Zé do livro

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Zé do Livro acorda cedo para vender livros usados e manuseados em vários pontos da grande cidade. Gosta de repetir para os clientes indecisos: “livro novo é aquele que você não leu”.

 

Camelô de livros baratos, Zé do Livro acredita na cultura, na ficção, na poesia, na ciência, nas idéias, nos índices e posfácios. É um idealista realista, porque livro é seu negócio, sua mercadoria, sua sobrevivência. Sua fome (de estômago mesmo) só não é maior do que sua fome de leitura. Depois do café da manhã, só pensará em almoço quando vender algum livro.

 

Não é pobreza, o seu problema. Pobre ele não é. Tem livros, tem vocabulário, intimidade com autores inesquecíveis, repertório, opiniões, referências, tem lá suas teorias sobre a sociedade monetarizada e o fim do mundo. Pobre é um país com leitores que não lêem. E essa pobreza, sim, o angustia.

 

Zé do Livro põe os livros na calçada, atrapalhando o fluxo dos pedestres. Quando chove sai correndo para que os livros não morram afogados. No final do dia, alguns trocados no bolso, volta com sua sacola de livros (poucos vendeu), sacola sempre cheia também de esperança — amanhã muitas pessoas vão descobrir que leitura é libertação.

 

Ao longo do dia, Zé do Livro lê e relê, faça frio, faça calor. Sabe que um livro, em sua vida útil, pode passar pelas mãos de 5 a 6 pessoas. Ele sente nas páginas envelhecidas as impressões digitais (e mentais) dos leitores que já tocaram o livro. Zé do Livro (coisa inexplicável, mas normal) consegue sentir nos livros usados as dores e alegrias de quem já os folheou.

 

Livros têm dono e não têm. Assemelham-se a tartarugas, querem viver mais de 100 anos, passar de pai para filho, de avô para neto, de desconhecido para desconhecido.

 

Volta e meia encontro Zé do Livro vendendo livros em ruas, avenidas, becos, ladeiras, escadarias, praças. Os preços são imorais de tão baixos. Sua intenção maior é que o leitor leve o livro, e que a sua sacola de sacoleiro volte mais leve. Zé do Livro, o melhor amigo dos livros e leitores. Providencia encontros, reencontros.

 

Antes de dormir, Zé do Livro faz seu exame de consciência: Terei amado os livros com amor verdadeiro? Li os livros com a criatividade que eles merecem? Fiz meu proselitismo... “proselivrismo” em prosa e verso?

 

 

Gabriel Perissé é doutor em Educação pela USP e escritor.

Web Site: www.perisse.com.br

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