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Mito e Cinema VIII: Vencer (n)a cultura da oposição à natureza? Imprimir E-mail
Escrito por Cassiano Terra Rodrigues   
Sexta, 05 de Dezembro de 2008
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O ideal iluminista de uma civilização humanamente racionalizada carrega no ventre o filho que vai lhe destruir. Essa é uma idéia congênita ao iluminismo – já Goya advertia em certo capricho: "El sueño de la razón produce monstruos". Esses monstros começaram a atormentar a vida de Timothy Treadwell e ele fugiu, indo buscar entre os ursos do Alaska o que não conseguiria em Miami, New York, ou qualquer outro lugar civilizado. E, ali, naturalizou os padrões da civilização em que foi criado: "Estou aqui fora, no meio mais puro do grande verde. Atrás de mim estão Ed e Rowdy (brigão; valentão), membros de um bando nômade quase adulto. Eles desafiam a tudo, inclusive a mim. Isso é parte do território. Se eu mostrar fraqueza, se recuar, posso me machucar, posso ser assassinado. Preciso me impor se vou ficar nesta terra. Pois, se houver fraqueza, eles vão tirar partido de mim, eles vão me arrancar daqui, eles vão me decapitar, me picar em pedacinhos. Estou morto. Mas, até agora, persevero. Persevero!

 

Na maior parte do tempo sou um guerreiro aqui. Na maior parte do tempo, sou suave, sou como uma flor, sou como... sou como uma mosca na parede, observando, sem participar, sem invadir de jeito algum. Às vezes sou desafiado. E aí, o guerreiro gentil tem, tem que se tornar um samurai! Tem que se tornar tão, tão formidável, tão sem medo da morte, tão forte que vencerá, ele vencerá! Até os ursos acreditarão que você é mais poderoso. E num certo sentido você tem que ser mais poderoso se quiser sobreviver nesta terra com o urso. Ninguém nunca soube disso. Ninguém jamais soube } Ü C ~ r M N nenhuma que às vezes a vida está à beira do precipício da morte e que esses ursos podem morder, eles podem matar! E se eu for fraco, eu afundo. Eu os amo com todo meu coração… Eu os protegerei. Morrerei por eles, mas não morrerei nas suas garras e patas. Eu lutarei! Serei forte, serei um deles. Eu serei… o mestre! Mas ainda um guerreiro! (Um urso se aproxima) Eu te amo, Rowdy. (estende a mão ao urso) Dá pra mim querido... (o urso rosna bruscamente e se afasta) É disso que estou falando! É disso que estou falando! É disso que estou falando! Posso sentir o cheiro da morte nos meus dedos!" (minhas ênfases).

 

Vemos todo o ressentimento de Treadwell contra a ideologia dos winners & losers. A revolta de Timmy contra a civilização ecoa as palavras de John Stuart Mill: "A humanidade ganharia muito se deixasse cada homem viver de acordo com o que lhe parece bom, ao invés de obrigá-lo a viver segundo o que os outros acham que é bom." (em On Liberty). Los sueños de la razón expulsaram Timmy; ele, então, se voltou à reserva natural com a ideologia do "estar preparado" – enfrentando e vencendo pela primeira vez ("Ninguém nunca soube") uma natureza perigosa e ameaçadora, ele poderá voltar à civilização, renová-la e vencer outras competições. Ora, a distância entre Treadwell e Jeremiah Johnson não é tão grande assim...

 

Antípoda a Treadwell, o próprio Herzog prefere opor natureza e civilização de outra maneira:

 

"E o que me assombra é que em todas as faces de todos os ursos que Treadwell filmou, não descubro nenhuma afinidade, nenhum entendimento, nenhuma misericórdia. Vejo somente a esmagadora indiferença da natureza. Para mim, não há essa coisa de um mundo secreto dos ursos. E o inexpressivo fitar do urso expressa somente um interesse meio enfadonho em comida. Mas, para Timothy Treadwell, este urso era um amigo, um salvador." (minha ênfase).

 

Não estaria Herzog a repetir o velho Protágoras, que, no mito de Prometeu, só via na natureza a luta por sobrevivência? Não transpareceria na sua fala a idéia de que só o homem possui liberdade e a natureza é governada pela necessidade cega? – Ora, os animais são incapazes de saírem de sua condição natural; já o homem... – Mas, os homens não pertencem à natureza? Os mitos monstruosos criados pelo racionalismo não se trairiam na crítica que não é crítica? Não morderia a cobra o próprio rabo? Herzog afirma:

 

"Treadwell se foi. O argumento de o quão certo ou errado ele estava desaparece na distância numa névoa. Suas filmagens é que ficam. Enquanto assistimos aos animais na sua alegria de existir, sua graça e ferocidade, um pensamento se torna mais e mais claro. Não se trata tanto de um olhar para a natureza selvagem quanto de um olhar para dentro de nós mesmos, nossa natureza. E, para mim, além de sua missão, é isto que dá sentido à sua vida e à sua morte".

 

Mais do que oposições, o filme de Werner Herzog (O Homem-Urso [The Grizzly Man], EUA, 2005) traduz o imperativo de desmistificar a oposição entre civilização e natureza, ainda que suas falas traduzam certo pesar com a impossibilidade, melhor, a interdição de transcendermos alguns limites. Talvez possamos superar essa nota melancólica ou pessimista; para tanto, precisamos, como Kaspar Hauser, sonhar sonhos mais selvagens.

 

Cordiais saudações.

 

* * *

Pergunta idiota: Quando é que vão lançar Coração de Cristal em DVD?

 

Lembrete: na Biblioteca Municipal Roberto Santos, no Ipiranga, desde 21 de novembro acontece a mostra "Nos Limites da Realidade", com filmes adultos e infantis sonhando o impossível. Mais informações: <http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/
cultura/bibliotecas/bibliotecas_bairro/bibliotecas_m_z/robertosantos/index.php?p=5275
>.

 

Cassiano Terra Rodrigues, professor de Filosofia na PUC-SP, desistiu de lutar certas batalhas; por ser racionalista demais, considera-se incapaz de vencê-las.

 

Contato: cassianoterra(0)uol.com.br

 

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Última atualização em Sexta, 05 de Dezembro de 2008
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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