leon Hirszman atrás da câmera.

 

Cordiais saudações.

* * *

 

DESCULPAS: O escritor desta coluna pede desculpas aos leitores, pelo dilatado tempo em que ficou sem escrever. O motivo dado foi o seguinte: "Não tive tempo!".

 

PROJETO: "Restauro digital da obra de Leon Hirszman". Sonhara o cinema nacional tivesse mais projetos como esse... Mais infos: <http://www.leonhirszman.com.br/>.

 

Cassiano Terra Rodrigues é professor de filosofia na PUC-SP e vive correndo do tempo atrás de mais tempo, o que é impossível.

 

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Última atualização em Sexta, 13 de Março de 2009
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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