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Malthus e a competição entre homens e máquinas pela bioenergia Imprimir E-mail
Escrito por Rodolfo Salm   
Sexta, 11 de Maio de 2007
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Thomas Malthus (1766-1834) é o exemplo de grande pensador que caiu em desgraça devido a interpretações indevidas de seu trabalho. Para Ignacy Sachs, malthusianos “acreditavam, e ainda acreditam, que o mundo já está superpovoado e, portanto, condenado ao desastre, seja pela exaustão dos recursos naturais esgotáveis, seja pela excessiva sobrecarga de poluentes aos sistemas de sustentação da vida”. Textos introdutórios às Ciências Sociais ensinam que o “pensamento malthusiano” desenvolveu-se para sustentar as condições capitalistas vigentes na Inglaterra do século XIX, pois “propõe um equilíbrio às custas de exclusão de uma parte da população”.


No artigo “Fidel Malthus Chávez”, publicado na Folha de São Paulo no último domingo, 6 de maio de 2007 , o economista Eduardo Pereira de Carvalho desqualificou a preocupação de Fidel Castro quanto às conseqüências da produção de biocombustíveis para a oferta mundial de alimentos, chamando-a de malthusiana. Para Carvalho, presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar, o argumento de Thomas Malthus (segundo ele um “profeta do pessimismo”) quanto à “colisão entre o fenômeno populacional e a capacidade limitada para garantir alimentos a todos os viventes” seria, além de lúgubre e catastrófico, falso.


Segundo o autor do artigo, desde que o argumento do clérigo inglês foi formulado, os EUA, por exemplo, no intervalo de apenas quatro gerações (ao longo do século XX), mais do que dobraram sua produção de grãos, suprindo as demandas de sua população - que duplicou no mesmo período -, tornando aquele país uma liderança nas exportações de alimentos. Isso tudo graças à revolução na produtividade do campo pela “mecanização do plantio e da colheita, ao melhoramento de sementes, ao uso intensivo de fertilizantes e defensivos e ao manejo científico dos recursos naturais”. No Brasil, lembrou o presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar, passamos de uma produção de 20 milhões de toneladas de grãos e mais ou menos a mesma quantidade de cana-de-açúcar, em 1960, para as atuais 130 milhões de toneladas de grãos e 400 milhões de toneladas de cana, graças à “pesquisa e o fomento que abriram caminho para a soja, correção intensiva dos solos pelo calcário”, ao melhoramento das gramíneas e ao que definiu como o maior caso de sucesso na história da moderna agricultura tropical: a ocupação produtiva do Cerrado (sem dúvida um sucesso, mas com tons ambientais trágicos). Entusiasmado, observou ainda que este avanço na produtividade agrícola “engatinha”, pois mal começamos a explorar as possibilidades da engenharia genética.

 

Para Carvalho, Fidel Castro - um conhecido entusiasta da possibilidade que o etanol da cana-de-açúcar oferece às nações tropicais que dispõem de terras e de água abundante -, “virou a casaca”. Isto porque o líder cubano se contrapôs ao projeto de disseminação da bioenergia co-patrocinado pelos Estados Unidos e pelo Brasil em uma declaração ao jornal “Granma”, em que assumiu a defesa da produção incondicional de alimentos. Tornando-se, assim, um, discípulo de Thomas Malthus.

 

O engenheiro e físico Bautista Vidal, apaixonado pelos biocombustíveis e criador do Pró-Álcool nos anos 70, também acha que o posicionamento de Fidel Castro, ao combater o programa do álcool, está “profundamente equivocado”. Bautista defende que a produção de álcool gera uma grande quantidade de alimentos como subprodutos: as usinas, por exemplo, podem acoplar a produção de cana com a criação de gado confinado, sendo que o gado é alimentado com bagaço de cana e vinhoto, produzindo carne e leite; a raiz da mandioca também pode produzir álcool e suas folhas usadas na alimentação (de animais e de humanos, na produção de um prato típico paraense, a maniçoba); o dendê, depois de esmagado para a retirada do óleo, também gera um resíduo que pode ser usado como ração, assim como o girassol. E por aí vai, porque, como observou Bautista, em geral, a produção de biocombustíveis traz como conseqüência um aumento na produção de alimentos.
Estudos recentes do consumo humano da biomassa, apoiados em imagens de satélite, mostram que a nossa espécie apropria-se de algo entre 20% e 50% de toda a produtividade primária da Terra.

 

Produtividade primária, como explica Marc Imhoff, um cientista da NASA envolvido com este tipo de pesquisa, é essencialmente a energia solar que é capturada por todas as plantas (cultivadas e naturais) e convertida em matéria orgânica. Este valor é absurdo, se considerarmos que somos apenas uma dentre milhões de outras espécies do planeta, mas revela que ainda há espaço para crescimento do consumo humano.


Bautista e Carvalho são figuras muito diferentes. O primeiro, por um lado, nunca foi adepto das mega-usinas e das plantations. Imaginava e ainda imagina pequenas propriedades produtoras de cana e alimento, enquanto que o presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar representa um setor já dominado por grandes indústrias. Mas é provável que ambos estejam certos. Com o desenvolvimento tanto da engenharia genética quanto da produção de biocombustíveis, é possível que consigamos ampliar ainda mais o consumo humano da biomassa terrestre, aumentando substancialmente tanto a produção de alimentos quanto de combustíveis, empurrando assim a utilização dos recursos do planeta pelos seres humanos, mais adiante, em direção ao seu limite inevitável.


Entretanto, Malthus não era nenhum idiota. Vivendo em uma era de revoluções tecnológicas, sabia que inovações ainda trariam incrementos substanciais à produtividade agrícola e à oferta mundial de alimentos. Mas estes incrementos não invalidam o postulado geral quanto à oferta de recursos naturais. Considerado o “pai da demografia”, pode ter sido bem mais. Quem sabe um precursor da ecologia? Pois, sabe-se que seu trabalho sobre a dinâmica das populações e a competição por recursos, em última instância inevitavelmente limitados, foi uma inspiração fundamental para que Charles Darwin (aliás, seu aluno) formulasse a teoria da evolução das espécies através da seleção natural. Darwin também sofreu as mais diversas interpretações e distorções racistas, que justificariam a dominação entre os povos, mas estas não invalidam seu argumento central sobre a origem das espécies nem o fato da evolução biológica. O mesmo pode-se dizer de Malthus.


Talvez a última contribuição de Fidel Casto para a História seja esta, a de apontar para os aspectos sinistros da competição entre humanos e máquinas pela bioenergia, que irá se acirrar à medida que a capacidade planetária aproxima-se de seu limite.

 

 

Rodolfo Salm, PhD em Ciências Ambientais pela Universidade de East Anglia, é pesquisador do Museu Paraense Emílio Goeldi.

E-mail: rodolfosalm(0)terra.com.br Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email

 

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Última atualização em Sexta, 11 de Maio de 2007
 

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