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Sétimo dia: de Adão Preto a Zé de Antero Imprimir E-mail
Escrito por Roberto Malvezzi   
Qui, 12 de Fevereiro de 2009
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Essa semana ocorreu o enterro de Zé de Antero, dez dias depois de sua morte. Foi encontrado morto nas caatingas de Areia Grande, terras pelas quais lutou a vida toda junto com inúmeras comunidades da região. Há mais de trinta anos, Zé era uma das lideranças de Riacho Grande. Resistiu ao agronegócio do regime militar, resistiu ao agronegócio do governo Lula. No regime militar queriam as terras das comunidades para plantar mandioca e fazer álcool. Agora querem para plantar cana e também fazer álcool. Acabou morto por dois tiros de espingarda. Não se conhece o assassino, apenas a certeza da pistolagem. Seu enterro demorou porque o corpo não tinha sido liberado pelos investigadores.

 

No mesmo dia em que o corpo de Zé foi encontrado na caatinga, já em decomposição, recebemos a notícia da morte de Adão Preto. O que um deputado gaúcho tinha a ver com um criador de bode das caatingas nordestinas?

 

É certo que nunca se viram. Mas os dois trilharam os caminhos das lutas por um Brasil justo no campo, com terra, água, vida digna para o campesinato brasileiro. Adão tinha origem rural e virou deputado da causa. Era presença certa e contínua nas romarias da Terra e da Água do Rio Grande do Sul, juntamente com seu parceiro de repentes Olívio Dutra. Esse ano, na romaria que acontece no período do carnaval, Adão será uma memória viva.

 

Não pude ir ao enterro de Zé de Antero, mesmo nos conhecendo há mais de trinta anos. Estava numa reunião da equipe de "Terra, Água e Meio Ambiente" do CELAM, em Bogotá, quando recebi no mesmo dia a notícia das mortes de ambos. No mesmo grupo formado por quatro pessoas da América Latina e Caribe, estava o companheiro Marcelo, da CPT da Bolívia. Agora ele substitui Cármen Del Rio, antes da CPT, agora embaixadora do governo Evo Morales na Espanha.

Marcelo nos contava das conquistas dos pobres da Bolívia, particularmente dos índios e campesinos, e a conquista do limite da propriedade da terra naquele país. Simples, já que não tinha apoio parlamentar, Evo jogou para um plebiscito popular a aprovação ou não da limitação. Cerca de 80% dos bolivianos aprovaram a medida constitucional, inclusive nas regiões que fazem oposição a Evo.

 

Talvez aqui esteja o significado mais profundo das mortes de Adão e Zé de Antero. Quando um país quer fazer justiça ao seu povo, um dia consegue. Quando os dirigentes decidem permanentemente ludibriar o povo, inclusive os originários do movimento popular, este acaba com um tiro na cara, como Zé de Antero.

 

Mas, as vidas de Adão e Zé dizem que essa é uma luta que não se acaba enquanto a justiça não triunfar. Se a Bolívia conseguiu, porque não o Brasil?

 

Sim, nós podemos.

 

Roberto Malvezzi (Gogó), ex-coordenador da CPT, é agente pastoral.

 

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Última atualização em Terça, 17 de Fevereiro de 2009
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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