EUA: recuperação exige reforma do complexo bélico-industrial

 

Nos últimos dias da campanha presidencial, a vantagem dos democratas nas pesquisas firmou-se. A principal preocupação dos norte-americanos havia sido a economia em detrimento da segurança – mesmo porque o Iraque, ainda que temporariamente, está menos intranqüilo e não houve a materialização de ataque algum, nos últimos tempos, na faixa norte-atlântica.

 

De toda forma, durante sete anos - setembro de 2001 a setembro deste ano -, a inquietação da população residiu sobremaneira na capacidade de proteção do país perante novos adversários: para os partidários republicanos, no âmbito da segurança nacional, o terrorismo era o tema mais importante. Ao longo das primárias, John McCain foi se qualificando aos olhos dos militantes de sua agremiação como o comandante-em-chefe mais adequado.

 

No fundo, a postura de McCain foi a afirmação dos tradicionais postulados realistas por meio dos quais a segurança encontra-se em patamar mais elevado do que economia, meio ambiente, cultura etc., consideradas políticas secundárias. Adicione-se que o próprio republicano havia admitido, ainda na disputa das primárias, que economia não era o seu ponto forte.

 

Por seu turno, entre os democratas, o ponto primordial era o destino da Segunda Guerra do Golfo, em andamento no solo iraquiano. Como conseqüência, Barack Obama, considerado o postulante mais firmemente posicionado contra o confronto desde o seu início, quando nem sequer freqüentava os corredores do Senado Federal, foi o indicado.

 

Em decorrência da emergência da crise financeira e imobiliária, ele dispõe, já eleito, de mais desenvoltura também para concentrar-se na economia, tema já destacado no decorrer da campanha como importante para os filiados do Partido Democrata.

 

Contudo, na prática, não é possível recuperar mais celeremente a economia americana sem efetivar uma reformulação no complexo bélico-industrial a que já aludia o presidente Dwight Eisenhower nos anos 50 - ele mesmo militar de escol durante a Segunda Guerra Mundial. Nesse sentido, desde a Guerra Fria, os Estados Unidos debruçam-se sobre projetos dispendiosos, sem, muitas vezes, depararem-se com a existência de possíveis adversários.

 

Ao longo de gerações, o patrimônio do Departamento de Defesa no exterior ultrapassou os 100 bilhões de dólares, ainda que se considerem tão somente as inúmeras bases espalhadas por todo o globo. Caso se incluam as terras tituladas do Pentágono – Alemanha, Japão, Bélgica, Coréia do Sul -, o adicional estaria na faixa de dezenas de bilhões de dólares.

 

Além do mais, o auxílio de custo destinado aos militares e seus familiares no exterior é também substancial. Não se pode esquecer de que são mais de 750 bases – ou postos - em constante manutenção, em mais de uma centena de países, o que não inclui nem Iraque (onde há mais de um cento de instalações), nem Afeganistão. Em alguns casos, em decorrência de questões políticas ou geográficas, há a necessidade de transferir instalações.

 

Na América do Sul, o Equador, presidido por Rafael Correa, não concordou mais com a destinação militar da base de Manta, a partir de 2009, para os Estados Unidos. Se a situação no Iraque tranqüilizar-se, é possível que inúmeros imóveis sejam abandonados ou entregues ao poder local.

 

As duas guerras – Iraque e Afeganistão - consomem em torno de dois bilhões de dólares por semana. Não obstante a crise, nem McCain, nem Obama, admitiram durante a campanha reduzir os efetivos. Ao contrário, ambos concordaram em aumentá-los. Assim, corroboraram o posicionamento esposado no país desde a sua fundação.

 

De acordo com um relatório de janeiro deste ano do Serviço de Pesquisa do Congresso, sob a responsabilidade de Richard Grimmett, do final do século XVIII até o início do XXI, os Estados Unidos só ficaram pouco mais de dez anos sem ampla movimentação bélica, o que enseja especial tratamento ao Departamento de Defesa, outrora Secretaria da Guerra. Espera-se a partir de janeiro de 2009 que haja um alargamento desta contagem na administração do presidente Barack Obama.

 

Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

 

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