A Venezuela e os desafios para o Socialismo do século XXI

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A Revolução Bolivariana, ou o "Socialismo do século XXI", encontra-se em um momento crucial de disputa hegemônica. A oposição quer se livrar da imagem de truculentos golpistas e investe na "renovação liberal" e "democrática" e no discurso de combate à violência, um tema que preocupa os venezuelanos tanto quanto aos brasileiros. Liderados por parte de um movimento estudantil que se ampara num vago conceito de "democracia" e liberalismo, estes estudantes buscam manter privilégios com um discurso conservador.

 

Além do mais, o imperialismo americano recicla-se com o fim da era Bush e a entrada em cena de um presidente negro e democrata, o que obrigará, possivelmente, a um formato diferente da Revolução Bolivariana no enfrentamento aos EUA. Aliado a estes fatores, a oposição ainda se mantém com consideráveis privilégios econômicos e continua detendo grande parte do controle dos meios de produção. Além do mais, o enfrentamento a uma nova burocracia chavista é um desafio para a Revolução.

 

Um grande problema enfrentado pelo governo Chávez é a convivência de duas políticas. De um lado, o governo investe em políticas sociais, centralizado nas diversas "Missões" que enfrentam o analfabetismo; propõe e coloca em prática uma nova educação em todos em níveis; enfrenta o problema da saúde para os mais pobres; investe no cooperativismo e na economia solidária; realiza uma reforma agrária; e reestatiza setores básicos da economia que haviam sido privatizados no período neoliberal de Carlos Andrés Perez.

 

Além do mais, investe na organização da sociedade através dos Círculos Bolivarianos e das Comunas. Os pilares do chamado "Socialismo do século XXI" estariam centrados no controle estatal de grandes empresas básicas e no apoio à economia solidária entre os grupos informais. Assim, configuram-se importantes mudanças na sociedade venezuelana capaz de superar o próprio personalismo de Chávez.

 

Porém, os antigos privilégios ainda não foram desmontados. Muitas vezes, a Venezuela convive com as políticas distributivas e com mudanças estruturais na economia e na política através das velhas políticas elitizadas e concentracionistas, tanto na economia como na distribuição do poder. Isto gera dificuldades administrativas e certa confusão nas bases populares do chavismo.

 

As eleições de novembro demonstraram que o governo Chávez pode avançar muito. Venceu em 17 dos 23 estados, 80% das prefeituras e o PSUV teve 1,3 milhão de votos a mais do que a oposição. A participação foi de 65% dos eleitores e rendeu cerca de 60% dos votos para os apoiadores da Revolução Bolivariana e de Chávez. Lembremos que no plebiscito do ano passado, que procurava reformar a Constituição com importantes avanços populares, a participação foi de cerca de 40% e a derrota do chavismo de cerca de 1%.

 

Como sempre acontece nas eleições do período chavista, o governo não escondeu que estava em jogo à construção do socialismo na Venezuela e a oposição usou a velha cantilena de falta de democracia, apoiando-se no poder econômico, na imprensa e no apoio estadunidense. Aliás, estes últimos jogaram suas fichas nas áreas petrolíferas mais ricas e conseguiram uma vitória importante em Carabobo, demonstrando que a luta contra os privilégios é difícil, mas deve ser enfrentada com vigor.

 

O processo bolivariano avança. Mas ainda é cedo para conclusões. A disputa hegemônica ainda é bastante presente e cabe ao governo, aos Círculos Bolivarianos, às Comunas, aos partidos de esquerda e aos movimentos sociais avançarem para a radicalização do processo, deixando a dubiedade de um discurso sincero de avanço ao socialismo e avançarem na construção real de uma nova sociedade centrada no ser humano em vez de centrada na reprodução do capital.

 

Os caminhos estão em aberto e cabe à sociedade venezuelana a escolha de seus caminhos. Que eles definam pelo socialismo!

 

Antonio Julio de Menezes Neto é sociólogo, professor na UFMG e doutor em educação.

 

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Comentários   

0 #1 Marcos 01-12-2008 13:26
O artigo levanta uma discussão muito importante que é a do bloco que tem se configurado na américa latina, através de governos ditos de esquerda, eleitos sob a alcunha de \"populares, democráticos e antiimperialistas\". Chaves, Evo Morales, Cristina Kirchner, Rafael Correa Lula etc.. A primeira discussão que sucita é a do siginifcado e legitimidade do processo eleitoral na América Latina. A eleição de Lula é ilustrativo. Foi \"permitida\" somente após os acordos serem devidamente firmados e o compromisso feito de cumprir à risca a cartilha de uma política de governo que atendesse aos monopólios principalmente no que diz respeito à política econômica mas não só nela. Mostra que as eleições dos chamados governos de esquerda, não só no brasil mas em toda a AL, vão além de um jogo de cartas marcadas, são parte importante de uma estratégia de controle e garantia dos interesses do imperialismo na região. Outra questão relevante é a do suposto \"antiimperialismo\". Ser contra os EUA e fazer discursos contra os EUA se ligando a outras potências igualmente imperialistas como a Russia e União Européia não é ser antiimperialista. É ser no máximo antiianque. O \"populismo\" e \"desenvolvimentismo\" confunde, cria uma suposta oposição entre setores conservadores e reacionários de um lado e de outro progressitas e populares. Isto está bem claro mais na Venezuela e Bolívia que nos outros países da AL. Quando na verdade o que existe são pugnas entre diferentes interesses de frações da grande burguesia ambas atreladas ao imperialismo de um ou outro país. A fração da grande burguesia burocrática (vc chama em seu artigo de burocracia chavista)não é um fenômeno social novo, são os mesmos setores que, movidos pelos interesses imperialistas dos EUA após a segunda guerra mundial de produzir tecnologia para vender para as \"colônias\" trouxe as industrias de base para elas, o que originou toda a política chamada de \"desenvolvimento nacional\" nos anos de 50 e 60. Mesmo o suposto desenvolvimento nacional que o brasil passou nestes anos com o avanço da industria, das grandes estatais foi movido por interesses do capital estrangeiro. O problema é que acostumamos a pensar que os interesses do imperialismo estão invariavelmente atrelados à esta política chamada \"neoliberal\" de privatizações e favorecimento da especulação financeira e nem sempre é assim. A política das grandes potências nos países dominados depende de quais são seus interesses geopolíticos no momento e de como maneja com as contradições internas de cada país para seguir conrolando as fontes de riqueza. Na Bolívia está bem fácil ver isto. A contradição que aparenta ser entre conservadores e revolucionários não passa de uma disputa entre os interesses da burguesia compradora, atrelada ao latifundio (media luna) e a burguesia burocrática representada pelo partido do governo Evo e setores do proprio movimento popular que vão a reboque.
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