Guerra de água

 

Em dias de calor paulistano, por falta de uma praia ou de um rio limpo para nadar, enchemos no quintal uma pequena piscina portátil. Dia desses, domingo de verão, deixei meu filho dentro da baleia azul de plástico e pedi para que mantivesse a mangueira ali dentro apenas até enchê-la. Saí de perto e, logo depois, quando voltei para ver a quantas andava o processo, vi que a piscininha estava cheia, mas meu menino não havia fechado a torneira: brincava com o jato d'água, direcionando-o para onde sua imaginação infantil mandava, ora regando o jardim, ora brincando de fazer chover.

 

Já me preparava para falar-lhe sobre a importância ecológica de economizar água, um recurso tão valioso e tal e coisa, quando me contive e resolvi deixá-lo brincar em paz pelo menos por mais alguns minutos. É que me lembrei que o uso doméstico corresponde a uma parcela ínfima da água doce usada pelos seres humanos no Brasil. Os dados variam um pouco dependendo da fonte consultada, mas, grosso modo, 70% do total é consumido no agronegócio, 20% na indústria e apenas 10% corre pelos canos das casas e apartamentos.

 

Entretanto, quando o problema é abordado pelos grandes meios de comunicação e em campanhas de órgãos públicos, é lembrado apenas o "comportamento leviano" dos urbanos, que aliviam o calor lavando um carro, uma calçada ou se divertindo numa piscininha. Ou que se refazem de um dia cansativo tomando um banho um pouco mais demorado no inverno. Reparem que o foco é sempre direcionado apenas para o consumidor doméstico: devemos tomar banhos de cinco minutos, usar a água da lavadora de roupas para lavar o quintal e fechar a torneira enquanto escovamos os dentes. Lavar o carro? Só se for com balde, porque assim você gasta não sei quantas vezes menos água do que com mangueira.

 

Por que esta patrulha, que faz-nos, cidadãos comuns, ficarmos neuróticos a ponto de censurar uma criança por brincar com a água? Por que não direcionam sua artilharia também para as gigantes da indústria alimentícia, como as processadoras de carnes, altamente poluidoras e que utilizam grandes quantidades de água limpa em seus processos, muitas vezes devolvendo-a contaminada para o ambiente?

 

Por que não questionam o sojicultor e o sucroalcooleiro que, ao irrigarem suas megaplantações com água limpa, levam de volta para os rios e impregnam a terra com venenos, como agrotóxicos e fertilizantes produzidos a partir de petróleo? Ou, ainda, por que não questionam a necessidade de alguns processos que consomem (e poluem) quantidades enormes de água, como, por exemplo, as indústrias de aço e de tecidos, refinarias de petróleo e cervejarias, entre muitas outras? Eu tenho um palpite: porque eles ganham rios de dinheiro com as atividades que poluem os rios.

 

O mesmo raciocínio pode ser utilizado com relação ao consumo de energia elétrica. Enquanto fazem-nos sentir culpados pelo banho quente ou por deixar a geladeira aberta por mais do que alguns segundos, a produção de alumínio responde sozinha por mais de 5% de toda a energia elétrica consumida no Brasil. Vale destacar que, na quase totalidade dos casos, os processos produtivos, sejam eles na indústria ou no agronegócio, não são eficientes, até porque muitas vezes as empresas contam com subsídios governamentais e pagam pouco pela água e pela energia elétrica que consomem. Quase sempre há perdas significativas desses insumos, que poderiam ser reduzidas com um pouco de boa vontade para a tomada de algumas medidas relativamente simples. Mas não se vê governo ou mídia cobrando a implementação dessas medidas. Um grande mistério.

 

É verdade que, na maior parte dos casos, a água usada no agronegócio e na indústria não passa por tratamento para tornar-se saudável para o consumo, como a que chega às nossas torneiras. São as chamadas águas de reuso ou aquelas captadas diretamente dos rios. Poder-se-ia, portanto, contra-argumentar por aí. Mas perceba que a alta cada vez mais acentuada no custo dos processos de purificação da água está ligada diretamente com o crescimento da poluição, a maior parte dela causada pelos, voltando para o começo, processos industriais e agropecuários. Trata-se de um ciclo interligado em todas as suas muitas fases, que não pode ser analisado separadamente.

 

Pior: o próprio poder público, que cobra da população uma atitude responsável, não parece importar-se: quase a metade (45%) de toda a água que se retira de mananciais para abastecer as capitais brasileiras é perdida antes de chegar às casas e atender à população, na maior parte dos casos por conta de vazamentos nas tubulações (ou, importa-se sim, mas importa-se apenas em nos culpar, não em resolver o problema). Não, não é brincadeira. São dados oficiais do Ministério das Cidades, a partir de informações fornecidas pelos órgãos estaduais: quase metade da água tratada pelas "Sabesps" Brasil afora não chega nas torneiras pela falta da manutenção. Então, ao invés de focar apenas no consumidor, os governos poderiam cuidar da parte que lhes cabe e consertar os canos. Mas, não!

 

Mais alguns dados alarmantes relacionados ao governo (e perceba que "governo" quando tratamos desse tipo de questão são todos, os atuais e passados, desde sempre): apesar de ser bastante divulgado que mais de 60% das residências no Brasil já contam com coleta de esgoto, pouca gente lembra que apenas 6% do esgoto é tratado. O restante é despejado in natura em rios e lagos, novamente encarecendo o tratamento da água que chega às casas e alimentando o ciclo da sujeira e do descaso.

 

A moral dessa história é que continuamos nós, cidadãos comuns, arcando com todo o ônus e passando longe do bônus. Para não mexer com interesses poderosos (dos quais são parte integrante), governo e mídia preferem transferir o problema para o elo mais fraco, eu, você e nossos filhos, mesmo que possamos fazer muito pouco pela solução do problema. Veja só: somos 180 milhões, responsáveis por 10% do consumo. Não seria mais inteligente compartilhar os esforços com aqueles que consomem os 90% restantes, ainda mais considerando que eles são em número infinitamente inferior? E trabalhar arduamente para eliminar as perdas na rede de distribuição e para universalizar o tratamento de esgotos?

 

Não vou, por conta disso, deixar de economizar água. Vou também continuar adotando as práticas defendidas nas reportagens especiais que sempre surgem nos meios de comunicação sobre o colapso do abastecimento nas grandes cidades - até porque elas são "tecnicamente" incontestáveis. Varrerei a calçada, apesar de saber que a vassoura hidráulica é muito mais divertida. Aproveitarei a água da piscininha e captarei água da chuva para regar meus vasos nos dias de seca, apesar do trabalho que dá. Fecharei a torneira enquanto escovo os dentes, apesar de adorar o barulhinho da água correndo enquanto medito durante minha higiene bucal. Farei tudo que venho fazendo, sabendo que minha parte faz diferença. Mas não me peça para não deixar as crianças se divertirem brincando de guerra de água no quintal num dia de calor.

 

Danilo Pretti Di Giorgi é jornalista.

 

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Comentários   

0 #8 izal Ribeiro 12-03-2009 14:49
Muito importante essa idéia de esclarecer os leitores sobre a \"culpa\" do consumo de água.
Quero lembrar que nas primeiras dácadas no século vinte, Saturnino de Brito, então diretor da Companhia de Melhoramentos do Rio Tietê propôs um projeto onde o trecho urbano do referido rio, bem como seus afluentes, seriam reservados para compor a área de manancial e estética da cidade de São Paulo. Houve uma batalha política e ela foi ganha pela ligth que reduziu leito do rio para geração de energia, condenando seus afluentes à
condição de esgotos.
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0 #7 água de todoslizete 22-01-2009 09:09
muito pertinente esse artigo do Danilo. lembrando que está tudo perdido quando:".. os maus servem de exemplo e os bons de riso" há uma inversão da razão perfeita daqueles que tentam utilizar as massas para a encobrir suas irresponsabilidades, será oportuno que todos os usuários dessa preciosidade ÁGUA sejam colaboradores na racionalidade do consumo. senão, daqui há algum tempo, nem para nossas crianças a utilizarem em seus sonhos de fundo de quintal haverá chances. todos somos colaboradores universais nesta questão.
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0 #6 Guerra de todosEdson Mitsuhide Tsuhako 21-01-2009 11:16
Prezado Danilo, muito bom o texto que você escreveu! Só não concordo com algumas observações suas. Em uma delas você escreveu que o custo de purificação da água está relacionado com o aumento da poluição das águas provocada pelos processos industriais e agropecuários. Creio que sua informação não está totalmente correta. Se observarmos bem, o custo do tratamento de água para consumo está sim relacionado com o grau de poluição dos corpos d’águas utilizados para abastecimento, porém, as principais fontes de poluição são os esgotos domésticos e a supressão das matas ciliares. Sem matas ciliares, o aporte de sedimentos nos corpos d’água aumenta, encarecendo o custo para o seu tratamento. Contribuindo em menor proporção, estão os processos industriais e agropecuários, isso porque, por lei, as indústrias são obrigadas a tratarem seus efluentes e a eficiência desse tratamento está diretamente ligada à classe e ao padrão de uso do corpo d’água. Há, mesmo que não eficientemente, a fiscalização ambiental sobre as indústrias que, no caso do Estado de São Paulo, é realizada pela CETESB. E isso inibe as indústrias de poluírem os corpos d’águas. Por sua vez, as atividades agropecuárias contribuem para agravar a situação com o uso de agrotóxicos e fertilizantes, mas, mesmo assim, está atrás da poluição provocada pelos esgotos domésticos. Fertilizantes e agrotóxicos provocam, principalmente, a poluição das águas subterrâneas. Sem a presença das matas ciliares, uma parte desses insumos agrícolas escoam superficialmente até os corpos d’águas. Enfim, o grande vilão continua sendo o descaso do governo em relação ao tratamento de esgoto e, inclusive, quando deixam de exigir a preservação ou recuperação das matas ciliares, as quais são consideradas Áreas de Preservação Permanente, por Lei! Exemplos? É só olhar nossos diversos rios e reservatórios (artificiais ou naturais) de água doce. Billings, Guarapiranga, Itupararanga, Barra Bonita estão aí para ilustrar o quadro somente no Estado de São Paulo. E o que dizer de nossos rios? Alguns, como o Tietê, nem possuem vegetação ciliar aos longo de suas margens e, pior, tiveram seu leito concretado. Triste realidade! Em algumas cidades existem iniciativas de reflorestamento das margens dos rios e demais corpos d’água, porém, ainda é muito tímida essa ação, mas, como você mesmo escreveu, todos nós temos que fazer nossa parte. E olha lá que plantar uma árvore a beira de um rio pode ser tão divertido quanto brincar de guerra de água, especialmente se resultar em um rio mais limpo, onde nossas crianças poderão nadar, assim como faziam nossos avós. ;P
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0 #5 Guerra de águaOrlando Batista dos Santos 21-01-2009 06:31
Parabéns pelo artigo, Danilo; chega de romantismo barato. É preciso acabar com a hipocrisia também quando se tratar de meio ambiente. As perspectivas sobre o meio ambiente são deveras sombrias, mas quem realmente causa problemas acaba sendo poupado de suas responsabilidades.
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0 #4 Mídia \"burra\"Eduardo Nunes de Lima 21-01-2009 05:22
Muito bom o texto! É bem verdade que um comportamento equivocado (como lavar a calçada com água tratada) nunca deve ser justificado por um pior! Mas, o que eu verifico é a absoluta "burrice" da mídia! Em especial da grande mídia, que aborda os assuntos com a profundidade de uma poça de água (e aqui não falo das enchentes catarinenes!)
Considero, ainda, que o comportamento individual não é suficiente para solucionar os problemas individuais. Mas é mudando os hábitos pessoais, que começamos a prestar maior atenção aos atos coletivos e fazer uma marcação mais "cerrada".
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0 #3 InformaçõesUriel Garber 20-01-2009 15:48
Muito esclarecedor o texto, são dados realmente alarmantes. Seria interessante colocar alguns links com estes dados citados. Obrigado!
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0 #2 Água de todosElaine Santos 19-01-2009 08:58
O desabafo tem sido uma constante entre os ambientalistas, e agora do Danilo Giorgi.

São manifestações de inconformismo feitas somente por quem realmente leva a preservação ambiental além das fronteiras teóricas.

O "Faça sua parte" de repente já não está mais sendo uma motivação para quem realiza, porque estes estão sentindo muito peso em realizar sozinho e aos poucos.

Vale a reflexão que apresentou o Danilo: em que momento a responsabilidade sobre o uso consciente da água passará a ser de todo mundo?
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0 #1 beatriz souza 17-01-2009 22:30
Pois é... embora desconhecendo os dados técnicos citados no artigo, já defendi o mesmo ponto de vista com uma senhora de baixa renda que proibia os filhos de encher a piscininha de borracha com água... Realmente existe uma neurose coletiva no tocante ao consumo de água. Outra questão que me intriga é a seguinte: Por que existe punição para quem mata animal silvestre para servir de alimento, mas, em contra partida não se proibe a pesca esportiva, visto que os pescadores ao praticarem esse esporte ferem os peixes e, hipocritamente devolvem os mesmos ao mar/rio tentando nos convencer de que os mesmos não morrerão devido ao ferimento da isca?
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