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O Paraguai dos Tempos do Doutor Francia Imprimir E-mail
Escrito por Mário Maestri   
Segunda, 08 de Dezembro de 2008
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Até fins dos anos 1970, a narrativa nacional-patriótica sobre a Guerra contra o Paraguai era absolutamente hegemônica na historiografia brasileira. Em geral, aquela literatura apresentava a guerra do Paraguai como produto da infame agressão ao Brasil do ditador megalomaníaco Francisco Solano López, preparada friamente através do armamento prévio do país e da fanatização do soldado paraguaio.

 

Em 1979, o historiador argentino León Pomer, então radicado no Brasil, apresentou em português seu livro A Guerra do Paraguai: a grande tragédia rioplatense, editado na Argentina em 1968, no qual discutia o complexo quadro do Plata que levou a que o liberalismo bonaerense, na direção da Argentina, em aliança com o Império do Brasil, aplastassem o Paraguai, na consecução dos interesses do imperialismo inglês.

 

Foi o livro Genocídio americano: a Guerra do Paraguai, de Júlio José Chiavenatto, de março de 1979, que modificaria o imaginário da população brasileira sobre o conflito, ainda em pleno regime ditatorial. O jornalista apresentou o Paraguai como nação avançada e Solano López como chefe de governo progressista, igualmente razões da agressão da Tríplice Aliança, executada em favor do imperialismo inglês.

 

Nos anos 1990, sob as novas aragens neoliberais, forte movimento historiográfico de viés restauracionista negou as leituras revisionistas, centrando sua crítica essencialmente na impugnação da guerra por vontade inglesa, de Pomer, e nos lapsos e extrapolações de Chiavenatto. Os impropérios contra López, os elogios desbragados aos chefes militares imperiais, a explicação da belicosidade paraguaia como produto do fanatismo e outras propostas das narrativas nacional-patrióticas voltaram a ter, como ainda têm hoje, direito de cidadania historiográfica.

 

Em 1978, Raul de Andrada e Silva [1905-1991], historiador e professor de história da América da USP, já aposentado, publicava sua tese de doutoramento, defendida no Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas daquela universidade – Ensaio sobre a ditadura do Paraguai [1814-1840], como terceiro volume da Série Ensaios da Coleção Museu Paulista.

 

Por esses azares da sorte raramente devidos apenas à roda da fortuna, o valioso e erudito estudo sobre o longo governo do doutor José Gaspar de Francia, fundador do Paraguai moderno e do regime herdado por Carlos Antonio López e seu filho, passou e se mantém ainda quase totalmente ignorado por nossa historiografia. Um lapso que determinou fortemente os estudos brasileiros que se sucederam à sua publicação.

 

Dividido em três partes – "A crise da Independência"; "O remate da crise: a ditadura"; "O sistema ditatorial" –, e apoiado em uma rica bibliografia brasileira, platina e paraguaia, sobretudo editada, o estudo apresenta uma complexa análise do processo que ensejou a gênese e a consolidação do governo autárquico e estatal-monopolista do dr. Francia, como expressão do autonomismo paraguaio contra a Espanha e, sobretudo, o colonialismo de Buenos Aires.

 

Uma das muitas qualidades desse trabalho é superar as visões simplistas da intencionalidade pessoal na conformação do Estado francista, através de uma complexa compreensão, apoiada no estudo minucioso dos fatos, de situação surgida da vontade e do esforço nacional e social paraguaio de manter a independência, como assinalado, em relação à ex-metrópole e, sobretudo, aos interesses liberal-mercantis portenhos. Um processo analítico que identificou as classes populares que, em última instância, permitiram e sustentaram o longo governo cesarista do dr. Francia, já que expressava suas necessidades sociais.

 

Sobre tal questão, Andrada e Silva lembra: "No mundo platino, quando se esvaiu a servidão das ‘encomiendas’, nos primeiros anos do século XIX, os contingentes de mão-de-obra indígena, que se tinham formado em torno das ‘chácaras’, solares e estâncias, foram-se modificando: parte dos camponeses passaram a ser meeiros de seus patrões, outros ficaram na condição de jornaleiros, recebendo além da paga um rancho para habitar com a família. [...] Foi nessas camadas em que se apoiou o Ditador, catando-lhes a confiança e amparando-as depois, ao consolidar o seu poder pessoal".

 

Mário Maestri é historiador e professor do Curso e do Programa de Pós-Graduação em História da UPF. E-mail: maestri(0)via-rs.net

 

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