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15 anos do levante zapatista Imprimir E-mail
Escrito por Guillermo Almeyra   
Qui, 29 de Janeiro de 2009
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Em 1º de janeiro de 1994, a rebelião indígena dirigida pelo Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) em Chiapas culminou, na América Latina, em uma série de levantes indígenas vitoriosos - como o equatoriano de 1990 - e prosseguiu com ímpeto a via aberta no México pela votação de 1988 e, antes, pela mobilização dos jovens chilangos (pessoas, mexicanas ou não, que vivem dentro da Cidade do México e arredores) em 1985.

 

Uma vez corrigido seu inicial curso bélico – destruir o Exército, marchar sobre o Distrito Federal e tomá-lo –, o EZLN foi defendido pelos setores populares e despertou grande esperança. Houve momentos em que tentou, sem sectarismo e com realismo, unir seus esforços com os de outros setores progressistas (para dar-lhes um nome jornalístico e conhecido), chamando Cuauhtemoc Cárdenas para encabeçar movimento nacional de libertação ou convocar toda a esquerda a uma Convenção Nacional Democrática, que se afundou devido aos sectarismos entrecruzados.

 

Com a Marcha da Cor da Terra, demonstrou-se a vontade dos indígenas de recorrer ao parlamento para exigir seus direitos pela via constitucional e legal, reformando a Carta Magna. Porém, todos os partidos fizeram ouvidos surdos a seus reclamos e os deixaram sozinhos. Os indígenas se escoraram em suas comunidades e nelas se fortaleceram, tratando de começar a construir sua autonomia no isolamento e na miséria, e sem aliados importantes no terreno nacional.

 

As Juntas de Bom Governo e seus planos de educação e saúde foram conquistas importantes, apesar de todos os limites e das dificuldades que desde seu nascimento enfrentam. Essa experiência quase decenal está gravada a fogo nas mentes e corações não só dos indígenas senão também dos explorados e oprimidos do México, e lançou sua semente em todo o continente, porque faz parte da resistência e da tendência de autogestão dos setores mais enérgicos e combativos de todos os países latinoamericanos.

 

Inicialmente, a Sexta Declaração da Selva Lacandona suscitou novas esperanças, pois pareceu deixar para trás a etapa do mutismo e do isolamento que havia se seguido ao fracasso da Marcha da Cor da Terra e abria teoricamente o caminho para uma frente única de todos os partidários do fim desde sistema de exclusão, opressão, exploração e miséria para as maiorias.

 

Desgraçadamente, o protagonismo narcisista de Marcos e o sectarismo, assim como o primitivismo de quem admitia Stalin (e o passado do stalinismo apresentado como socialismo) e silenciava ante a corrupção parlamentarista de seus aliados (como Rifondazione Comunista, que aportava dinheiro e votava ao mesmo tempo por fundos para matar afegãos), enquanto fingiam – justamente – o parlamentarismo obtuso e oportunista do PRD (Partido da Revolução Democrática), converteram rapidamente a outra campanha em uma contra-campanha eleitoreira, concentrada, ademais, contra o candidato que despertava expectativas populares.

 

De quebra, ao silêncio teórico e político sobre todos os grandes problemas do país se uniu uma propaganda anti-política, no momento em que a maioria dos trabalhadores esperava uma mudança pela via eleitoral, que além do mais confundia partidos e políticos oportunistas defensores do sistema com seus seguidores iludidos e enganados, porém desejosos de lutar.

 

Os estudantes que pensam e lutam na UNAM foram alijados para se apoiarem em lúmpens, semi-lúmpens ou desajustados diversos. A aliança com os operários, inclusive em luta, foi rechaçada porque seus dirigentes seriam pelegos - em vez de apoiá-los e de apoiar-se neles exatamente para acabar com os pelegos. Não precisava nem olhar para a Bolívia, onde os movimentos sociais uniam a mobilização com a ação política. O Diálogo Nacional, que tentou reiteradamente dar respostas simultaneamente operárias e nacionais sobre os problemas essenciais do país, foi ignorado. O fracasso da excursão de Marcos e de outra campanha levou depois a um novo, desmobilizador e profundo silêncio, enquanto o povo mexicano tentava impedir a entrega do petróleo e da energia, e que se dessem as lanças da luta aos camponeses.

 

Desse silêncio acaba de sair Marcos, com um espetáculo/festival ao qual compareceram uns poucos políticos europeus em busca de notoriedade e votos, que se caracterizou por ser, com efeito, um festival, mas de narcisismo e verborragia de Marcos, cujas longuíssimas peças literárias são absolutamente incompreensíveis para qualquer indígena chiapaneco ou de qualquer região do planeta. Nelas, aparte uma retórica de feira popular, agitam-se poucas e errôneas idéias: a repressão contra os jovens no Distrito Federal seria igual ao genocídio anti-palestino em Gaza; Lopez Obrador, a quem Marcos tanto critica, é igual a Calderon e, o que é pior, é igual à importante massa popular que o segue, com a qual Marcos nem sequer busca um diálogo.

 

Não há perspectiva de movimentos populares no México nem há grandes temas que possam mobilizar; Marcos e a outra campanha não têm nenhuma autocrítica a fazer e a situação de perigoso isolamento e desgaste na qual se encontram os territórios zapatistas de Chiapas não exige busca de apoios e de aliados.

 

Contei-me entre os poucos que constantemente pedíamos que o zapatismo discutisse as vias para acabar com a real situação social e política, falasse, se pronunciasse, buscasse unir vontades, aprendesse de seus erros primitivos, anti-políticos e sectários à luz dos acontecimentos. Lendo agora Marcos, confesso que devo me fazer uma autocrítica: era melhor que calasse, para que suas elucubrações não obscureçam o trabalho sério e digno das comunidades indígenas que, apesar de isoladas, realizam a façanha de existir.

 

Guillermo Almeyra é professor de Política Contemporânea da Universidade Autônoma do México (UNAM) e membro do Conselho Editorial da revista Sin Permiso. Como pesquisador, produziu trabalhos sobre movimentos sociais latinoamericanos, entre eles o livro "Zapatismo".

 

Publicado originalmente em La Jornada.

Traduzido por Gabriel Brito.

 

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Última atualização em Sexta, 30 de Janeiro de 2009
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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