Que esquerda?

 

A prefeita de Fortaleza Luizianne Lins disse que sua administração continuará com seu perfil de esquerda. Diante disso, torna-se oportuno definir o que é esquerda. Esquerda, para nós, é a posição política que se assume explicitamente anticapitalista. Parece-nos, entretanto, que a esquerda, a qual a prefeita pertence, tem outra configuração, mostrando-se incapaz de ultrapassar os limites de uma oposição ao modelo neoliberal, opondo a esse modelo um hipotético capitalismo humanizado, o que é uma sandice de primeira grandeza.

 

Aliás, essa "esquerda" francamente majoritária, para desgraça nossa, externa com veemência sua alegria diante do ruidoso desabar da política neoliberal sem questionar o que será posto em seu lugar sem perceber que, à crise, provavelmente não sucederá o socialismo. Mas isso parece pouco importar.

 

Em moeda menor, a esquerda da prefeita Luizianne Lins, no que pese sua boa intenção, não vai além do propósito de gerenciar com proficiência a desigualdade social. Basta que nos lembremos de sua campanha. Nenhuma denúncia do sistema vigente, nenhum apelo à organização consciente do povo. Para a população bastava acionar mágicos botões no dia da eleição e tudo se resolveria, fosse na saúde, na educação, no transporte, na moradia...

 

Qual a diferença entre esse tipo de campanha presumidamente de "esquerda" para a campanha da direita explícita? Absolutamente nenhuma. Nem na forma nem no conteúdo. Isso é o que temos de enxergar.

 

A esquerda que o trabalhador, a dona de casa e a juventude precisam não é essa esquerda direitosa que fez e faz sistematicamente o jogo do capitalismo. A esquerda, historicamente necessária, é aquela que põe a nu o sistema e sabe associar a luta cotidiana do povo ao objetivo maior de emancipação da humanidade dos grilhões de um capitalismo que nos arrasta celeremente para a tragédia total. Essa, sim, é uma posição realmente de esquerda.

 

Gilvan Rocha é presidente do Centro de Atividades e Estudos Políticos – CAEP.

 

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Comentários   

0 #3 Que Esquerda?Raymundo Araujo Filho 20-11-2008 09:29
Concordo inteiramente com a assertiva acima.

E para não cairmos no denuncismo estéril, creio que a esquerda brasileira prcisa, de imedito, abandonar a Política partidária eleitoral, concentrar-se em outro tipo e formas de lutas, baseados na ação direta para conquitas específcas, com grandes e fortes mobilizações pacíficas, mas firmes, e busca de direitos e justiça econômico e social.

E, para isso, vejo como necessário que as figuras de proa da dita esquerda, que deslocupletem dos cargos de poderes executivos, exerçam mandatos populares (os eleitos) no limite da independência dos partidos a que pertencem, e passem a exercer um mandato popular, de frente para o povo, e de costas para o Jogo de Poder e seus agentes.

E não esquecer de usar cuecas de aço!
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0 #2 Que esquerda?renato carvalho 17-11-2008 15:25
A esquerda que julga cumprir seu papel apenas administrando as desigualdades sociais e a que faz uma apologia ao denuncismo contra o capitalismo são similares.
O sinal de igualdade se lhes interponhem em face de efetuarem lutas apenas no terreno da política sem adentrarem decisamente na ordem da luta por uma nova reprodução material e social que uma transformação radical do sistema do capital requer.
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0 #1 O Oportunismo vence a IdeologiaRaymundo Araujo Filho 16-11-2008 10:01
Injustiça do Gilvan em apontar apenas a prefeita Luziane Lins nesta sua correta reflexão.

Estive trabalhando, por coincidência e não para os governos, nos quatro Estados que tiveram governos petistas.

No espírito Santo com Vitor Buaiz (expelido do PT ainda no governo (e ele era bem melhor que o PT inteiro, mas não pode governar), no DF (com Cristóvão Buarque, que tinha o próprio PT como maior oposição), no Rio Grande do Sul (com Olívio Dutra, com toda a esquerda junta) e no Mato Grosso do Sul (com Zeca do PT, este por oito anos no Poder e com a esquerda e a direita juntas convivendo no governo).

E quando me refiro á direita, não me refiro extamente a conservadores que, se bem conduzidos, podem produzir bons trabalhos. Refiro-me áquela direita orgãnica, a da bandidagem e dos assassinos econômicos.

Nada vi que se assemlhasee com algo que se pode chamar de esquerda. Mesmo com Olívio, as suas ações foram tão estapafúrdias, que apenas agrediam o bom senso, sem conseguir emplacar um só programa que fosse além das vistas do próprio mandato. Isso porque, ao meu ver, apesar de se dizerem esquerdizantes, eram apenas produto para que a tal "esquerda" aparelhasse os institutos republicanos e colocassem os beneficiários de suas políticas, como vassalos eleitorais.

Hoje, além de termos Lulla já no segundo mandato, temos também a ana julia carepa que além de se aliar aos madereiros (ponto nevrálgico para o Pará, permite a sua polícia bater nos Sem Terra (em episódio conhecido como Pau no Campo, parafraseando o programa do seu desgoverno Paz no Campo), além de promover TODOS os policiais do massacre de El Dourado dos Carajás). E em aliança com Jáder Barbalho. E se diz trotskista, não o Jáder, a Ana Júlia.

Ah! e ainda tem o governador da Bahia Jaques Wagner que já atravessou o Rio Rubicão (ou no São Francisco), há muito. Mas precisamente no primeiro dia de seu mandato, contradizendo as suas afirmações na campanha eleitoral, contrárias à transposição.

Concluo, portanto que sequer podemos dizer hoje "que esquerda". O que temos é a direita Sem Máscara e a Direita com Máscara.
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