O canto das sereias

 

Ei-lo: o Partido do Movimento Democrático Brasileiro à frente das duas casas congressuais: o Senado (José Sarney) e a Câmara dos Deputados (Michel Temer). Nem na Roma antiga, republicana, tal fenômeno parecia possível. Em nome da divisão de poderes, as famílias nobres cultuavam a diversidade como antídoto ao absolutismo. Aqui não; a cobra fuma e não expira.

 

O PMDB possui uma bancada de 21 senadores, 93 deputados federais e comanda 1207 prefeituras, entre as quais cinco capitais. Conta com sete governadores e igual número de ministros. De fato, é um partido repartido em tendências inclusive antagônicas. Nele há de tudo, desde o testemunho ético de um Pedro Simon às recorrentes denúncias de corrupção que historicamente pesam sobre alguns de seus líderes partidários. Ele pratica, mais que a democracia, a demoarquia, originária do verbo grego archein, que significa ser o primeiro, estar à frente, no sentido de comandar processos.

 

Quem diria que o PT seria politicamente atropelado pelo trator do partido dirigido por aqueles que aprenderam a conjugar assim o verbo poder: eu posso, tu podes, ele pode; nós podemos, vós podeis e eles não podem, a menos que rezem pela nossa cartilha e favoreçam nossos interesses corporativos. É a corporocracia.

 

Ora, para que plebiscitos se, há décadas, vivemos no regime parlamentarista? O PMDB exerce a função de primeiro-ministro, o Executivo preside. Ou quem sabe estamos, sem nos dar conta, em plena monarquia! A família peemedebista se sucede nas instâncias do poder com direito a conceder a correligionários e aliados cargos e prebendas.

 

Não importa que os discursos sejam outros. Na Inglaterra, enquanto o parlamento grita, a rainha reina. Aqui, idem. Haja o que houver, estamos em mãos do mais despudorado fisiologismo, cujos discursos sobrevoam eloquentemente as práticas do clientelismo e do compadrio. Se o mundo gira e a Lusitana roda, os governos se sucedem e o PMDB impera. ‘Hay gobierno, soy a favor’, grita a ala dos peemedebistas acostumada a mamar nas tetas da máquina pública.

 

E o que tanto aspira este partido que jamais soçobra nas turvas águas da conjuntura? Como é possível contracenar com a ditadura e celebrar a democracia? Basta ter uma só meta, um só objetivo, uma só ambição: o poder. Se muitos sucumbem às tentações do poder, do dinheiro e do sexo, a ala fisiologista do PMDB, se vivesse no Paraíso, não teria caído no conto da maçã, e sim tentado convencer Javé de que o mundo seria melhor tendo-a como braço direito.

 

Coitado do doutor Ulysses Guimarães e toda a sua luta por uma democracia participativa! Conta Homero, na "Odisséia", que Ulisses encontrou, na Ilha das Sereias, curiosas criaturas com cabeças e vozes de mulheres, mas com corpos de pássaros que, com doces canções, atraíam marinheiros ao encontro das rochas. Quando o barco se aproximou, uma calmaria se abateu sobre o mar, e a tripulação utilizou os remos. De acordo com as instruções de Circe, Ulisses tampou os ouvidos da tripulação com cera, enquanto ele próprio foi amarrado ao mastro, de modo que pudesse ouvir a canção e passar a salvo pelo perigo. "Aproxime-se Ulisses!", cantavam as Sereias. Ulisses resistiu, mas quantos, a bordo do transgoverno chamado PMDB, são capazes de tapar os ouvidos ao canto das sereias?

 

Narra ainda Homero que Penélope, fiel esposa de Ulisses, rechaçou todos os pretendentes, até que surgisse um homem capaz de atirar com o arco que Ulisses tendeu. Nenhum deles o conseguiu. Até o dia em que um mendigo tomou em mãos o arco e, na mesma hora, Penélope reconheceu nele seu amado Ulisses.

 

A democracia brasileira espera, como Penélope, o dia em que poderá reconhecer sua plenitude na inclusão social daqueles que, hoje, se nos apresentam como o maltrapilho Ulisses.

 

Frei Betto é escritor, autor, em parceria com Marcelo Barros, de "O amor fecunda o Universo – ecologia e espiritualidade" (Agir), entre outros livros.

 

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Comentários   

0 #2 O canto das sereiasManoel de Christo Neto 23-02-2009 12:13
Não resta dúvida que não apenas o PMDB, mas todo o congresso nacional e seus partidos de fachada, chafurdam-se no fisiologismo e visam seus interesses pessoais e eleitoreiros, pouco se importando com a construção efetiva da democracia e com o bem comum.
Faltou contudo ao Frei Betto (que sempre faz análises lúcidas e contundentes) dar ênfase às sereias petistas que picadas pela mosca azul (como o próprio Frei Betto analisa em livro com o mesmo título), negaram o passado histórico de luta e jogaram no lixo a oportunidade histórica de construirmos um país que não dê as costas ao seu povo.
O canto das sereias continua a enfeitiçar ouvidos sedentos de poder.
Pobre Penélope, pobre povo, pobre de nós - que transformados em categoria sociológica e objeto de discurso político, saímos da agenda oficial.
Enquanto a troca de favores continua e o ideal franciscano é pervertido, o PT perde mais uma vez a oportunidade de lançar uma candidata à altura dos anseios populares, como a ex-ministra Marina Silva. Prefere optar pela continuidade de um projeto de poder e não mais de um projeto de sociedade - como alguns de seus intergrantes ainda aspiram.
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0 #1 o canto das sereiasrenato machado 17-02-2009 12:57
Não podemos esquecer que o regente dessas empreitadas é o governo Lula onde o próprio é o principal fiador, onde o PT , a CUT , a UNE , etc ,etc,nada piam. É uma pena.Quem garante que o PMDB apoiará a Dilma em 2010. O Lula ingênuo não é. Quem é o Lula?
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