Um Caminho Anticapitalista no Brasil

 

A esquerda brasileira vive um momento de fragmentação e procura de rumos. É inegável que as causas não são simples. A desagregação do socialismo real e o caminho quase único vivido pela forma de reprodução neoliberal do capital foram motivos fortes o bastante para desarticular a esquerda. Concomitante, ou por causa disso, a maior parte da esquerda mundial capitulou para propostas liberais-sociais. Foi o caso de partidos comunistas e socialistas na Europa e do Partido dos Trabalhadores no Brasil.

 

Neste processo, os partidos políticos foram se descredenciando junto àqueles que mantiveram as rebeldias anticapitalistas e muitos militantes foram se abrigar em movimentos sociais e ONGs, abandonando a perspectiva da disputa do poder central. Afinal, o Brasil era um exemplo da impossibilidade de mudanças via partidos, pois as classes populares haviam construído um partido de baixo para cima, crítico ao capitalismo, que, chegando ao poder, capitulou.

 

O problema é que o partido e a disputa do poder político continuam tendo certa centralidade. Apesar da necessária autonomia entre partidos, movimentos e sindicatos, é o partido que consegue congregar as diversas lutas e os diversos interesses dos trabalhadores, dos movimentos sociais e das classes exploradas no capitalismo. Sindicatos e movimentos sociais são fundamentais, mas possuem especificidades e defendem interesses específicos. Como os partidos estão em descrédito, as lutas tornaram-se específicas e fragmentadas, dando vazão ao culturalismo pós-moderno.

 

É neste sentido que necessitamos, urgentemente, reconstruir a esquerda partidária socialista no Brasil. Estamos divididos entre diversos e minúsculos partidos, fóruns, conselhos, sindicatos, consultas, movimentos, mas não temos um ponto de união para disputarmos efetivamente o poder de Estado. E a disputa pelo poder de Estado pelas classes populares é fundamental. Sem a presença, ou apoio, de um Estado popular, como manteremos as universidades, escolas, hospitais, faremos a reforma agrária, enfrentaremos o capital especulativo, os grandes meios de comunicação e por aí afora?

 

Precisamos passar por cima de divergências e sectarismos, olhar para a história da esquerda do século passado, para aprendermos nos erros e acertos, e não para ficarmos disputando "ismos". É fundamental construir um partido que, mesmo pequeno e com diversas dificuldades em seu início (como o PT foi um dia), represente a possibilidade de contribuir para superar o capitalismo.

 

A França está seguindo este caminho, pois a esquerda francesa uniu-se e criou o Novo Partido Anticapitalista (NPA). Este partido, conforme uma de suas maiores lideranças, Olivier Besancenot, conseguiu unir grande parte da tradição anticapitalista, como os "trotskistas, socialistas, comunistas, libertários, guevaristas, ou envolvidos na ecologia radical", e se propõe a realizar uma ruptura radical com o Partido Socialista.

 

Temos aqui no Brasil um enorme potencial, pois construímos uma tradição que ainda não se perdeu nas entranhas da burocracia. Precisamos nos unir para "batermos de frente" com o poder central liberal-social, para termos pontos de referência mais concretos do que o "nosso" movimento. Pois senão, estaremos sentados em nossa impotência e reclamando que os tempos são difíceis, dizendo que o lulismo "engoliu" a esquerda.

 

Antonio Julio de Menezes Neto, sociólogo, é doutor em Educação e professor na UFMG.

 

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Comentários   

0 #8 A justiceiragertrudes a sonhadora 31-07-2009 11:31
Vamos votare em pessoas!partidos!B a h!Gente que vira a casaca, to longe pra chegar aonde pretendo mas quero entender e que entendo e que gente que vira casaca jamais se devera confiar!Sou idifinida e e preparo pra isto mas como pessoa sou pra la de idonea!Inventem uma palavra digna pra mim e ja estarei no apice da questao levando o pais ao limite maximo em ambito mundial!Gente que faz e gente que contem e t i c a! Contem nem que for igual a marca 1grama!
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0 #7 Superação das idéiasJoventino dos Santos Silva 25-02-2009 19:12
Interessante quando abordado a questão da esquerda no Brasil. Se observarmos na história desse país fica fácil perceber as inúmeras contradições encontradas nos mais diversos movimentos sociais. Ora! A contradição faz parte da construção, do movimento, da dialeticidade da própria HISTÓRIA... Muitos movimentos sociais caíram no fatalismo da lógica do capital, do individualismo (mesmo que seja de seu próprio grupo), da lógica que o Estado é superior à sociedade civil (esquecendo de suas obrigações para com os interesses comuns a uma sociedade de fato), de que o papel dos governantes é o de prestar serviço público para o público da melhor maneira possível...
Nesse universo, os partidos políticos não se diferenciam; seja lá qual for. Lembremos de Marighela, que assim que questionou a ditadura militar foi expulso do PCB (partido o qual ele fazia parte); dos sindicatos ligados a Getúlio Vargas e da perseguição daqueles ligados aos anarquistas entre outros eventos.
Toda essa discussão me fez lembrar da obra de Lenine intitulada “A doença infantil do comunismo: ‘o radicalismo de esquerda’”.
Então pensemos em Nietzsche quando afirma que, “a liberdade dos homens é também obra de cada um. E, para que cada um possa construir o seu destino, faz-se a cada um necessário libertar-se primeiramente das algemas das mentiras milenárias que criaram o desgosto da vida...” (Vontade de potência, s/a, p. 77).
Acredito que a saída não se encontra em exemplos banais e banalizantes. Esses se relacionam mais com a alienação, a qual é a nossa maior inimiga; ela produz a padronização. Já “a padronização do gosto das idéias e das perspectivas é um desejo de projeção do homem-massa” (Nietzsche, s/a, p. 71). O caminho precisa ser construído e isso demanda tempo e persistência numa dimensão em que as idéias sejam inter-relacionadas em busca de sua superação, TALVEZ DA SUPERAÇÃO DE NOSSA PRÓPRIA LÓGICA.
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0 #6 Um Caminho Anti capitalista no BrasilJorge Luis Martins 22-02-2009 09:56
Estou de pleno acordo com o Professor, mesmo porque embora ainda acredito que existam homens e mulheres de bem no PT, não acredito que exista nenhuma possíbilidade de reverter o quadro de podridão da estrutura partidária. O destino do PT é virar uma espécie PMDB.
Digo isto com certa tristeza pois toda esquerda lutou para colocar o PT no (governo) e a cena é de um monte de burocrata que nunca havia comido mel e ao ver a preciosidade se lambusou, nos cargos , mensalões, e rendiçaõ completa sobre qualquer critério e principio de propostas socialistas.
Não existe mais criança para jogar junto com a agua suja, agora è só lama pois as crianças continuam no trabalho infantil e nos faróis pedindoi uma moedinha.

Saudações
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0 #5 Wendell Setubal 22-02-2009 09:50
O artigo é excelente, fala por si só. Atenho-me ao comentário de um leitor ingênuo, que indaga como poderia ser diferente. Poderia. O Prouni não representa nenhum avanço na questão educacional, resolve o problema da inadimplência das universidades particulares, com o governo isentando-as de tributos em troca de vagas. As federais continuam à míngua, e o governo ainda ensaia propostas de fundação, privatização disfarçada. Quanto ao Bolsa Família, nunca foi ideário da esquerda a prática assistencialista. Políticas compensatórias são parte das exigências do FMI, do Consenso de Washington, não da esquerda. Principalmente quando se vê que o governo tem duas bolsas famílias, a dos pobres, essa sempre em maiúsculas, e a dos ricos, de que não se fala, que são os juros dos títulos da dívida pública, possuídos pelo conjunto da burguesia brasileira. Ótimo que aumente o salário mínimo, mas ele deixa intocado o fosso que existe nas rendas dos trabalhadores e dos patrões e rentistas. Como fazer diferente? Se as resoluções do PT até 2002 fossem transformadas em políticas de governo, teríamos algo diferente, só que sem PMDB, sem as alianças espúrias. O Prouni, o Bolsa Família representam o que a operação plástica de Dilma representou: arranjo cosmético para "melhorar" a imagem.
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0 #4 Andre Yang 22-02-2009 09:09
Jesse, se fosse assim, como teria o PT se feito grande? Com qual exemplo eles contavam?
A verdade é que o carissimo professor tem razao, sem essa uniao, nao teremos nem esperança de mudança..
E é claro q o PT nao pode fazer parte de um projeto como esse. Ha muito eles se desvirtuaram, abandonaram a causa...
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0 #3 AnticapitalismoMagno Oliveira 20-02-2009 19:20
Mais uma vez o nobre companheiro Antônio Júlio apresentou uma reflexão bastante lúcida e coerente. Se o comentarisa Jesse Fernandes me permite, em nenhum momento no texto o articulista menciona jogar fora as experiências do PT. Mesmo o PT tendo se bandeado para a direita e ser protagonista principal de uma das piores administrações que o nosso pais já teve, ainda encontramos bons quadros no PT que, infelizmente, foram amordaçados. Prouni, Bolsa Família, Salário mínimo (continua mais mínimo), PAC não são projetos/ações/programas sociais instituintes e emancipatórios, mas sim formas de cooptação que, cá pra nós, deu certo, de diversos grupos sociais UNE, ANDIFES, CUT e os setores mais empobrecidos da população, que continuam empobrecidos. Nós que fomos do PT durantes tantos anos, esperávamos um empenho na mudança estrutral da sociedade e da economia brasileiras e não o aprofundamento das reformas neoliberais. Hoje, mais do que nunca, os setores da esquerda brasileira comprometidos com o anticapitalismo precisam quse que imperativamente formar as bases de convergência utilizando como referencial o povo brasileiro e não continuar uma espécie de disputa para saber quem é mais ou menos de esquerda. O ano de 2009 é um ano importantíssimo para uma articulação consistente, pois já estamos percebendo uma possível costura para um terceiro mandato para o Lula e a projeção do PSDB que investirá pesado para ganhar as eleições presidenciais. Entretanto, há de convir que Lula hoje é uma representação simbólica importante (ex-metalúrgico, origens na classe pobre, etc). O lamentável é a amnésia do presidente quanto à fidelidade às suas origens que culminaria na assunção da luta de classes, e mais lamentável ainda é que a sua importância não ultrapassou o status do simbólico.
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0 #2 Ir além...Renato Alves 20-02-2009 13:01
Eu entendi o que o Professor quer dizer e, não só isso, estou plenamente de acordo com ele. Não acho que o PT esteja sendo colocado fora. Desculpe o que teceu esse comentário, mas, eu diria que é necessário ir, inclusive, além disso na reflexão. Penso que o Giddens tem razão ao dizer que o necessário é "democratizar a democracia". Extrapolaria, ainda, dizendo que a Sociedade Civil tem nas mãos a responsabilidade pela transfromação do cenário de descrédito em que a "política" e o "político" vivem no presente. Penso que chegou a hora dela, efetivamente, interferir, de forma organizada, através dos diversos Moviemntos Sociais e demais organizações existentes, para flexionar esse modelo tradicional de Estado cuja constitucionalidade ao longo do tempo tem se dado a revelia da participação cidadã. Esse modelo está, no meu ponto de vista, mais do que ultrapassado, esclerosado é o termo. O Novo deve ser uma nova postura da Sociedade Civil, única capaz e verdadeiramente responsável por qualquer das mudanças possíveis e necessárias. Base nós temos para isso, basta reconhecer a história de organização da Sociedae Civil, tão pujante nos anos 80, onde o PT e os Partidos Comunistas, deixaram graqndiosa contribuição. Penso que o que ouve foi uma mudança de tática, tendo em vista o modelo estruturl de constituição do Estado, sob os auspícios do capitalismo radical que, resiste e, moderniza-se constantemente para não perder a hegemonia. É preciso portanto, criar algo novo para contrapô-lo. Esse novo deve passar pela transformação do modelo estrutural de constituição do Estado moderno. A despeito de todas as dificuldades, devemos por as mãos à obra. Que tal começarmos em nossa própria casa, Escola, Rua, Associação Comunitária, Universidade, principalmente...
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0 #1 capitularjesse fernandes 19-02-2009 18:13
Caro professor, se eu entendi bem, o senhor conclama a uniao das esquerdas sem a participacao do PT! Entao vamos jogar no 'lixo' toda a experiencia, boa e ma, e simplesmente iniciar um novo partido! Sei nao, mas acredito que ha uma contradicao muito forte.
Eu nao o conheco, mas percebo que ja foi filiado ao PT!
Entao, fica combinado: a gente faz a critica, jogamos a a agua suja com a criancao, e isso? como poderia ser diferente do que o PT fez ate agora? e o Prouni, o Bolsa Familia, o aumento do salario minimo...
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