Cesare Battisti e a conspiração da CIA

 

A oposição de direita e sua mídia têm aproveitado o caso Cesare Battisti para atacar o presidente Lula, que num gesto soberano e legítimo deu asilo político ao escritor italiano. Todas as noites, o casal global do Jornal Nacional apimenta as críticas, bem diferente da postura adotada quando do exílio do ditador paraguaio Alfredo Strossner. Já os jornais Folha e Estadão publicaram editoriais insinuando que o ministro da Justiça, Tarso Genro, teria simpatias por "terroristas de esquerda". Até a revista Carta Capital, um veículo progressista, reforçou estranhamente o coro crítico.

 

Parlamentares tucanos e demos, estes egressos do partido da ditadura militar brasileira, fizeram questão de se solidarizar com o primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi, o barão da mídia, que numa reação midiática retirou seu embaixador de Brasília. Caraduras, afirmam que a Itália é um exemplo de democracia para justificar o envio do escritor à prisão perpétua neste país. Nada falam sobre a trajetória ultradireitista de Berlusconi, das suas alianças com partidos neofascistas ou da recente medida do seu governo que impede que ele seja julgado por crimes de corrupção.

 

"Um bode expiatório conveniente"

 

O caso Cesare Battisti é complexo, mas não justifica a gritaria da direita servil e da mídia venal. França e Japão já deram asilo político aos condenados pela justiça italiana e não houve o mesmo alarde. O bufão Berlusconi e o processo jurídico neste país não são levados muito a sério. Como apontou Maria Inês Nassif, num excelente artigo no jornal Valor, Battisti foi condenado à prisão perpétua sem qualquer direito de defesa. As testemunhas que o acusaram de quatro assassinatos gozam da delação premiada e há indícios de que uma foi torturada. Dois dos citados homicídios foram cometidos no mesmo dia 16 de fevereiro de 1979, a 500 km de distância um do outro.

 

"(Battisti) nunca esteve num tribunal para defender-se das acusações e, de volta à Itália, não será ouvido por nenhum juiz", afirma a colunista no artigo. "Um bode expiatório conveniente à Itália". Para ela, "diante de tantas contradições e de tantos fatos mal explicados, fica a dúvida de por que interessa tanto ao governo italiano coroar Cesare Battisti como o bode expiatório de um período negro na Itália, onde não apenas a luta armada enevoou o país, mas as instituições se ajustaram a uma guerra contra o terror usando métodos poucos afeitos à ordem democrática".

 

EUA subornam políticos e jornalistas

 

O livro recém-lançado "Legado de cinzas, uma história da CIA", do jornalista estadunidense Tim Weiner, vencedor do prêmio Pulitzer, confirma a tese de Maria Inês Nassif de que o período em que Battisti participou da luta armada, nos anos 70, foi um dos mais tumultuados e sombrios da história recente da Itália. O clima era de guerra. Com base em inúmeros documentos oficiais, o autor demonstra que o serviço de espionagem e terrorismo dos EUA teve participação ativa no processo político italiano, financiando partidos da direita e realizando ações de sabotagem.

 

"A CIA gastou vinte anos e pelos menos US$ 65 milhões comprando influência em Roma, Milão e Nápoles". McGeorge Bundy, diretor da agência, chamou o programa de ações secretas na Itália de ‘a vergonha anual’. Thomas Fina, cônsul-geral dos EUA em Milão durante o governo Nixon, confessou que a CIA subsidiou o partido democrata-cristão e deu milhões de dólares para bancar "a publicação de livros, o conteúdo de programas de rádio, subsidiando jornais e jornalistas". Ele se jacta que "tinha recursos financeiros, recursos políticos, amigos e habilidade para chantagear".

 

Nutro trecho, Tim Weiner revela que a ingerência ianque se intensificou a partir de 1970. "Com aprovação formal da Casa Branca, houve a distribuição de US$ 25 bilhões a democratas cristãos e neofascistas italianos. O dinheiro foi dividido na ‘sala dos fundos’ – o posto da CIA no interior da suntuosa embaixada americana". Giulio Andreotti "venceu a eleição com injeção de dinheiro da CIA. O financiamento secreto da extrema direita fomentou o fracassado golpe neofascista em 1970. O dinheiro ajudou a financiar as operações secretas da direita – incluindo bombardeios terroristas, que a inteligência italiana atribuiu à extrema esquerda". Como se nota, não houve inocentes neste período sombrio, nem a mídia corrompida pela CIA.

 

Altamiro Borges é jornalista, membro do Comitê Central do PC do B e autor do livro "Sindicalismo, resistência e alternativas" (Editora Anita Garibaldi).

 

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Comentários   

0 #4 BatistiRenato 13-03-2009 11:07
A prisão de Batisti, é uma cilada da direita burguesa, pois a direita diz que a Itália go0za de uma democracia plena.
Mas na verdade, é uma democracia fictícia, pois qeum se levanta contra a burguesia, são condenados.
Pois se vier um criminosos chinês,russo,cubano, com certeza, Belusconi daria de brinde, um asilo de ouro.
Pois a França abriga os traidores das FARC's, desde que confessem os esquemas das FARC's ou desista.
Em 80, a CIA sabotou Roma, para culpar os comunistas, pois a Justiça italiana condenou os criminosos.
A CIA em 64, através do cel Wlater Warner, contrabandiou armas para os militares rebeldes e matou Jango, e sabotou o carro de JK..
Aqueles misssionários Mórmons, segundo o presidente Hugo Chaves, são espiões da CIA, para mapear os recursos minerais e naturais.
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0 #3 As missõesCarlos Roberto Ribeiro 16-02-2009 13:36
Na verdade tenho apenas uma pergunta:
Ao subsidiar o partido democrata-cristão, a CIA subsidiou também as missões evangelísticas cristãs para outros países?
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0 #2 Cesare Battisti e a conspiração da Ciajoao carlos pompeu 10-02-2009 14:36
Fica difícil debater uma questão técnica da jurisprudência político-diplomática com seu proselitismo requentado da guerra fria. Assunto hoje da história e da memória nos arquivos da inteligência de ambos os lados.
As pessoas que gozam da delação premiada são ex-companheiros de Battisti. Por aí vc pode avaliar quão complexa é o processo de bastidores dessa guerra suja de bodes expiatórios políticos-ideológicos dos anos de chumbo da Itália. E o governo brasileiro moveu-se por partidarismo humanitário e ideológico. Não tem nada a ver com decisão de estado, muito menos com soberania. Tarso dissimula ao defender interesses de bastidores do revanchismo de época como sendo razões de estado soberano. São razões dele e de seu propósito político, quiça da sua esfera familiar. Somente isso.
Concordo em gênero e grau com relatos da conspiração da Cia, como concordaria com tudo que vc relatasse da conspiração da KGB, da União Soviética. Foi a guerra fria não só na Itália, na Europa como na África, na América Latina, no Oriente, no mundo todo. Uma guerra, antes de tudo, de impérios ideológicos, geopolíticos, econômicos. Comunismo x Capitalismo e dane-se o resto. Como bem disse um jornalista polonês com profundo conhecimento da África entre os anos 50 e 90: na Europa não queriam saber como vivia o povo tanzaniano, mas como viviam os russos na Tanzânia. Não perguntavam pela vida dos liberianos e sim, o que faziam os americanos na Libéria. Danem-se esses povos, vítimas da guerra fria do imperialismo americano e soviético.
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0 #1 Salomão sem argumentosRogério Guiraud 09-02-2009 14:01
Caro Sr. Borges
Será que precisamos tanto voltar a argumentos 'legalistas' que a direita detém por exercício do poder que manipula e ficarmos presos à explicações desnecessárias a vida inteira?
Será que temos que argumentar com os argumentos da Rede Globo para não dizer o que seria óbvio?
Neste caso, por exemplo,a Itália e os seus 'terroristas de esquerda' têm fórum particular na imprensa brasileira de direita que nem dão bola para suas contradições como, por exemplo, de negarem julgamentos pelos crimes cometidos pela direita na ditadura brasileira, por si só crimonosa (como é que podemos ter dívida disso?) dos seus comandantes de farda e devidos paus mandados!
É que aqueles conseguem afirmar com as suas contradições e outros não conseguem pensar em falar. Por falta de quê?
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