Barack Obama: perspectiva de renovação ou continuidade?

 

Decorrido o período da natural euforia da vitória - visto que ela foi acachapante - do dia 4 último, o Partido Democrata verifica que a entrega da chave da Casa Branca de George Bush para Barack Obama, em janeiro próximo, poderá proporcionar a oportunidade de remodelar o papel dos Estados Unidos diante da ansiosa sociedade internacional.

 

Superada a tensão da campanha presidencial – de imenso significado histórico –, os democratas têm em tese melhores condições para encerrar um processo de curta duração, mas de profundos efeitos negativos no cotidiano mundial: o neoliberalismo, de extensão temporal menor do que a da social-democracia (parte da Guerra Fria) e a do socialismo real (3/4 do século XX).

 

No entanto, as conversações para a formação do secretariado do presidente Obama não parecem rumar para uma mudança maior, mas para a suavização das diretrizes herdadas. Assim, aponta-se para a conciliação política, emoldurada pelo conservadorismo, sob a justificativa de haver uma transição sem sobressaltos, em vista da crise financeira. À primeira vista, repete-se, com ressalvas, o processo por que o presidente Clinton organizou o seu gabinete entre 1992 e 1993.

 

Nesse sentido, a escolha dos primeiros nomes aparenta valorizar a ala menos progressista dos democratas, como a do titular da chefia de gabinete, Deputado Rahm Emanuel, ou do possível ministro da Fazenda, professor Lawrence Summers, ocupante do posto durante a segunda metade do mandato final de Clinton (julho de 1999 a janeiro de 2001).

 

Emanuel situa-se na ala neoliberal de sua agremiação, a Coligação dos Novos Democratas, que representa cerca de ¼ dos deputados democratas, e aproxima-se no Congresso dos colegas republicanos em temas comerciais, ambientais, trabalhistas e de política externa.

 

No caso desta, ele apoiou a Segunda Guerra do Golfo à moda republicana, ou seja, sem restrições. Nesse sentido, até a eleição em novembro, opunha-se ao estabelecimento de um cronograma da retirada do contingente militar do território iraquiano. Com vistas ao Irã, novamente afina-se com a postura republicana.

 

Além do mais, alguns membros da gestão Bush deverão permanecer em seus cargos ao menos por um ano. Na área militar, o Almirante Michael Mullen, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas desde outubro de 2007, é um deles. De início, Obama compartilha a visão de Mullen sobre o Afeganistão, ainda que por diferentes motivos. Ambos acreditam que a prioridade na região médio-oriental é a questão afegã.

 

Para o novo presidente, a Segunda Guerra do Golfo foi um erro de concepção, não de planejamento ou de execução, de modo que se espera a redução gradativa dos efetivos; para o Almirante, o deslocamento de tropas deve ocorrer em função do aumento da insurgência no Afeganistão a partir de 2006, desde que a situação no Iraque se estabilize – basicamente, é a mesma visão do General David Petraeus.

 

De acordo com a imprensa norte-americana, o futuro mandatário teria já cogitado conservar na pasta de Defesa o atual titular, Robert Gates. O grande risco de Obama é, mantidos vários terras-tenentes do governo Bush, ser por estes subjugado na aplicação das estratégias, e não influenciá-los na formulação das políticas militares.

 

Curiosamente, assessores do Partido Democrata justificam a possibilidade de continuidade de tecnocratas republicanos sob a necessidade de estabilidade política, ou seja, de manutenção da governabilidade, argumento invocado constantemente em países sul-americanos para mascarar acordos políticos de teor conservador.

 

Alguns deles já continuarão em virtude de disporem de mandato, como no caso do Banco Central (FED), com Ben Bernanke, cujo término ocorrerá somente no início de 2010, e no da Polícia Federal (FBI), com Robert Mueller III, com encerramento para 2011. Contudo, diante das primeiras evidências, é possível que eles mesmos possam estar à frente de seus postos, após o fim do exercício original.

 

Se a campanha dos democratas desenrolou-se tendo por objetivo a ênfase na mudança, na implementação de um outro modelo, na correção do norte, como efetivar isto se a presente configuração ministerial contempla a perspectiva da presença duradoura de vários próceres republicanos? O momento histórico recomenda a utilização da diplomacia, não de mais força. Em sendo assim, é a hora de os pombos substituírem os falcões-galinhas do período Bush.

 

Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

 

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