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Escrito por Chico Whitaker   
Quarta, 18 de Fevereiro de 2009
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Ao senhor editorialista do Correio da Cidadania

 

Em seu Editorial de 3 de fevereiro último V.S. se equivoca duas vezes, ao comentar os resultados do Fórum Social Mundial de Belém. Primeiro referindo-se a uma "Declaração da Assembléia das Assembléias" desse Fórum, da qual cita uma frase – que coloca como epígrafe do seu texto: "Para solucionar a crise são necessárias alternativas anti-capitalistas; anti-racistas; antiimperialistas; feministas; ecologistas e socialistas". Em segundo lugar dizendo que "os ‘tradicionalistas’, se quisermos chamar assim os que defendem o Fórum exclusivamente como um espaço amplo de debate, aceitaram uma proposta de realização de uma Assembléia voltada à aprovação de um manifesto claramente fundado na ideologia socialista – a Assembléia das Assembléias".

 

Infelizmente V.S. foi vítima de uma desinformação. Devo dizê-lo independentemente de concordar ou não com a afirmação da epígrafe, nem me sentindo ofendido pelo adjetivo "tradicionalista" com que V.S. caracterizou aqueles que, como eu, acham que o Fórum é um espaço e não um movimento. Torna-se assim necessário esclarecer os leitores do Correio da Cidadania. É o que pretendo com esta nota.

 

Na verdade, em cada evento de nível mundial do processo Fórum Social Mundial, como o que acaba de acontecer em Belém do Pará, há progressos na sua preparação e são experimentadas inovações metodológicas. Cada uma das nove edições do Fórum, desde 2001, foi diferente da anterior, porque seus organizadores – ou seus "facilitadores" como passaram, aí pelas tantas, a se autodenominar – procuram tirar lições dos erros e acertos do anterior.

 

Entre as inovações introduzidas neste Fórum encontrava-se a combinação de uma Praça das Convergências, aberta ao longo do Fórum, com uma Assembléia das Assembléias, a se realizar no último dia, como seu encerramento. Essas duas inovações procuravam enfrentar um problema não resolvido desde 2001: como tornar mais visíveis os resultados das discussões e as propostas de ação apresentadas nos Fóruns. Isto não somente para alimentar a imprensa, tendente a criticá-los como lugar de muita discussão que não leva a nada; mas também para que seus próprios participantes tomassem conhecimento de outras lutas, conclusões e propostas surgidas, nelas descobrindo novas convergências e novas alianças possíveis.

 

Uma resposta a este desafio foi tentada no Fórum de 2003, com a montagem de um Mural de Propostas de Ação, à disposição dos interessados ao longo do Fórum. Em 2004 não se conseguiu fazer nada nessa perspectiva, mas em 2005 foi experimentado outro modo de montar o Mural, apresentando-o numa sessão pouco concorrida de encerramento. Nele apareceram 354 propostas nascidas no Fórum.

 

Houve, no entanto, um problema: no Mural se misturavam propostas de ação local ou de âmbito mais restrito com outras mais amplas, como por exemplo, naquele ano, as que visavam uma reforma das Nações Unidas, uma Proposta de um "Consenso de Porto Alegre", mobilizações e campanhas mundiais. Isto dificultou a compreensão do objetivo do Mural e diminuiu seu interesse.

 

Em Nairobi, em 2007, experimentou-se, com essa mesma preocupação, realizar na manhã do último dia assembléias por tema (em torno de 20), para a socialização dos resultados das oficinas e seminários. A fórmula, no entanto, não funcionou a contento.

 

A escassos três meses do Fórum de 2009, a Comissão de Metodologia do Conselho Internacional do FSM, em reunião realizada na Dinamarca, debruçou-se sobre o assunto e decidiu propor aos facilitadores de Belém uma nova maneira de solucionar o problema: criar no Fórum um espaço físico - a Praça das Convergências - em que pudessem ser apresentadas, desde o segundo dia, as propostas de ação local ou de âmbito mais restrito que surgissem; e, por outro lado, sugerir, às organizações que estivessem articulando ações ou campanhas mais amplas, ou de âmbito mundial, que realizassem assembléias conclusivas na manhã do último dia, seus resultados sendo apresentados à tarde numa Assembléia das Assembléias, que encerraria o Fórum. Caberia aos próprios participantes decidirem se levariam suas propostas para a Praça das Convergências ou se proporiam assembléias conclusivas. Restaria a resolver como organizar a Assembléia das Assembléias, para que não se transformasse numa maçante apresentação de relatórios e declarações.

 

A proposta parecia interessante, mas sua realização só funcionou em parte. A Praça das Convergências – embora premiada com uma bela faixa indicativa do local em que se encontrava – ficou praticamente vazia. Poucas oficinas e seminários levaram para ela suas conclusões e propostas. Quase ninguém soube de sua existência ou percebeu sua utilidade. A única coisa que nela funcionou foi um bebedor de água potável, que no calor de Belém atraiu filas e filas de participantes... Menos mal que também não foi "achada" por jornalistas – que eu saiba -, embora tenha sido anunciada na entrevista coletiva inicial do Fórum...

 

Já as Assembléias Conclusivas da manhã do último dia foram muito bem sucedidas, embora poucas tenham conseguido atrair muito mais participantes do que aqueles que já vinham se articulando e as propuseram. Todas elas (mais de 30) parecem ter chegado a propostas concretas de ação, a se julgar pelo que apresentaram à tarde (e conforme se pode conferir no site do Fórum).

 

Por outro lado, com a Assembléia das Assembléias se conseguiu superar uma antiga tensão entre os facilitadores dos Fóruns e os organizadores da "Assembléia dos Movimentos Sociais", uma forte articulação internacional nascida no processo. E isto foi um grande progresso de entendimento e busca de aperfeiçoamento da metodologia do Fórum. Esta Assembléia se realizava quase sempre após o término dos Fóruns, criando, principalmente para os jornais, a imagem enganosa de que seu documento final era o documento final do próprio Fórum - o que contrariava a Carta de Princípios. Neste Fórum ela se realizou durante o Fórum e sua declaração final foi apresentada na Assembléia das Assembléias. Este fato permitirá ainda a montagem de um "calendário de lutas" mais amplo do que aquele tradicionalmente apresentado pela "Assembléia dos Movimentos Sociais". Ele incluirá, quando divulgado pelo site do Fórum, propostas de outras manifestações e ações, em torno das temáticas das demais assembléias da manhã do ultimo dia.

 

Só o desenrolar da Assembléia das Assembléias não conseguiu deixar de ser maçante – além de ter sido prejudicado por uma chuva torrencial antes de se iniciar. Mas isto é outro problema a resolver, no próximo Fórum, se mantivermos essa fórmula...

 

Em conclusão, não houve em 2009 uma "Declaração da Assembléia das Assembléias", mas sim mais de 30 declarações finais, como se propõe na Carta de Princípios do FSM. A epígrafe usada no Editorial do Correio é um trecho de uma dessas Declarações. Nenhuma delas, por outro lado, foi "aprovada" pela instância constituída pelos participantes dessa Assembléia. Aliás, em nenhuma das instâncias do Fórum se "aprovam" coisas, nem por voto nem por aclamação. Decide-se por consenso, o que exige um esforço de debate e construção que toma tempo. V.S. me perdoe, mas comeu gato por lebre.

 

São Paulo, 16 de janeiro de 2009.

 

Chico Whitaker, representando a Comissão Brasileira Justiça e Paz no Conselho Internacional do Fórum Social Mundial.

 

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Última atualização em Sexta, 20 de Fevereiro de 2009
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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