Tempo em esgotamento

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Enquanto a Força Sindical se perde em convencer os trabalhadores a fazerem concessões salariais para garantir três a quatro meses mais de emprego, a CUT busca concessões tributárias e fiscais para que os empresários garantam empregos por tempo mais prolongado.

 

Para ser franco, numa crise sistêmica como a atual, não vai adiantar. Como também não vão adiantar as medidas daqueles governos que estão jogando bilhões de dólares para salvar bancos e empresas.

 

Isso pelo simples fato de que a presente crise do capital é de realização. Isto é, a capacidade de consumo da sociedade tornou-se muito inferior à capacidade social de produção. É evidente que há setores produtivos em que a produção não atende à demanda, mas eles também são arrastados pela crise global, pouco adiantando que estejam melhores.

 

A atual crise foi agravada porque, mais do que nas anteriores, as lambanças do capital financeiro, em especial nos Estados Unidos e na Europa, através dos empréstimos subprime, deram a falsa impressão de que a capacidade de consumo continuava alta, adiando ao máximo a eclosão da crise de realização. O resultado é que o fosso real entre a capacidade produtiva e a capacidade de consumo é muito maior do que qualquer estimativa pessimista.

 

Nessas condições, salvar bancos e empresas pode transformar-se num desastre ainda maior se não for acompanhado de vastos (vastos mesmo) - programas de criação de novos empregos. Em outras palavras, em vastos programas de recriação da capacidade de consumo. São esses programas que podem realmente garantir a sobrevivência das empresas e bancos que ainda não fecharam e criar condições para o retorno de outras, no futuro.

 

Isso é verdade tanto para os Estados Unidos e Europa, quanto para o Brasil, Rússia, Índia, China e demais emergentes. Estes, em teoria, além de não terem responsabilidade pela crise, não deveriam sofrer tanto quanto os países desenvolvidos. Mas, na prática, só não sofrerão grandes danos se entenderem que, apesar das diferenças, a natureza do problema é o mesmo. Ou seja, que a única forma de criar empregos novos, nas atuais condições, reside em abrir frentes de trabalho nas áreas de infra-estrutura industrial, urbana, rural, ambiental e o que mais haja.

 

Essa é uma missão que o capital privado não realizará. Não porque esteja sem dinheiro. Há muito dinheiro concentrado, e a salvo do desastre financeiro. Mas porque, neste momento, não adianta investir em projetos produtivos, que não trarão lucros a curto prazo. Depois, porque poucos capitalistas terão disposição em correr o risco de investir em infra-estrutura. Eles preferirão ver o mundo cair à sua volta, e só pretendem voltar a investir quando a poeira baixar.

 

Então, como já temos reiterado, cabe ao Estado assumir essa missão. O Brasil leva a vantagem de ter o PAC, e do governo haver mantido a elevação do salário mínimo. Porém, na urgência atual isso já não basta.

 

A onda de pessimismo e pânico que assola a burguesia começa a funcionar como os mecanismos internos de alguns organismos que, diante de uma infecção, resolvem responder a ela com uma carga tão alta de anticorpos, que acabam matando o organismo que queriam defender. E o novo salário mínimo só vai ter alguma efetividade na capacidade de consumo se a massa de trabalhadores de baixa renda se mantiver empregada.

 

Por isso, está se esgotando o tempo para apressar os investimentos do PAC, assim como outros meios de criação de empregos, capazes de debelar os estragos da crise na economia brasileira. Estamos vivendo uma situação idêntica às secas do Nordeste: ou são abertas frentes emergenciais de trabalho, ou o resto não valerá de nada.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

 

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