A França depois do 6 de Maio

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O resultado em si já não tinha surpresas. Todas as sondagens o tinham previsto. Sarkozy tomará posse em breve. De imediato, os seus primeiros 100 dias terão de estar sob o escrutínio da esquerda. Vai ser necessária uma mobilização ampla e permanente. O candidato que disse num dos seus últimos discursos de campanha que era necessário “acabar com a herança de Maio de 1968 e virar essa página” propõe-se, na realidade, ir bem mais longe. A limitação do direito à greve, a revisão do código de trabalho, a introdução de penas para jovens entre 16 e 18 anos (só se forem reincidentes!), a alteração das regras do reagrupamento familiar são “apenas” algumas das medidas emblemáticas do seu programa.


O seu discurso de vitória foi elucidativo: foi uma vitória “da democracia real, do trabalho e da autoridade”. Assegurou aos “amigos americanos” que a França estaria a seu lado, embora “a amizade seja aceitar que haja opiniões diferentes”, apelou aos EUA para não se oporem, antes liderarem, a luta contra o aquecimento global; piscou o olho aos parceiros europeus, afirmando que a União Européia não podia ser vista como um cavalo de Tróia dentro de cada um dos países e voltou a falar da União Mediterrânica. Apelou a todos os africanos para vencerem a pobreza, a fome e a doença (!). E afirmou que queria uma política de desenvolvimento ambiciosa e uma política de imigração controlada. Mas foi também arrepiante (e indicador do que vem a seguir): declarou que a França estaria ao lado de todas as mulheres vítimas de opressão, daquelas que são obrigadas a usar a burka etc. Quando a direita musculada usa o discurso da luta contra a opressão das mulheres, só podemos desconfiar! Na realidade, toda a postura de Sarkozy parecia mais uma verdadeira declaração de guerra interna às comunidades imigrantes.

Do lado dos socialistas, o ajuste de contas começou a fazer-se, bem como a disputa sobre quem vai liderar o processo das legislativas que terão lugar a 10 de Junho. Dominique Strauss-Kahn afirmou que as eleições foram perdidas na 1ª volta, porque Ségolène não tinha sido capaz de renovar. Laurent Fabius disse que a bandeira da esquerda estava no chão e que era preciso levantá-la. Pela sua parte, Ségolène apelou a uma refundação social-democrata, para além das clivagens tradicionais, numa tentativa de voltar a estender a mão a F. Bayrou, uma estratégia que, como se viu, não parece ter dado os melhores resultados.

Os próximos meses vão ser muito importantes: não se trata apenas de saber quem ganhará as legislativas, mas sobretudo se forças sociais e políticas serão capazes de se mobilizar contra as medidas de Sarkozy.

É imprescindível uma esquerda que lhes faça face, que seja agregadora, combativa, que vá à luta, e não uma esquerda que apenas resista, porque foi derrotada.

 

 

Publicado originalmente em www.esquerda.net

 

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