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Se a Terra definhar Imprimir E-mail
Escrito por Rodolfo Salm   
Sexta, 21 de Novembro de 2008
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Segundo reportagem publicada na Folha de São Paulo de 15 de novembro último, os astronautas da Estação Espacial Internacional Espacial Internacional poderão tomar urina e suor reciclados, graças a um novo sistema de recuperação de água que custou US$ 250 milhões. Segundo os que a provaram, o gosto da água destilada proveniente das excreções humanas não é mau. Sobre tratar-se de uma experiência um tanto quanto asquerosa, uma astronauta observou que a questão é psicológica e que basta pensar que a água que ingerimos na Terra é filtrada indefinidamente nos organismos e evaporada, voltando na chuva, de forma que bebemos água reciclada todos os dias. A notícia interessou-me em especial porque o que mais chamou a atenção dos leitores em meu último artigo nesta coluna foi a idéia do ministro de Assuntos Estratégicos, Mangabeira Unger, de que "mesmo se a Terra definhar, acharemos um meio de escapar para outros pontos do Universo".

 

Um colega biólogo que vive hoje nos Estados Unidos, João Marcelo Pereira Alves, notou que a idéia da aposta em um futuro de ficção científica com soluções mágicas para os problemas ambientais é extremamente popular naquele país (bem mais que no Brasil).

 

Resumidamente, o pensamento central é que os cientistas e engenheiros vão inventar um jeito de consertar tudo e ainda criar formas de lucrarmos com isso. A ciência já deu passos incríveis. As viagens espaciais à Lua e possivelmente a Marte em um futuro não tão distante e a engenharia genética, que mistura características de várias espécies são alguns exemplos. Podemos plantar feijões no espaço (como fez o astronauta brasileiro Marcos Pontes) e até viver fora da Terra em um pequeno grupo por algum tempo. Nossa engenhosidade parece não ter limites. Como João Marcelo bem observou, "só por que a tecnologia fez coisas incríveis no passado, e continua fazendo em muitos casos, acha-se que vai continuar fazendo pra sempre e em qualquer circunstância". Mas isso não é de forma alguma verdadeiro, especialmente se envolve sistemas ecológicos de alta complexidade, como aqueles capazes de sustentar a vida humana.

 

A impossibilidade da colonização de planetas inóspitos como saída para a humanidade é bem ilustrada nas dificuldades enfrentadas pelo projeto Biosfera 2, custeado por um bilionário texano e muito discutido no início da década de 1990. O projeto, que pretendia servir de base para o planejamento de projetos de colonização espacial, consistia em uma imensa estufa de 12.000m², construída no deserto do Arizona ao custo de US$ 200 milhões. Completamente isolada do exterior, tentava criar um ambiente totalmente auto-suficiente, em que seres humanos e outras espécies de animais e plantas "pudessem sobreviver através da reciclagem do ar e da água e da produção do próprio alimento" (clique aqui para mais informações).

 

Parece que, desde o começo, o Biosfera 2 tornou-se muito mais um inferno do que um paraíso terrestre. Os habitantes da estufa gastavam 95% de seu tempo fazendo sua comida crescer e cuidando de suas necessidades básicas de sobrevivência (e pior, com decrescentes taxas de oxigênio), não sobrando muito tempo para trabalhos científicos e nenhum para o lazer. Logo começaram a perder peso e brigas passaram a ser comuns, por conta de acusações de roubo de comida. Na curta duração do projeto, a maior parte das espécies inseridas na estufa extinguiu-se e a perda dos polinizadores, por exemplo, foi um desastre para as plantas. Por outro lado, as baratas multiplicaram-se. Apesar de não ter atingido seus objetivos iniciais, não se pode dizer que o projeto Biosfera 2 tenha sido um fracasso, porque mostrou justamente o que deveria: as imensas dificuldades de sobrevivência para o ser humano quando isolado do ambiente terrestre.

 

Voltando nosso habitat real, e não delirante-imaginário, os problemas ambientais estão em toda parte. Além do Xingu, vejo da minha casa aqui em Altamira uma ilha florestada e perfeitamente preservada. Mas isto por enquanto, pois, se construírem a famigerada hidrelétrica de Belo Monte, ela irá submergir. O esgoto in natura despejado diretamente no rio me traz de volta ao tema central deste artigo. Confesso que teria nojo daquela "urina reciclada" do sistema de recuperação de água da Estação Espacial Internacional, por mais limpa que seja. Mas a língua-negra de Altamira, diluída em um rio que drena uma área de cerca de 50 milhões de hectares (6% de todo o território brasileiro), não me impede de entrar na água.

 

Vamos fazer algumas contas. Reparem que só o sistema de reciclagem de água espacial para apenas seis pessoas custou US$ 250 milhões, quase o mesmo que todo o projeto Biosfera 2 aqui na Terra. Quanto então custaria construir no espaço toda aquela parafernália do Biosfera 2, do tamanho de um shopping center, com centenas de espécies animais de vegetais, computadores, sensores, propulsores, miniaturas de florestas e oceanos e que, apesar de toda esta complexidade, falhou em provar-se sustentável para a vida humana? E isto pensando em meia-dúzia de gatos pingados. Que dirá para a humanidade inteira ou parte significativa dela?

 

E, voltando ao assunto que mais me interessa: tomando-se aqueles valores (da alternativa espacial) como base, quanto valeriam os serviços de reciclagem de águas promovido pela bacia do rio Xingu, que envia água pura na forma de chuvas para a maior parte da nossa população na região sudeste? Eu mal consigo imaginar o número de zeros desta cifra.

 

Pensando assim, jamais faria sentido a construção da hidrelétrica de Belo Monte, que poria em risco este patrimônio natural. E fica claro que a idéia de que se a Terra definhar acharemos um meio de escapar para outros pontos do Universo é uma loucura. Vinda da cabeça de um ministro de "assuntos estratégicos", é uma picaretagem. Estratégico mesmo é lutar para preservar a Terra.

 

Rodolfo Salm, PhD em Ciências Ambientais pela Universidade de East Anglia, é professor da Universidade Federal do Pará.

 

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Última atualização em Segunda, 24 de Novembro de 2008
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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