O que é moderno hoje?

 

Foi transmitido à exaustão nos meios de comunicação o conceito errôneo de que, junto com a crise, surgem oportunidades, dando a entender que só neste instante elas surgem. A verdade é que as oportunidades estão sempre surgindo, mas nem sempre são identificadas para serem desfrutadas. O que acontece durante as crises é que saídas são desesperadamente procuradas. No entanto, pensar em saídas com antecipação para crises futuras serem evitadas seria o ideal.

 

O capital se expandiu no período anterior à crise acumulando rios de dinheiro, ou seja, durante o período de encubação da crise os lucros foram apropriados e quando ela eclodiu já não se sabia onde eles estavam. A exploração pré-crise foi muito apoiada pela mídia do capital que, durante anos, pregou princípios neoliberais e da globalização dos desenvolvidos.

 

Alguns autores cansaram de escrever, nos anos 1990, que o liberalismo econômico não resolveria os problemas sociais de diversos países e, para os países em desenvolvimento, a globalização excludente seria maléfica. Hoje, vemos países desenvolvidos tomando ações protecionistas e ninguém mais quer a economia sem regulamentação nem o Estado longe das definições outrora entregues ao mercado. E o que fala a mesma mídia hoje? Que devemos nos agarrar às novas oportunidades. Resta perguntar: por que não foram aproveitadas as oportunidades existentes antes da crise?

 

Hoje, cabe aos compromissados socialmente e nacionalistas passarem o rodo no entulho neoliberal ainda existente na nossa legislação e nas ações de alguns órgãos públicos e jogá-los no ralo da História. Além da mídia, o nosso Congresso não está em sintonia com os novos tempos. A modernidade, tão utilizada por marqueteiros para vender, muitas vezes, projetos eleitorais prejudiciais à sociedade, hoje significa ter um Estado forte que protege suas empresas e usa o mercado do país como um trunfo para o atendimento a políticas de desenvolvimento.

 

Pois bem, moderno, hoje, é revogar a lei 9.478, não só porque ela entrega a posse do petróleo a quem o produz, sem dar garantia de suprimento ao país, como também porque ela tem, no seu artigo primeiro, a lista dos objetivos da política energética brasileira, constando determinações para o atendimento aos interesses dos consumidores, sem existir determinações análogas para os cidadãos. Só um período neoliberal poderia gerar este entulho, onde consumidores têm direitos, mas cidadãos, não. Os miseráveis, em número de 40 milhões até recentemente, não são consumidores e, portanto, não são contemplados em nada por esta lei.

 

Outra lei editada com forte espírito neoliberal é a lei do gás natural. Ela chega ao cúmulo de permitir à Ceg e à Comgás, duas subsidiárias de empresas estrangeiras, a cobrança de pedágio da Petrobrás quando o gás é remetido de uma unidade desta empresa para outra dela própria, usando dutos dela também. O leitor deve perguntar o que a Ceg e a Comgás fazem para serem remuneradas então? As duas empresas ganharam cartas de corso dos congressistas que aprovaram a referida lei, recentemente, dando-lhes o direito de pilhar a Petrobrás.

 

Existe um fator positivo oriundo da crise: seu efeito didático, pois ela conscientiza que muito do que foi feito nos anos 1990 e 2000 não presta e precisa ser descartado. Se nem esta lição é aprendida - graças à mídia, aos nossos políticos, à classe dominante -, é muito triste. Pobre povo brasileiro, sofredor.

 

Paulo Metri é conselheiro da Federação Brasileira de Associações de Engenheiros.

 

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