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Mito E Cinema VII: Idiotia, loucura, liberdade Imprimir E-mail
Escrito por Cassiano Terra Rodrigues   
Segunda, 24 de Novembro de 2008
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Assim como Forrest Gump, Kaspar Hauser também sonha distopias. Um cego que guia uma caravana num deserto; a caravana pára, as pessoas se perguntam por que seguem aquele cego – que também nada sabe... O cego as leva a uma cidade qualquer e o sonho acaba. "Mas essa não é a história", diz Kaspar, "a história começa naquela cidade, mas eu não sei mais...".

 

E, assim como Forrest, Kaspar quer ter certezas, mas, diferentemente de Forrest, questiona deliberadamente as regras que lhe ensinam. Não é somente a sua atitude involuntária, Kaspar se recusa deliberadamente a aceitar arbitrariedades. Ele jamais poderá querer as regras da lógica só porque lhe dizem que são lógicas. Como na famosa cena do filme de Werner Herzog (cujo título original é "Cada um por si e Deus contra todos" (Jeder für sich und Gott gegen allen, Alemanha, 1974)), da conversa com o professor:

 

- Bem. Imaginemos o seguinte. Aqui está uma vila. Nesta vila vivem as pessoas que só falam a verdade. Aqui, há outra vila. Nesta vila, vivem pessoas que só mentem. Dessas vilas, parte um caminho até onde estás, e estás na encruzilhada. Um homem se aproxima, e queres saber de qual vila ele vem – se daquela onde se fala a verdade ou daquela onde vivem os mentirosos. E para resolver este problema – para resolvê-lo logicamente – tens somente uma única pergunta a fazer, para determinar de qual vila ele vem. Por favor, dize-me qual é essa pergunta. (...) Admito que é uma questão espinhosa... Se perguntarmos ao homem se ele vem da vila da verdade, e ele vier, então ele dirá, em verdade, que sim. Mas, se vier da vila da mentira, ele mentirá – e também dirá sim. Mas, há uma possibilidade de resolver este problema com uma única pergunta! (...)Kaspar, se não consegues pensar na pergunta, então te contarei: "Se viesses da outra vila, responderias com um ‘não’ se te perguntasse que vens da vila dos mentirosos?" Por meio da dupla negação, o mentiroso é forçado a contar a verdade. Essa construção o força a revelar sua identidade, veja bem. Eis o que chamo de argumentação lógica para a verdade! (...)

 

- Bem, eu sei de outra pergunta. (...) Eu deveria perguntar-lhe se ele é uma rãzinha que sobe em árvores (Laubfrosch). O homem da vila da verdade diria: ‘Não, não sou uma rã’, porque ele diz a verdade. O da vila da mentira diria: ‘Sim, sou uma rã’, porque ele mentiria. E então eu saberia que este aí vem da vila dos mentirosos.

 

O professor é incapaz de aceitar a pergunta de Kaspar: "Isto nada tem a ver com a lógica, a lógica é raciocínio (Schliessen), não é descrição. Isto é só uma apresentação (Darstellung), não é lógica". Mas Kaspar não recusa a pergunta do professor; ele recusa, na verdade, a necessidade injustificada de uma única lógica. Assim como as normas e costumes morais que aprisionam suas ações, a religião "natural" que aprisiona seu espírito e as roupas que aprisionam seu corpo, a autoridade da lógica aprisiona sua mente. Kaspar deseja o absurdo, ele sonha os sonhos mais irracionais – como pode uma razão divina não conseguir dominar a vontade de uma maçãzinha? Kaspar Hauser não é louco, mas sua "idiotice" expõe a loucura da razão. Uma razão que, pretensamente universal, nas próprias contradições cancela todos os ideais.

 

Forrest Gump acredita nas verdades da história e suas ações, porém, lembram-nos do que a história quer esquecer. Quando as razões da história se mostrarem inválidas ou insuficientes, cairão por terra todas as suas crenças. Ele, então, talvez enlouqueça, e talvez só a mão de Kaspar Hauser ainda lhe ofereça ajuda.

 

No fim daquele diálogo, o professor ainda diz: "O entendimento não é o essencial, o raciocínio é que é! Como professor de lógica e matemática, não entendo o que não aprendi por raciocínio". Seu auto-engano esconde enorme violência, da qual ele não se apercebe... Quais monstros surgiriam do sono de sua razão?

 

Depois de Kaspar Hauser, a sentença de Kant parece tanto mais perturbadora quanto pensarmos que seu autor não pretendia a ironia: a menoridade da humanidade é sua incapacidade de fazer uso de seu próprio entendimento, e a culpa dessa incapacidade deve ser reputada somente à própria humanidade.

 

Na próxima coluna, mais Herzog.

 

Cordiais saudações.

 

* * *

 

Sempre é bom lembrar: Desde que encontrado em 1828 em Nürnberg, Kaspar Hauser teve sua história transposta às telas pelo menos três vezes mais. Uma vez em 1956, no filme dirigido por Roy Kellino (?), The Mystery of Caspar Hauser. E em duas outras produções alemãs: uma de 1965, dirigida por Edward Rothe, Der Spielverderber – Das kurze, verstörte Leben des Kaspar Hauser (O estraga-prazeres – a breve e bagunçada vida de Kaspar Hauser); outra, de 1993, dirigida por Peter Sehr, Kaspar Hauser – Verbrechen am Seelenleben eines Menschen (Kaspar Hauser – crimes contra a vida da alma de um homem). E o texto de Kant é sua resposta à pergunta: "Que é Aufklärung?".

 

Cassiano Terra Rodrigues é professor de Filosofia na PUC-SP, gosta de piadas infames e concorda com Estamira: é tudo esperto ao contrário!

 

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Última atualização em Segunda, 24 de Novembro de 2008
 

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