Estados Unidos: a expectativa com Obama

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Dentro de dois meses, Barack Obama assumirá a titularidade da Casa Branca. O momento não lhe será propício por causa da herança a receber de George Bush: intervenções militares desajeitadas e economia descarrilada. Além do mais, a imagem dos Estados Unidos, sob a presidência republicana, desgastou-se muito perante a sociedade internacional, mesmo entre os países aliados – basta lembrar o quão popular foi Obama em sua viagem à Europa quando diante das populações locais. Por outro lado, o seu adversário, McCain, nem sequer se arriscou a cumprir um roteiro similar.

 

Pode-se apontar que a vitória dos democratas foi bastante auxiliada pelo descontrole dos republicanos na recente condução da economia: a poucas semanas da eleição, mesmo aparentemente contrafeito, o governo interveio, porém sem conseguir interromper os intensos efeitos negativos de sua administração deliberadamente omissa.

 

Embora a crise econômica tenha mantido em alerta os eleitores norte-americanos, a política externa também provoca posicionamento similar. Deste modo, os democratas têm a oportunidade de desfazer o mal-estar entre os Estados Unidos e a Rússia em decorrência do ataque da Geórgia à população da Ossétia do Sul, quando houve a morte de civis. Se os republicanos vencessem a eleição, o estranhamento continuaria, mas Obama desfruta de maior liberdade política, visto que não precisa subscrever a postura atual.

 

Relacionar-se bem com a Rússia é imprescindível, caso Washington almeje o delineio de uma política global de controle de armas nucleares. Além do mais, a instalação de equipamentos militares em países outrora pertencentes ao Pacto de Varsóvia – área de influência da extinta União Soviética - é observada com desconfiança por Moscou, o que enfraquece a colaboração formal na contenção do terrorismo fundamentalista.

 

Mesmo assim, moderação não é para alguns a palavra-chave no convívio com os russos. Robert Gates, titular do Departamento de Defesa, é cotado para continuar na gestão Obama. Veterano da Guerra do Vietnã, Gates é servidor de carreira da CIA, tendo chegado ao posto máximo na administração de George Bush pai.

 

No entanto, durante o governo Carter, ele trabalhou com Zbigniew Brzezinski, da Assessoria de Segurança Nacional. Lá, esboçou-se o projeto secreto de apoio logístico aos guerrilheiros afegãos contra os soviéticos, antes da posterior ocupação do país por Moscou. Destarte, não há consenso histórico se a intervenção teria sido ofensiva ou se realmente defensiva, em vista do risco de instabilidade na fronteira.

 

Na visão de Brzezinski, um dos principais formuladores do Partido Democrata, o conflito teria sido decisivo para a ruína da União Soviética e, por conseguinte, para a vitória do bloco ocidental no período bipolar. Marcado pela mentalidade ainda daquele período, ele comparou a última ação militar russa na Geórgia como equivalente às de Stalin – e Hitler - décadas antes.

 

Confirmada a postura, os Estados Unidos não granjearão apoio suficiente para mobilizarem-se no Conselho de Segurança, mesmo quando o assunto for vinculado em tese ao terrorismo, e continuarão a operar isoladamente - e, por conseguinte, desgastando-se mais.

 

Há poucos dias, helicópteros norte-americanos incursionaram em território sírio, sob a justificativa oficial de repressão ao grupo integrista Al-Qaeda na Mesopotâmia. No fundo, o objetivo foi advertir Damasco ou mesmo Teerã. Ações similares são adotadas concernentes ao Paquistão, onde se empregam mísseis Predadores desde o início de 2008.

 

A justificativa para os ataques decorreria da porosidade da fronteira deste país com o Afeganistão, onde as desmotivadas tropas da Organização do Tratado do Atlântico Norte têm tido cada vez mais dificuldade para reprimir as investidas talibãs, fornido economicamente talvez pelo recrudescimento do cultivo do ópio.

 

No processo de transição em andamento entre republicanos e democratas, qual seria o balanço ou ainda qual seria a estratégia a ser informada de maneira pormenorizada à nova equipe presidencial? Quanto à avaliação, mesmo provisória, a denominada Guerra ao Terror é um fracasso, ainda que tenha fomentado de modo robusto o setor bélico industrial – diferentemente do período da Segunda Guerra Mundial, nem assim a economia caminhou a contento.

 

Assim, a futura administração democrata tem a oportunidade de definir uma nova equipe e conseqüentemente formular uma estratégia de fato para opor-se ao terrorismo, especialmente da vertente fundamentalista. Mantida parte do gabinete na área de segurança, não há mais por que acreditar que o presidente Obama efetivaria rumo bastante diferente do da administração Bush.

 

Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

 

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