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Apoteose da pequena política Imprimir E-mail
Escrito por Léo Lince   
Qui, 05 de Fevereiro de 2009
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O Congresso Nacional está sob "velha direção", definição apropriada que está na manchete de primeira página de "O Globo" desta quarta feira. Figurinhas carimbadas, José Sarney e Michel Temer, ambos para um terceiro mandato, foram escolhidos para presidir o Senado e a Câmara dos Deputados. A eleição não foi surpresa para ninguém, mas deu motivos de sobra para o espanto geral. As traições e os acordos de cartas embaralhadas que caracterizaram o processo, sem contar o que ainda permanece encoberto, fornecem uma pequena mostra do atual momento da política brasileira.

 

No centro da nebulosa está o PMDB, agora soberano no Legislativo federal. Trata-se de um grupamento especial que, tal como a esfinge da lenda, desafia os que tentam enquadrá-lo na tipologia dos partidos políticos. Ao tempo do Doutor Ulysses e da luta pelo resgate das liberdades democráticas, ele era um partido de "notáveis com voto de massa". No bipartidarismo de então, foi o desaguadouro natural do sentimento de "ódio e nojo" pela ditadura e vive até hoje daquele impulso. No processo da transição negociada a partir de cima, com a reestruturação partidária que o fragmentou, aos poucos foi se transformando em um partido de "notórios com massa de voto", ou com votos de máquinas, para ser mais preciso.

 

Como a ARENA dos tempos de Francelino Pereira, o PMDB é hoje o "maior partido do ocidente". Não há em nosso sistema partidário, em qualquer quesito, quem lhe retire o galardão de maioral: volume de votos, número de filiados cartoriais, capilaridade dos diretórios implantados desde os menores municípios. É o partido com o maior número de vereadores e prefeitos, deputados estaduais e governadores, deputados federais e senadores. Apesar de tanto poder nos grotões e nas estruturas intermediárias, o partido não tem projeto nacional, não tem programa para o governo central, não teve candidato próprio nas últimas eleições presidenciais e, tudo indica, não terá na próxima.

 

Parece absurdo, no entanto, existem razões para o aparente paradoxo. O maior partido entre todos, ao abdicar da disputa da principal alavanca do poder político, fez desta escolha a razão do seu imenso sucesso eleitoral. O grupo da "moral homogênea" (definição de Marcio Moreira Alves) que dirige o aglomerado de oligarquias regionais descobriu, antes dos demais partidos da ordem dominante, que programas e nitidez de projeto são um estorvo. Com o poder público privatizado, a primazia absoluta da economia sobre a política, o cerne dos governos plugado nos pontos fortes do "mercado", a subalternidade voluntária à ordem dominante é formato ideal para o sucesso eleitoral. Politizar, ideologizar, legitimar interesses e conflitos através de programas e idéias é um perigo a ser conjurado e até criminalizado. Só o interesse dominante é legítimo. Daí o farto financiamento que azeita as máquinas eleitorais que operam, na ilusão da competição eleitoral de uma democracia formal e banal, a mera reprodução do mesmo.

 

O PMDB, Hércules-Quasímodo, grandalhão feio e torto, mesmo sendo o emblema maior do desacerto geral, fornece o volume maior dos ingredientes, mas não é o mestre cuca da geléia geral. Aliás, foi o sociólogo Fernando Henrique, autor e comentarista, quem melhor definiu o cardápio. Segundo ele, a única disputa real entre o PT e o PSDB é para ver quem administra o "atraso". Ou seja, para onde pender o atraso, aí estará a hegemonia. A política macroeconômica é a mesma; a micropolítica, da qual o valerioduto é prova provada, também. Logo, está certo o sociólogo. Petismo e tucanato, Lula e FHC, dois ajuntamentos que, depois do intervalo Collor, polarizam a disputa e se alternam na presidência da República, fornecem a outra face, aparentemente limpa e apolínea, da moeda podre que nos governa.

 

O pau que sustenta a lona do circo onde o PMDB faz a festa está no poder Executivo. Hoje é o Lula, ontem foi FHC, amanhã pode ser o Serra. Os barões assinalados que mandam na economia não discriminam entre os que lhes prestam serviços. A "vanguarda do atraso", expressão forjada lá atrás para caracterizar o agora mais uma vez vitorioso José Sarney, definiu seus titulares nas eleições das mesas do parlamento. Falta definir, na disputa que aponta para o pleito de 2010, quais serão os ocupantes de turno do "atraso da vanguarda". Enquanto a cidadania permanece afastada do seu papel de soberana da política, a junção da "vanguarda do atraso" com o "atraso da vanguarda" continuará na batuta de espetáculos deprimentes, como foi a eleição das mesas do parlamento, um passo a mais na apoteose da pequena política.

 

Léo Lince é sociólogo.

 

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