2009: a esperança vencerá a crise?

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O Ano Novo começa cheio de interrogações.  A esperança vencerá a crise? Tempos melhores se anunciarão para a humanidade?  Obama conseguirá governar de maneira a cumprir ao menos em parte todas as expectativas que pesam sobre seus ombros?  Como será esse novo tempo que começa no Ocidente, com um afrodescendente à frente da mais poderosa nação do mundo?

 

E o Brasil?  Continuará preservado em relação à crise que reina no mundo? Continuará avançando em seu caminho para ser a maior potência econômica da América Latina e um país com "investment grade" e respeitabilidade diante das outras nações no mundo?  Ou a crise chegará aqui também?

 

São todas questões candentes e instigantes que nos queimam a imaginação e o coração, diante da obscuridade misteriosa do ano que vai começar e que não sabemos como será.  Vivendo em uma civilização e uma sociedade feitas de previsibilidades e cálculos, onde a segurança passa por ter tudo planejado nos mínimos detalhes e banir a surpresa do horizonte, essa incerteza nos dá medo.

 

O Novo Testamento nos apresenta uma proposta diferente.  Ali nos é dito que não há que ter medo do novo.  Pois o novo que invade o mesmo, o conhecido, sempre e necessariamente é obra do Espírito Santo.  Ele é o artífice da novidade verdadeira, que trabalha a história por dentro e a vai configurando, paulatina e progressivamente, a Cristo, o Filho de Deus, que é seu paradigma e modelo.

 

Machado de Assis, grande escritor brasileiro, dizia que "Esquecer é uma necessidade. A vida é uma lousa, em que o destino, para escrever um novo caso, precisa apagar o caso escrito". Com isso, o bruxo do Cosme Velho nos lembrava que para viver é preciso ultrapassar e deixar para trás o velho que se foi e abrir-se para o novo que vem. Se não tivéssemos memória para recordar as coisas que passaram, tanto boas como más, não seríamos humanos. Mas humanos não seríamos igualmente se não conseguíssemos, inexplicavelmente e graças a Deus, esquecer o que penamos e sofremos e vestir de roupa nova a esperança para recomeçar de novo a cada dia, a cada mês, a cada ano.

 

Assim nos ensina outro "mago das palavras", desta vez poeta, o grande Carlos Drummond de Andrade, em seu belo "Receita de Ano Novo": Para ganhar um Ano Novo/ que mereça este nome,/ você, meu caro, tem de merecê-lo,/ tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,mas tente, experimente, consciente./ É dentro de você que o Ano Novo/ cochila e espera desde sempre.

 

Ano Novo é oportunidade de passar a limpo a vida e começar olhando para frente.  Que nos reservará este ano?  Qualquer que seja a situação com que nos defrontemos, teremos que aprender a fazê-la nova, a rejuvenescê-la, a esperar que saberemos enfrentá-la.  Não porque neste ano estejamos mais fortes.  Pelo contrário, estaremos mais velhos, os anos nos pesarão mais sobre os ombros.

 

Que pelo menos estejamos mais sábios.  Que tenhamos aprendido um pouco mais a lição do Eclesiastes, de que há um tempo para cada coisa: para chorar e para rir, para nascer e para morrer, para plantar e para colher.

 

Se plantamos, certamente colheremos neste ano de 2009.  Se não plantamos, quem sabe neste ano não plantaremos?  É um bom aprendizado.  Em todo caso, é sempre bom nessas ocasiões recordar as palavras cheias de Espírito de Jesus Cristo, que no Evangelho de João, às portas de sua Paixão, despedindo-se de seus amigos, lhes diz: "Quando a mulher está para dar à luz, sofre porque veio a sua hora. Mas, depois que deu à luz a criança, já não se lembra da aflição, por causa da alegria que sente de haver nascido um homem no mundo".

 

Que a entrada em 2009 seja como um parto que traz à luz uma bela e saudável criança, com todas as promessas por acontecer e as esperanças por realizar.  Feliz Ano Novo!

 

Maria Clara Lucchetti Bingemer, teóloga, professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio.

 

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