A atitude da esquerda socialista diante da crise

 

Os números da intensidade com que a crise econômica mundial varre o mundo são bastante assustadores. Estamos diante de uma severa recessão mundial, com epicentro na principal economia do planeta, que assiste a uma impressionante destruição de postos de trabalho a cada mês.

 

É justamente na questão do emprego da classe trabalhadora que surge o mais inquietante sintoma desta crise mundial no Brasil. Nem mesmo os recentes números do crescimento do PIB brasileiro no 3º trimestre do ano - último momento pré-crise no Brasil - estão se mostrando suficientes para impedir uma inicial escalada de demissões e/ou férias coletivas.

 

Estamos diante de fatos e não previsões, como atestam as 1.300 demissões na Vale do Rio Doce após a mesma anunciar uma redução de 30% na sua produção, o aumento das demissões na indústria de autopeças, as 450 demissões na Volvo, além das férias coletivas generalizadas nas montadoras.

 

Do alto da sua popularidade, o governo Lula, através da sua candidata preferencial para 2010 Dilma Roussef, limitou-se a declarar que o governo não tem como segurar o emprego.

 

Tem se esforçado na verdade para segurar o capitalismo. Pois não faltam montanhas de dinheiro para as montadoras (4 bilhões só do governo federal), sem falar que 10% das reservas cambias do país já foram queimadas para segurar o dólar, ajudar o agronegócio e os bancos.

 

Estamos diante de uma crise estrutural do capitalismo que chegou ao Brasil e que poderá ter desdobramentos ainda dramáticos para o ano de 2009.

 

O debate na esquerda e a luta contra o desemprego

 

A questão que se coloca nesta conjuntura em que se agravam os sinais da crise sobre os ombros da classe trabalhadora é: qual deve ser a atitude de uma esquerda socialista, combativa e classista?

 

O momento é de extrema gravidade e difícil: o desemprego começa a bater à porta de milhares de lares, a pressão por cortes nos gastos sociais vai aumentar, o endividamento da classe trabalhadora no crédito e a inadimplência crescem a cada mês.

 

Portanto, o centro do perfil político e da ação da esquerda socialista deve estar focado na resposta e no enfrentamento dos desdobramentos da crise.

 

O centro da nossa atividade deve ser enfrentar aquilo que é estrutural. E a crise é também desta natureza porque ela afeta profundamente a vida real dos explorados, que vão precisar de capacidade política, unidade de classe na ação e um projeto que reúna forças na classe trabalhadora e nas suas camadas mais exploradas para resistir e superar as mazelas desta crise de um ponto de vista dos seus interesses de classe, que não pode ser outro que não um ponto de vista socialista.

 

É esse o terreno em que se deve concentrar a energia dos partidos, sindicatos e movimentos sociais populares, especialmente dos instrumentos políticos partidários socialistas, que pela sua própria natureza e propósito têm a obrigação de apresentar projetos de poder para buscar a superação do capital nos seus momentos de crise estrutural.

 

É preciso compreender que, nesse patamar de uma crise de conseqüências de longo prazo e longa duração, surgirão várias escaramuças nos podres poderes da República, com revelações e novas denúncias de corrupção, ainda mais em momentos de crise, que vão ameaçar também a continuidade de empresas e grandes negócios do capital. Contradições conjunturais que devemos saber também utilizar como parte do arsenal de denúncia destes poderes, mas que de forma alguma podem ser o eixo da atividade da esquerda socialista quando enfrentamos uma crise com as dimensões atuais.

 

Desafios práticos

 

Dessa forma, coloca-se como cada vez mais urgente dois desafios práticos:

 

1) A luta pela constituição de uma ampla frente única na ação, que hoje deveria ter como eixo prático uma campanha em defesa do emprego dos trabalhadores e trabalhadoras do país. Mas uma frente que se articule também pela apresentação de uma plataforma de emergência dos trabalhadores para enfrentar essa crise e preparar ação e resistência organizada.

 

2) O segundo desafio a ser encarado é construir espaços e condições para um debate de projeto estratégico e de poder da classe trabalhadora, com um norte muito claro nesse período histórico de buscar a superação do capitalismo. Na medida em que avançar a ação prática em torno de uma plataforma capaz de unir um amplo leque de forças da classe trabalhadora, esta busca por um projeto de poder estratégico será ainda mais candente e inadiável.

 

Fernando Silva é jornalista, membro do Diretório Nacional do PSOL e do Conselho Editorial da revista Debate Socialista.

 

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Comentários   

0 #1 Unidade classistaAlceu A. Sperança 12-12-2008 17:15
Existe algo além do jardim, ou seja, além de sonhar com mandatos eletivos nos quais se estará no máximo administrando a crise: nosso foco tem que ser classista.

É a classe trabalhadora que vai construir a ordem pós-capitalista, ou já escalaram alguma outra para a tarefa?

Sem unidade na ação, e divididas entre governistas e oposicionistas, as entidades sindicais não vão construir coia alguma.

O caminho está naquele velho e tão desprezado "uni-vos"!
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