Estados Unidos: perspectivas para o mandato de Obama

 

Paradoxalmente, o governo Bush encerra seu segundo mandato com os preços do petróleo em patamares próximos aos do período antecedente à Segunda Guerra do Golfo, em março de 2003, delineada mais com finalidade econômica (asseguração contínua e módica de combustível fóssil) que política (implementação real de um regime democrático).

 

Por meio exatamente dela, a economia, houve a derrocada eleitoral do Partido Republicano no pleito presidencial. Se, para a comunidade internacional, a política externa norte-americana era desgastante, para boa parte da sociedade norte-americana não havia a mesma percepção, haja vista os índices auferidos nas pesquisas presidenciais do senador John McCain.

 

Encerrada a disputa, vencida no colégio eleitoral com facilidade pelo senador Barack Obama - após a intensa e contínua mobilização sem precedentes, via internet, do eleitorado jovem -, as expectativas se voltaram para a composição do seu gabinete. Recorde-se de que o êxito inicial de sua campanha proveio do firme posicionamento contrário à prolongada permanência das tropas no Iraque.

 

Guardadas as devidas proporções com processos eleitorais recentes na América do Sul, a decepção teria superado a esperança, em função do perfil sobremodo conservador das primeiras indicações do primeiro escalão.

 

De fato, a candidatura democrata não era de modo algum progressista ao tradicional estilo europeu, por exemplo. No entanto, havia espaço suficiente, em vista do insucesso da administração republicana, para aplicar políticas governamentais alternativas, principalmente nas combalidas áreas de defesa e de política externa.

 

Diante disso, a confirmação de Robert Gates na Secretaria de Defesa e o convite à senadora Hillary Clinton para ocupar o Departamento de Estado são sinais inquietantes de que a renovação, se houver, ocorreria depois de longa transição.

 

Na prática, não haverá transição, de maneira que a linha de fé atual, à primeira vista, permanecerá, ainda que ao longo da campanha Obama tivesse um posicionamento menos belicista do que o do seu contendor, ao defender - como acima mencionado - a retirada da maioria das tropas da coligação anglo-americana e a retomada de negociações com o Irã, por causa de sua política nuclear.

 

No tocante ao primeiro ponto, o governo Bush antecipou-se e firmou um entendimento para que os efetivos norte-americanos deixem o território iraquiano em até 3 anos. Ao mesmo tempo, acertou-se que os Estados Unidos não se valeriam de sua presença no Iraque para de lá concertar ataques a outros países da região.

 

Há basicamente um alvo, o Irã, acusado de gerir o seu programa nuclear para fins desautorizados pelo Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares. Se agregado plenamente à comunidade internacional, o seu programa nuclear poderia ser efetivado por intermédio da cooperação multilateral, o que facilitaria a supervisão da Agência Internacional de Energia Atômica.

 

Acresça-se que um programa global de controle ou mesmo redução de artefatos atômicos teria credibilidade se as duas maiores potências se engajassem efetivamente nele. Caso os Estados Unidos, sob a pena do presidente Obama, e a Rússia, sob a de Medvedev, decidissem ratificar o Tratado para Proibição Completa de Testes Nucleares, não haveria motivo para que outros países - como a China e a Índia - se recusassem a fazê-lo.

 

Por fim, reitere-se que aproximar-se de maneira diplomática do governo iraniano é essencial para a estabilidade do Iraque e, por conseguinte, do Oriente Médio. Em vista da proximidade religiosa atual entre Teerã e Bagdá, os Estados Unidos devem esforçar-se para trazer o Irã para as negociações regionais e, deste modo, encerrar definitivamente a retórica do Eixo do Mal – Iraque, Irã e Coréia do Norte –, de tão escassos resultados desde o seu enunciado.

 

Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

 

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