Qual dos Obamas vai para a Casa Branca?

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Relata o americano Ali Abunimah, ex-companheiro de Obama em jornadas cívicas, que nas primárias para o Senado, em 2003, depois de ouvi-lo discursar, perguntou por que ele fora vago ao tocar no problema dos palestinos. Obama explicou: "Eu não pude falar mais sobre a Palestina porque estamos numa dura disputa nestas primárias. Espero que, quando as coisas estiverem mais calmas, eu possa ir mais longe".

 

Na campanha presidencial ele foi longe, mas em sentido oposto. Apoiou a invasão do Líbano, o bombardeio de Gaza e até chamou Sharon de "construtivo para o processo de paz." É verdade que, num incidente isolado, o Obama de antes renasceu. Em Cleveland, declarou aos judeus locais: "Há uma tendência na comunidade pró Israel de que a não ser que adote as posições do Likud (partido da linha dura no trato aos árabes) você é anti-Israel." Foi talvez um desabafo, sufocado por centenas de juras de amor incondicional a Israel, inclusive a incrível afirmação de que Jerusalém deveria ser indivisível e a eterna capital do Estado judaico, o que nem mesmo Bush teve coragem de propor.

 

Por isso, é duvidoso que Obama mude a política de alinhamento total com Tel-Aviv. Provavelmente, continuará a vetar as inúmeras resoluções da ONU que mandam Israel parar de bombardear civis, destruir casas das famílias dos ‘terroristas’, voltar aos limites de antes da guerra de 1967, cessar o bloqueio de Gaza etc. Obama é pragmático e os lobbies judaicos nos Estados Unidos são muito fortes no Congresso, na imprensa, nos bancos e mesmo no eleitorado democrata de Nova Iorque e Flórida. A esse respeito, disse Henry Siegman, ex-líder do Congresso Judaico Americano: "ser crítico de Israel significa negar-se a possibilidade de vencer na política americana".

 

Não se nota igualmente muitas mudanças entre as outras posições de Obama em política externa. Como Bush, Obama propõe pressões econômicas cada vez mais duras para forçar o Irã a abandonar seu programa nuclear, sem "tirar a opção militar da mesa". Quer continuar bombardeando as regiões do Paquistão na fronteira com o Afeganistão caso o governo local não atue com energia contra os talebãs. Refere-se a Chávez como um mero ditador populista. Vê a Rússia como ameaça.

 

Aparentemente, difere na forma de tratar a Guerra do Iraque. Na verdade, nem tanto. Enquanto Bush tenta forçar o governo iraquiano a aceitar tropas americanas até fins de 2011, Obama promete retirar-se em meados de 2010, deixando, porém, uma força menor, mas expressiva para "garantir a democracia". Leia-se: manter o governo iraquiano na linha.

 

Apesar de tudo, há analistas que têm fé na volta do primeiro Obama, da fase pré-campanha presidencial. Lembram seu grande momento, quando foi dos raros congressistas a votar contra a invasão do Iraque. De sua rejeição ao acordo econômico com a Colômbia, diante da inércia ou cumplicidade do governo Uribe com os paramilitares e os assassinatos de oposicionistas. Além disso, prometeu dialogar com os países ditos hostis como Venezuela, Síria, Coréia do Norte e até Cuba. É verdade que no caso do Irã somente se aceitas pré-condições. Seja como for, a substituição do uso da força militar pela diplomacia é, sem dúvida, um grande ganho. O fechamento de Guantánamo é outro ponto que distancia o novo presidente do seu antecessor.

 

Um argumento de peso em favor da tese do Obama liberal-progressista é seu relacionamento com o reverendo Jeremiah Wright. Esse pastor negro era um crítico impiedoso da discriminação racial e das políticas imperiais americanas. Chegou a afirmar que o governo dos Estados Unidos havia provocado o atentado de 11 de setembro por suas posições contrárias aos árabes. Wright sempre foi o conselheiro espiritual de Obama até recentemente quando, tendo a rede ABC denunciado seus sermões anti-americanos, o então candidato afastou-se dele para não perder votos. Ora, diante desta estreita ligação entre Wright e Obama, é improvável que não compartilhassem de idéias políticas.

 

Ainda é preciso lembrar que a maioria do povo americano, depois dos anos desastrosos de Bush, está mudando. Tanto é que, em recente pesquisa, 63% declararam que os Estados Unidos deveriam conquistar o respeito do mundo, não pela força militar, mas por ações marcadas pela justiça. Isso levaria o pragmático Obama a ser imparcial na questão palestina, por exemplo. E a esquecer a "opção militar" no caso do Irã, ainda mais que, em pesquisa da CBS e do New York Times, os americanos repudiaram o bombardeio do país dos aiatolás por 66% a 10%.

 

É preciso ainda levar em conta que, para as nações do mundo inteiro, Obama é uma esperança de uma nova política externa americana que troque as ameaças e as agressões pela diplomacia, buscando a paz e respeitando o direito internacional.

 

Tudo isso vai pressionar Obama, mas há pressões também em sentido contrário. Não só dos lobbies judaicos, mas também das corporações petrolíferas, sequiosas pelas jazidas do Iraque; da direita do seu partido, responsável pela indicação do "falcão" Joe Biden a vice-presidente; e do complexo industrial-militar, o qual, aliás, parece estar saindo na frente. É preocupante a promessa de Obama de não mexer no orçamento militar nos próximos anos. São 696 bilhões de dólares (40% do orçamento nacional e 45% dos gastos militares mundiais), um sacrifício pesadíssimo para uma nação com um déficit público espantoso, o que demonstraria a importância que o novo governo dá às forças armadas, pouco condizente com seu compromisso de usá-las somente em último caso.

 

Embora haja mais evidências de que o Obama da campanha é o verdadeiro, dúvidas persistem. Começarão a ser desfeitas logo. Segundo o vice-presidente eleito Joe Biden, já nos primeiros seis meses haverá grandes mudanças na política externa americana que revelarão quem é Barack Obama.

 

Luis Eça, Andrea Paes Alberico, Guga Dorea, João Xerri, José Juliano de Carvalho Filho, Marietta Sampaio, Marilena de Almeida Eça e Thomaz Ferreira Jensen - um grupo de 12 pessoas que se revezam na redação e revisão coletiva dos artigos de análise de Contexto Internacional do Boletim Rede, editado pelo Centro Alceu Amoroso Lima para a Liberdade, de Petrópolis, RJ.

 

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Artigo publicado na edição de novembro de 2008 do Boletim Rede.

 

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