Polícia para quem precisa!

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É assustadora a crescente onda de violência envolvendo a Polícia Militar no futebol brasileiro. Somente nos últimos três meses, houve ao menos um notório incidente em cada um deles. Isso em plena época em que se vende a ilusão da Copa de 2014 ao público mundial e na qual cartolas bloqueiam com todas as forças quaisquer iniciativas que ousem ir na direção oposta a seus interesses – vide os bem sucedidos lobbies de Ricardo Teixeira e Carlos Nuzman para evitar a instauração de CPI sobre CBF e COB.

 

Dando o exemplo de como tem sido o combate à violência no futebol, todos os episódios referidos terminaram sem punição. Em dezembro de 2008, no caríssimo e desnecessário Bezerrão (que custou 55 milhões de reais ao orçamento da cidade-satélite de Gama), um policial foi desferir uma coronhada em um são-paulino, a arma disparou e o tiro atingiu a nuca do torcedor, que morreu na hora; em fevereiro, na saída de Corinthians e São Paulo, uma explosão ainda não decifrada causou tumulto entre policiais – que, para controlar a situação, soltaram mais bombas – e corintianos, que terminou com 49 feridos; por fim, no último final de semana, PMs baianos praticaram agressões covardes contra torcedores do Fluminense de Feira de Santana.

 

Em todos os casos, as reações daqueles que deveriam acalmar e proteger foi de total agressividade e instinto de batalha, para dizer o mínimo; em suma, o torcedor é visto como inimigo a ser combatido. Em todos, a polícia tenta se eximir de culpa, jogando-a para o outro lado, o que é lamentavelmente acobertado ou ignorado pela grande mídia, que salvo honrosas exceções só se presta a ouvir o lado das autoridades – as mesmas que deixaram o futebol brasileira falido, órfão de seus craques e violento.

 

Está mais do que provado que nossos policiais não têm o menor preparo para lidar com o público numa posição autêntica de servidor público, até porque essa concepção de policial já se descaracterizou completamente. Fora isso, tampouco possuem aptidão para controlar e contornar situações de tensão, pois estão preparados para revidar, e não tranqüilizar. É assim que se vive o dia-a-dia da profissão, o que já explica muito.

 

No entanto, é ainda mais preocupante, em um momento no qual já não se suporta bater nas mesmas teclas do tema da violência, que a própria corporação trate de ocultar a realidade e evite uma autocrítica. No caso do clássico paulista, aconteceu algo escandaloso já nos dias seguintes ao tumulto que sabe-se lá como foi pouco repercutido: o 34º. DP da capital preparou um parecer que incriminava totalmente os torcedores corintianos, sendo que tal ‘investigação’ foi prontamente desqualificada pelo próprio coronel que chefiou a segurança do clássico. Quer dizer, a PM já aprontava mais uma armação que mancha o nome da própria instituição, em moldes mais moderados, é verdade, se comparados às suas atrocidades nas periferias das cidades. Mas como confiar a resolução dessa endemia a autoridades que promovem tão escancarada falsificação da verdade?

 

De toda forma, fica difícil esperar que se resolva o problema da violência quando as próprias autoridades dão seguidos exemplos de descontrole e posterior descaso em investigações que ajudariam a moralizar um pouco o debate. Aí chovem paliativos de dirigentes e promotores incapazes de propiciar soluções verdadeiras, que terminam em mais proibições, restrições, segregações, como já se vê em São Paulo há tempos, sem qualquer efetividade.

 

A nova baboseira da praça é a de querer limitar ainda mais, ou vetar diretamente, o acesso do público visitante. Além de desrespeito ao básico direito de ir e vir, é uma terrível confissão de incapacidade da nossa sociedade em conviver minimamente bem com o contrário, que no caso é apenas alguém que prefere outro time. Se admitimos isso, não estamos em condições de nos considerar um país civilizado, simples assim.

 

São Paulo já vive um estado de exceção em seu futebol que nenhum outro local do país vive, e é exatamente a praça que concentra a maior quantidade de episódios de violência. Bandeiras, instrumentos, jornal, guarda-chuva, tudo é proibido em São Paulo, e, de quebra, os preços e horários dos jogos são cada vez mais acintosos. Natural que com esse coquetel, em meio a uma cidade já caótica e brutal, os estádios paulistas virem um barril de pólvora.

 

No resto do país, é verdade, a coisa não anda lá muito melhor. Pode-se lembrar também do episódio envolvendo a PM de Recife e os jogadores do Botafogo, agredidos e ofendidos de forma absurda no meio do campo só porque um de seus atletas se envolvera em confusão de jogo e trocou insultos com um torcedor. Ainda por cima a Câmara dos Vereadores local concedeu medalha aos policiais pelo trabalho, em patética demonstração do mais barato bairrismo.

 

Por fim, e o mais importante, é inacreditável como não se investe e se utiliza mais o trabalho de inteligência da polícia. Ao contrário do que se pensa, não são necessariamente antônimos. Conhecer com antecedência o que fazem os violentos e seus pontos de encontro pelas ruas é primordial para que se anulem suas ações. Há condições de se fazer tal trabalho com eficiência e aplicar punições concretas, já existentes em lei. Muito se cobra uma legislação específica, mas já existem penas previstas para assassinatos (ou tentativas), lesões corporais, depredação do patrimônio, dano moral etc.

 

O futebol já está cansado de autoridades que prometem soluções definitivas, anunciam grandes punições a caminho, mas terminam se envolvendo na mesma rede de facilidades trazidas pela notoriedade pública, holofotes, trânsito nos bastidores, enfim, todo o circo que só serve para alavancar carreiras e egos pessoais. Enquanto todos os desequilíbrios sociais não forem resolvidos, não será o futebol que erradicará a violência e a intolerância de nosso convívio, mas prevenir ações anunciadas de vandalismo e posteriormente cumprir a lei ajudaria muito a mantê-lo vivo sem que seja descaracterizado.

 

Gabriel Brito é jornalista.

 

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Comentários   

0 #4 caro colegagabriel brito 06-04-2009 14:15
concordo q a polícia precisa de mais treinamento, mas isso nao é por conta da própria instituição?

vemos pela periferia das cidades o quao treinada é a corporação: para reprimi, agredir, humilhar, como vemos por aí direto. sao mais de 1000 mortes por ano em confrontos com policiais, mto com a mesma justificativa, claramente falseada, e por vezes desmentidas até por matérias da grande midia.

também é farta a lista de torcedores q nao sao bandidos, nao pertencem a grupo algum, mas q se diz ofendido e destratado pela polícia num jogo.

o que quero dizer é q a corporaçao anda altamente despreparada para lidar com grandes públicos, ainda mais se houver momentos de tensao. especialistas na área, e nao eu, têm dito isso.

que existe gente violenta indo a jogo, existe, mas isso é sempre demonstrado. as matérias da grande mídia quase sempre tem o ponto de vista da polícia. o que quis aqui foi mostrar um lado um pouco diferente, de quem paga ingresso, senta no cimento e é tratado como gado, seja de organizada ou não.

quanto a soluções, coloquei no texto também, apesa de nao ser o foco. mas foi uma recomendação simples: usar a lei já existente e acabar com a impunidade. mas se os próprios cartolas vivem gozando dessa impunidade, então não é um processo tao simples assim colocar o óbvio em prática.
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0 #3 mcmyllam 06-04-2009 14:08
Concordo com você, mas percebo que você olha o problema de fora para dentro e o expôe, porém não oferece soluções, tente pensar como um policial ou um filho seu sendo policial e coloque esse policial juntamente com outros poucos para enfrentar o mundo paralelo que se forma em um clássico. O policial não tem estrutura, spray, treinamento, etc enquanto os pseudostorcedores vão apenas para fazer aquilo que vemos na televisão.

Da forma como você fala ao afirmar que policiais cometeram incidentes, parece-me que cidadãos estavam sentadinhos torcendo por seus times e com um radinho no ouvido, quando do nada policiais abordaram a todos e passaram a espancar crianças, idosos, etc.

Concordo que o policial deve ser treinado para o trabalho, ter estrutura material para essas ações, mas que tal lembrarmos que isso não é problema da polícia, mas sim do Estado, do Governo, e que tal se criticassemos os pseudostorcedores? que vão para o estádio agredir as demais pessoas que por ventura estejam com camisas de outros times, será que esse últimos não seriam os principais responsáveis pelos acontecimentos infelizes citados em seu texto em vez da polícia.
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0 #2 Zau 19-03-2009 14:22
Está muito claro o seu ponto de vista. Textos assim deveriam ter maior repercussão, fariam muito bem a sociedade.

Quanto as idéias, acho que ninguem acredita que vivemos em uma sociedade civilizada, acredita?

Agora será a vez das 'carterinhas'. Deveriam aproveitar a estada do presidente do Internacional para tomarem nota e aprenderem.

No Beira-Rio são 68 câmeras dentro e fora do estádio. Desde que foram instaladas apenas 1 pessoa causou incidentes e protamente foi identificada e punida. Os únicos flagantes que as câmeras seguem dando são de portadores de maconha. Ninguem mais vai ficar se arriscando nos arredores do estádio.

A Escócia e a Inglaterra acabaram com os casos de violência principalmente devido as instalações de câmeras. Claro, tecnologia aliado a aplicação das leis.

E o Inter também dá aula em lidar com o público e em formação de jogadores. Um time que em 2001, 2002 estava "falído"...

abraços, siga assim, estão ótimos os textos.
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0 #1 boa..Rafael Fialho 10-03-2009 13:25
Concordo com tudo.. mas com relação ao bairrismo faça o seguinte: quando a ocasião permitir (que é quase sempre), critique o "pós-bairrismo" que que parte do quintal do Brasil (eixo sul/sudeste).. grato.
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