José Gaspar de Francia, o Doutor Mulato

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No rigidamente aristocrático império espanhol, uma origem familiar singular não deixaria de influenciar a vida e a formação de um jovem. José Gaspar nasceu possivelmente em 6 de janeiro de 1766, filho de dona Josefa de Velasco y Yegros, de família excelente, descendente dos primeiros colonizadores. Ao contrário, seu pai, José Engracia García Rodríguez Francia, era plebeu, mulato ou mestiço, nascido possivelmente em Mariana, no Rio de Janeiro, que chegara ao Paraguai adolescente, nos anos 1750, com outros colonos luso-brasileiros, para fomentar a plantação e o beneficiamento do tabaco. José Engracia foi administrador da Fábrica e Cultivos de Tabacos de Yaguarón, nas proximidades de Assunção, e entrou no exército em 1771, alcançando o posto de capitão de artilharia. A partir de 1787, dirigiu o "pueblo" (povoado) de índios daquela localidade, dedicou-se também com sucesso ao comércio.

 

Após realizar estudos primários em Assunção com os franciscanos, com apenas 14 anos, José Gaspar partiu em longa viagem de barco com o pai para Santa Fé em 1780 e dali a cavalo para Córdoba, Tucumã. Matriculou-se em 18 de junho de 1781, como interno, no Real Colégio de Nossa Senhora de Montserrat (1687), da universidade daquela cidade, dando para tal provas de "sangue limpo e filiação legítima". Os estudos empreendidos dividiam-se em estágio preparatório e ciclo superior, de quatro anos, que levavam eventualmente ao distinguido grau de doutor. Seu pai esperava que ingressasse na vida eclesiástica. José Gaspar obteve o grau de Licenciado e Mestre em Artes, doutorando-se em 13 de abril de 1785, com 19 anos, em Sagrada Teologia. Recebeu as ordens menores, início de carreira religiosa inconclusa.

 

Mesmo permanecendo enclausurado no colégio de Montserrat até 1783, quando se tornou aluno externo por negar-se a receber castigo possivelmente corporal que julgou oposto à sua dignidade, José Gaspar participou certamente da efervescência cultural do centro universitário, onde se discutiam as propostas do regalismo espanhol; do republicanismo e federalismo estadunidense; do racionalismo filosófico e social francês etc. Enquanto estudava, em 1780, o cacique José Gabriel Condorcanqui (1738-81), ex-aluno do colégio jesuíta de San Francisco de Borja - em Cuzco, Peru -, propôs-se como descendente de Tupac Amaru, o grande resistente inca, e liderou insurreição de nativos, cativos negros, mulatos, mestiços e crioulos empobrecidos contra o regime colonial. O questionamento burguês e democrático da ordem feudal e aristocrática repercutiria nas visões de mundo do jovem brilhante e certamente consciente do status negativo devido à origem familiar paterna.

 

Em 1785, o jovem José Gaspar retornou ao Paraguai com sólida formação humanística, com destaque para a Filosofia e o Direito Canônico, portando o prestigioso título de doutor, decidido a não seguir a carreira clerical, para desgosto paterno. Em Assunção, dedicou-se ao magistério, assumindo, no Real Seminário de San Carlos, em 27 de março de 1789, aos 23 anos, cátedra de Latim e Teologia, após vencer concurso e fortes resistências. Abandonou, porém, muito logo o ensino pela advocacia, segundo parece devido a suas idéias democrático-liberais. Na época, teria se afastado da casa paterna e rompido com o pai – que, conta a tradição, vivia em forma dissoluta, amancebado com índia – para ir morar em casa própria no bairro La Merced, com um velho servidor.

 

Mais tarde, com a herança materna que exigira ao progenitor ou com o produto de seu trabalho, compraria chácara em Ibiraí (Ybyray) a uns doze quilômetros ao norte de Assunção. No Paraguai, os chacareros conformavam importante segmento social de pequenos e médios camponeses proprietários e arrendatários, que viviam, sobretudo, de policultura de subsistência. Eles competiam com a aristocracia fundiária pelo controle da terra.

 

Já adulto, José Gaspar foi descrito como homem de estatura médio-baixa; com a cabeça alta e longa; corpo "delgado e ossudo"; "espáduas estreitas", caídas e encurvadas; "membros longos e magros". Conta a tradição que nesses anos, após as jornadas de trabalho, se entregava intensamente ao jogo e à boemia noturna, que teria abandonado por problemas de saúde, para voltar a sua biblioteca de mais de 250 livros, com obras de Raynal, Rollin, Rousseau, Voltaire etc., reputada como uma das melhores, se não a melhor, do Paraguai da época.

 

O dr. José Gaspar Rodríguez de Francia y Velasco, como passara a assinar-se, teria sido advogado capaz, prestigiado e intransigente com os princípios éticos e morais, dedicado à defesa da população pobre. Em ‘Ensaio sobre a Ditadura do Paraguai’, Raul de Andrada e Silva comenta: "Advogando, procedeu com espírito público, com a clara consciência do sentido social da profissão: recusou-se a patrocinar causas injustas, nunca recuou da defesa dos humildes, não se arreceando de litigar contra os ricos e poderosos, a quem cobrava polpudos honorários, para que pudesse nada pedir aos pobres". Era normal que o destaque intelectual e profissional o levasse à vida política.

 

Durante a Colônia, o cabildo de Assunção era a grande instância administrativa aberta à oligarquia crioula assuncenha, pois os principais cargos administrativos, militares e eclesiásticos eram supridos privilegiadamente por espanhóis natos. Cada ano, ao terminarem o mandado, os regedores elegiam os substitutos. Em janeiro de 1798, com 32 anos, ele teve seu nome apresentado e rejeitado, por questiúncula legal, quando das eleições para o cabildo, "síndico procurador". Apenas mais tarde, por sua retidão pessoal, foi nomeado "Defensor de Capellanias y Obras Pias", em 1808 Promotor Fiscal da Real Fazenda e no mesmo ano eleito ao cabildo assuncenho como "alcaide de primeiro voto".

 

Seu tardio ingresso no cabildo, aos 42 anos, idade relativamente provecta para a época, parece registrar sua difícil absorção pela aristocracia espanhola e crioula paraguaia, fato igualmente assinalado por grave tropeço em sua vida pessoal e pública. Em 1804, aos 38 anos, teve recusado seu pedido em casamento de Petrona de Zavala, de dezessete anos, filha do coronel José Antonio Zavala y Delgadillo, chefe do Regimento de Dragões do Rei, fundador do forte de Bórbon, rebento de um das mais distintas famílias crioulas. A desculpa parece ter sido a pouca idade da pretendida. Como assinalado, até então, José Gaspar fora conhecido pela ilustração, por seu trabalho, por ser femeeiro, boêmio e jogador. Não tinha origens paternas aceitáveis e seu pai viúvo vivia amancebado com índia. Seu progenitor e ele eram apodados pelas costas de "mamelucos" e "mulatos". Na luta pela superação dessa desqualificação, ele teria incorporado ao nome a partícula enobrecedora "de" e o sobrenome da mãe. Para piorar o choque da rejeição pública, quatro meses após a recusa, Zavala y Delgadillo entregou a filha em casamento a Juan José Machaín, comerciante e capitão do corpo de Miñones (polícia). Na ocasião, respondera a sua esposa preocupada com a suscetibilidade do pretendente rejeitado: "Que me importa de lo que piense ese mulato"! A desqualificação acabou no conhecimento da sociedade assuncenha, se transformando em motivo de chistes e comentários malévolos.

 

A insistência do pai por carreira eclesiástica talvez se devesse à consciência da dificuldade do filho de obter esposa à altura do status a que se elevara. O certo é que, após a recusa, ele jamais voltaria a propor matrimônio a uma jovem, permanecendo irredutivelmente celibatário até a morte. Teria tido duas filhas, jamais reconhecidas, que viveriam com ele no palácio governamental. As famílias Zavala e Machaín e a soberba aristocracia espanhola seriam mais tarde duramente punidas pelo Ditador Perpétuo que, na nova ordem democrática e plebéia, passara a ser conhecido apenas por dr. Francia. Entre outras medidas, ele proibiu, em 1º de março de 1814, os espanhóis de contraírem casamento, a não ser com negras, mulatas e índias, medida destinada a obrigar, para se reproduzirem biologicamente, a mergulharem no seio da população paraguaia.

 

Mário Maestri é historiador.

 

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Comentários   

0 #1 Estadista insólitoHAYM JOSÉ BARRIOS 17-12-2008 21:23
Una vez más el compañero Maestri rescata una figura señera para entender la historia de nuestra América Latina.
Interesante paradoja: el "Doutor Mulato" es un ilustrado. Ello pone nuevamente en evidencia el peso que tuvieron las ideas de la Ilustración en nuestros procesos de Independencia y en los primeros acordes de nuestros Estados nacionales. Dichas ideas no son para Francia el pretexto para extablecer una "copia revolucionaria", sino materia prima para interpretar y modificar la realidad colonial.
Los años de formación del Doutor Francia-entre ellos la convulsionada década del ochenta del siglo XIX que bien señala Maestri- coincidirán además y muy particularmente con el eclipse revolucionario de La Bastilla, pero también con los sucesos protagonizados en torno a la llamada "Inconfidencia Mineira" y muy particularmente por el accionar de ese otro gran precursor que fue Tiradentes.
Me interesa señalar que en Paraguay se produce una revolución en 1811, de la cual surge una Junta revolucionaria. Ésta cae en el descrédito por su mala administración, por ineptitud de sus integrantes y por incumplimiento de las promesas revolucionarias.
En 1813 un congreso sustituye a la Junta por dos cónsules, un militar que fue Yegros, y un civil que fue Francia. En 1814 el Congreso se reunirá por segunda vez, y a diferencia de lo que era la norma en los países Iberoamericanos de aquella época, compuestos por la magra representación de las oligarquías patricias de las ciudades principales , allí se hallaba integrado por nada menos que mil diputados, procedentes de todos los rincones del país.
Fue en ese Congreso, hartos de desgobierno oligárquico, que la plebe resolvió confiar el poder al Doctor Gaspar Rodríguez de Francia.
Las siete octavas partes de los votos campesinos se inclinaron en su favor, designándolo Supremo Dictador y derrotando a su vez al patricio Yegros.
La denominación de Dictador no era utilizada en el actual sentido vulgarizado, sino en recuerdo de la institución romana que confería dicho título a magistrados dotados de poderes especiales.
Fue así como nuestro Doutor Mulato devino en Supremo Dictador, expresión con la que todavía se le recuerda.
Contra el olvido y la denostación nos congratulamos con el hecho de que intelectuales brasileños comprometidos retomen la imagen de nuestros mejores hombres y mujeres.
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