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Crise financeira, Obama e oposição 'não golpista' obrigarão Chávez a rever seu discurso Imprimir E-mail
Escrito por Valéria Nader e Gabriel Brito   
Qui, 27 de Novembro de 2008
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Encerradas as eleições regionais e municipais da Venezuela, o Correio da Cidadania entrevistou o jornalista e historiador Gilberto Maringoni, autor do livro "A Venezuela que se inventa". Para ele, os resultados permitem interpretações favoráveis a ambos os lados, mas fica visível a vitória de Hugo Chávez considerando-se números absolutos. Dada a redução de abstenções nas urnas, o último pleito pode também ser considerado um avanço da democracia local, marcada por recentes tentativas de golpe de Estado.

 

Entretanto, de acordo com Maringoni, o presidente venezuelano deverá estar atento a novos fatores que se apresentarão a partir do próximo ano, como a entrada em cena de Barack Obama – que impedirá ataques tão histriônicos aos EUA – e a crise financeira - que fará diminuir drasticamente as receitas do país com petróleo. Maringoni ainda destaca que a eleição marcou o ressurgimento de uma oposição de direita que tenta chegar ao poder pela via institucional. Tudo isso reunido, diz, forçará Chávez a rever o tom de seu discurso e algumas de suas retóricas, tanto externas quanto internas.

 

Correio da Cidadania: Como você avalia os resultados da eleição de domingo, 23/11, na qual Hugo Chávez mostrou supremacia em áreas rurais, mas perdeu em cidades mais ricas e populosas, além de estratégicas?

 

Gilberto Maringoni: Isso é o que está sendo focado. Mas o fato real é que o Chávez ganhou as eleições em 17 estados. Teve um milhão de votos a mais do que no referendo de 2007, ou seja, ampliou a base de votos. E ganhou em estados importantes também, recuperando quatro que estavam nas mãos da oposição.

 

Para um governante já há dez anos no poder, e com o desgaste natural que isso traz, conseguir um milhão de votos a mais é algo que deve ser olhado com muita atenção, principalmente pelo fato de muita gente não ter votado no referendo do ano passado.

 

No entanto, a aritmética relativa ao número de votos precisa ser qualificada, para que assim não fiquemos em uma leitura mais superficial a respeito do que aconteceu. O problema maior não foi ter perdido em áreas mais populosas enquanto ganhou em outras menos povoadas. O problema foi ter perdido em regiões importantes do ponto de vista econômico, como Zulia, estado do noroeste da Venezuela, onde se localiza o lago Maracaibo, responsável por 80% da produção nacional de petróleo. Esse estado é o centro econômico da Venezuela. Mas na verdade foi a oposição que se manteve no poder. Não podemos comparar essa região com São Paulo, porque aqui somos um estado industrial, e Zulia não, mas é o principal centro de riquezas venezuelano.

 

Chávez não somente perdeu, como seu principal opositor, Manuel Rosales, saiu vitorioso. Rosales foi candidato a presidente contra Chávez em 2006. Foi o homem que reconstruiu a oposição a partir de 2005, fragmentada depois da tentativa golpista.

 

Também perdeu o estado de Miranda, próximo a Caracas e também rico, com Diosdado Cabello Rondon, que era o vice-presidente dele na época do golpe. Naquele filme ‘A revolução não será televisionada’ é um rapaz novo, calvo, que abraça o Chávez. Acompanha o presidente desde 92, quando tentaram aplicar um golpe. Uma figura e uma derrota importantes; ali Chávez recuou. Além disso, perdeu a alcaidia maior, que é o município de Caracas, que coordena todo o Distrito Federal de Caracas, composto por quatro cidades ao todo. Esse fato é importante porque se tratou de uma derrota depois de duas sucessões de aliados seus. E quem concorria era um chavista histórico, Aristóbulo Isturiz, ex-ministro da Educação, e que em 92 defendeu Chávez no congresso quando todos condenavam sua tentativa de golpe.

 

Na alcaidia maior, ele ainda perde numa região popular muito expressiva, que é o bairro de Petare, que sempre o apoiou, de onde a população desceu às ruas para defender sua permanência no poder em 2002.

 

CC: O que mais contribuiu para derrotar Chávez nessas regiões metropolitanas?

 

GM: Se por um lado é verdade que aumentaram as políticas sociais, as missões de saúde, de alfabetização e assistência social, por outro, a gestão cotidiana da administração pública é desastrosa, especialmente em Caracas e nas maiores cidades. Lixo nas ruas, vias mal iluminadas e o principal: a violência. Embora a segurança tenha chegado a melhorar, houve uma escalada da violência, e das mais sanguinárias, com muitos assassinatos. Esse foi um fator decisivo que a gestão de 10 anos não conseguiu solucionar.

 

Entretanto, não se pode fazer uma análise única. Os dois lados tiveram suas vitórias. O Chávez pelos números, por ter mantido sua base, e a oposição por ter conquistado estados importantes. Se formos nos ater aos números, a vitória de Chávez é nítida, mas, como tenho dito, foi acesa a luz amarela.

 

CC: E como você enxergou a cobertura do pleito venezuelano pelos principais veículos de comunicação?

 

GM: A cobertura do Valor me pareceu a melhor, mais equilibrada. Quanto à cobertura dos outros jornais, o problema passa por uma questão de interpretação dos fatos. Ninguém consegue esconder que ele ganhou, mas maximizam muito os problemas que ele teve e as vitórias da oposição. Tais conquistas foram expressivas, mas não significam um ocaso de Chávez, ou sua decadência. É um desgaste natural num ciclo de dez anos de governo.

 

Existem muitos problemas na política venezuelana, na maneira como Chávez e seus apoiadores tocam a política. A formação do PSUV ‘de cima para baixo’ acabou alijando aliados importantes, como o Partido Comunista da Venezuela, o Pátria Para Todos... Há cerca de dois anos, Chávez anunciou que essas legendas deveriam se dissolver dentro de seu partido se quisessem continuar na aliança. É um personalismo muito grande, que não se justifica. Além disso, há outros fatores específicos.

 

Porém, nada disso é novidade. O fato novo é que em 2007 passou a existir na Venezuela uma oposição que joga o jogo democrático, com as institucionalidades lá colocadas.

 

Até 2006, a oposição tentou um caminho não institucional, dando golpe, promovendo o locaute petroleiro que quase sufocou a economia em 2003, ou até boicotando as eleições, como fizeram no pleito legislativo de 2005. Nessa ocasião, alegaram que as eleições eram fraudadas e dessa forma eles não participariam, no que esperavam receber apoio internacional. Isso não aconteceu e eles ficaram fora do parlamento.

 

A oposição que jogava o jogo antidemocrático foi derrotada por uma parcela que surgiu em 2007 (entre outros momentos, nos protestos pela não renovação da concessão do canal RCTV). Havia ali movimento estudantil, setores intelectuais e até gente da oposição golpista que resolveu entrar no jogo democrático. Tudo na época do referendo, em que, até 10 dias antes, a oposição se dividia entre quem defendia que não se participasse do jogo chavista por este ser viciado e aqueles que resolveram enfrentá-lo. Com a vitória obtida no referendo, a segunda parcela se fortaleceu.

 

Ou seja, o discurso contra a nova oposição não pode ficar nas acusações de que são lacaios do império e etc. "Eu sou povo, vocês são golpistas; eu sou socialista, vocês são imperialistas": trata-se de um discurso, uma polarização, que perde efeito. Surgiram nuances, novos matizes, inclusive no chavismo. Existem dissidentes do Chávez que não são de direita, apenas discordam dele, como o Partido Comunista ou o Pátria Para Todos. Ou ainda o general Raul Baruel, que é de direita, mas não golpista. Isso configura uma sociedade muito mais matizada, o que reflete um avanço da democracia.

 

Nesse sentido, quando as pessoas falam que o Chávez é um caudilho, um ditador, devem olhar melhor para o que está acontecendo. Numa ditadura, existe o não e o sim, o preto e o branco, o simples contraste. Portanto, houve um avanço do processo democrático, não uma redução do seu espaço.

 

Tal avanço é muito complexo, e Chávez manteve seu discurso plebiscitário. Ganhou, mas com tal tipo de retórica se desgasta com setores que estão no meio dessas novas nuances. E os aspectos locais que citei às vezes têm muito mais peso do que fatores de conjuntura geral, como noticiam os jornais.

 

Ele polarizou o discurso da mesma forma que fez no plebiscito, o que traz um risco muito grande. Se ganha, é um triunfo estrondoso, mas, se perde, todo o peso de seu governo fica sob questão. Ele pode falar em vitória, mas creio que deve levar em conta alguns problemas.

 

CC: O personalismo do presidente e a falta de enraizamento social de seu governo - fatores por você já destacados em entrevista sobre o referendo de 2007 a este Correio - não sofreram avanços em outra direção desde esse momento, não?

 

GM: Tanto se confirma tal personalismo que ele transformou o último pleito em plebiscito, colocando seu prestígio pessoal acima de tudo. Foi para cada região fazer campanha, criando uma situação que consistia em votar contra ou a favor de Chávez. Em muitos locais, os candidatos da base chavista não têm luz própria e se apóiam no prestígio do presidente. Isso prossegue, para mal e para bem. Mal porque exacerba o personalismo na política venezuelana, dando mostras de que não há outra figura no mesmo campo capaz de substituí-lo no longo prazo. É um processo que depende muito de um homem só. Eu falo de fora, é difícil afirmar de forma tão peremptória, digo apenas que se reafirma o personalismo.

 

E do lado da oposição, a evolução vai mostrar como ela acata o jogo democrático e como ela se compõe, ou não, com as dissidências do chavismo, que quer criar uma terceira via. Não obtiveram sucesso, pois nenhum dirigente vindo dessa dissidência se elegeu. Se tal quadro se configurasse seria preocupante, mas não há indicação alguma de que haverá confluência com a direita.

 

CC: Frente à crise econômica, seus efeitos no mercado de petróleo e a eleição de Obama, quais as perspectivas para a Venezuela?

 

GM: Agora se apresenta um novo cenário por conta do aprofundamento da crise, o que acarreta uma redução dos preços commodities, incluindo o petróleo. No primeiro semestre deste ano, o barril bateu em 150 dólares, o que inundou a Venezuela de dólares. Havia uma liquidez muito grande na economia, com o crédito muito barato. A inflação estava em 40% e a taxa de juros em 18% ao ano, o que significa juros negativos de 22%, indicativos de muito dinheiro na economia e liquidez enorme.

 

No lado do mercado de alimentos, acabou sendo gerada uma crise graças à demanda crescente e oferta não compatível. Não havia arroz, carne, leite... Há problemas na produção local, que é pequena, mas um país com tanto dinheiro poderia dar conta de importar. Só que não conseguiu, tamanho o aumento da demanda, o que foi um fator de desgaste.

 

Aliado a esses fatores, Chávez aproveitou o bom momento da economia para usar petrodólares a fim de fazer uma diplomacia bastante agressiva, comprando títulos da dívida argentina, auxiliando Cuba, fazendo financiamento de longo prazo para Equador, Bolívia, Nicarágua, comprando armas no Irã, e enfim, modernizando o país.

 

Com o barril a 150 dólares é fácil, mas agora, a 40 dólares, é outra coisa. A sugestão orçamentária feita para o ano que vem imaginava um cenário negativo, com o barril a 80 dólares. O preço caiu à metade da projeção.

 

Portanto, é uma incógnita o que acontecerá no país no ano que vem diante da menor entrada de dinheiro. Mas esse é um problema que se apresenta a todos, inclusive ao Brasil, uma vez que não se mudará o modelo econômico. Os governos do continente que poderiam enfrentar uma mudança geral – da Venezuela, Bolívia, Equador, Brasil, Argentina – e que puderam propagar que a vida melhorou, o que é um fato, têm diante de si uma enorme incógnita sobre o que será o próximo período. Como os governos progressistas vão se virar é uma grande questão.

 

E a eleição de Obama é mais um elemento. O Chávez pôde fazer um discurso muito duro contra o imperialismo, que, aliás, significou denúncias positivas. Mas havia um falcão da extrema direita, Bush, e seus assessores – Dick Cheney, Paul Wolf – de mesma orientação. Era a extrema-direita norte-americana no poder.

 

Agora há um presidente que ao menos é uma figura mais afável, embora se saiba que um homem só não vai mudar todo um país, ainda mais os Estados Unidos. Mesmo mantendo as características imperiais, é muito mais difícil de pintá-lo como demônio. Mais ou menos como quando Jimmy Carter se elegeu em 76 e achamos que o imperialismo tinha acabado. Não, apenas força-se a fazer mais política, o que exigirá jogo de cintura maior.

 

Chávez será, assim, obrigado a adotar mediações em seu discurso diante do novo quadro interno, de Obama e de menores receitas petroleiras.

 

A esperança é que nessas eleições venezuelanas houve uma redução do índice de abstenção. Em pesquisa de confiabilidade na democracia, o número de pessoas que avaliava o sistema positivamente era superior ao do Brasil. Sendo assim, as eleições recém promovidas expressaram a confiança na via democrática, o que torna um golpe muito difícil, pois não haveria respaldo.

 

CC: Finalmente, você acredita que a Revolução Bolivariana ainda está diante de uma oportunidade histórica?

 

GM: Claro, afinal, ele venceu as eleições. O processo venezuelano ainda não chegou a uma revolução. Não houve mudança no caráter do Estado, das classes, o modelo econômico permanece o mesmo... O que se tem é um acúmulo de forças populares nos governos progressistas da América Latina. Creio que é um quadro difícil, cheio de fatores imponderáveis. De toda forma, o impulso dado é muito importante e espero que se mantenha, mas não dá para prever o futuro.

 

O resultado foi positivo, assim como havia sido para o Evo Morales na Bolívia, quando venceu o referendo em agosto deste ano. E a imprensa também falou que ele perdeu, pois o resultado dá margem a uma leitura ambígua. Embora ele tenha vencido nacionalmente, com dois terços dos votos, os administradores locais da direita também foram legitimados. Como na Venezuela, pode-se ler o resultado pelos dois lados.

 

A idéia agora é a de que Chávez é um governante dos grotões, da Venezuela atrasada. Isto está para ser provado, é uma imagem que se tem muito no Brasil de que o partido do atraso está nos grotões. Na Venezuela, 80% da população vive em meios urbanos.

 

Existem disparidades regionais sérias, como ilustra Zulia, que concentra 80% da produção de petróleo, conforme citei. Perder lá foi preocupante, mas também se conquistaram quatro estados dominados pela oposição. A análise numérica esconde a qualidade do processo.

 

Gabriel Brito é jornalista; Valéria Nader, economista, é editora do Correio da Cidadania.

 

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Última atualização em Sexta, 05 de Dezembro de 2008
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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