O Brasil pós-olimpíada

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Passaram-se cerca de três meses e como de costume os temas olímpicos jazem país afora, de maneira a hibernarem até meados de 2012, quando já estiverem acordando sob o fog londrino. No entanto, para que não pareça mera crítica oportunista, isto é, tocar no assunto somente quando este é centro das atenções de toda a mídia e destilar reclamos indignados no momento em que todos querem cabaças à mesa, não deixa de ser importante passar o olho em alguns dos últimos acontecimentos do ‘Brasil olímpico’.

 

"Para promover uma substancial massificação do esporte, o país terá que, antes de mais nada, otimizar ou transformar o sistema esportivo existente. A massificação do esporte ajudará a construir uma sociedade mais forte e racional, na qual o esporte de competição pode progredir muito. Nessas bases, o país irá um dia crescer até tornar-se uma real potência esportiva". Que maravilha! Nossas autoridades ao menos têm autocrítica e fazem um balanço realista de nosso atual quadro esportivo e olímpico, pensará o leitor.

 

Não se animem. A análise acima, mostrada na edição 14 da revista Retrato do Brasil, foi publicada no Diário do Povo, veículo do PC chinês, em texto elaborado pelas próprias autoridades do país a respeito da performance olímpica da China em Pequim-2008. Pois é isso mesmo. Apesar de terem conquistado a vitória no quadro geral de medalhas (51 de ouro contra 36 dos EUA), os chineses acham que precisam progredir muito no esporte, principalmente naquele que é praticado na base, pois de acordo com os mesmos dirigentes, apenas os competidores de alto rendimento recebem verdadeiro apoio para praticar suas modalidades nas melhores condições.

 

Enquanto isso, no outro lado do mundo, a análise é um pouco diferente. "Foi uma participação que nos orgulhou e nos deixou seguros que tivemos a melhor figuração na história dos Jogos Olímpicos. É mais um passo no processo de evolução do esporte brasileiro", definiu Carlos Arthur Nuzman, presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), em entrevista para quem quisesse ouvir, logo após retornar de Pequim.

 

Para completar, e atestar que o COB realmente acredita no seu modelo de gestão esportiva, nosso cartola máximo ainda afirma com toda a naturalidade que o comitê estabelecerá novos parâmetros "apoiados na meritocracia". Ou seja, aos atletas que demonstrarem talento acima da média, mesmo sem incentivo inicial algum, o comitê dará atenção e estrutura. Em relação ao esporte de massa e na base, ou seja, nas escolas, nenhuma palavra. Melhor assim, aliás, já que não há planejamento algum mesmo.

 

Em sintonia, o Congresso já liberou para o mesmo comitê a bagatela de 85 milhões de reais, um dinheiro que será destinado apenas para a elaboração do caderno de encargos da candidatura Rio-2016. E olha que as contas do Pan 2007, encerrado há mais de um ano, seguem sem aprovação do Tribunal de Contas da União. Outro detalhe: a cidade carioca terá como concorrentes metrópoles do quilate de Tóquio, Madri e Nova Iorque. Sem ofensa, mas precisamos mesmo perder tempo e dinheiro (público) com uma disputa mais do que perdida como esta?

 

Ah, outra coisa. Apesar de orgulhoso de nossos resultados, o glorioso comitê apenas esquece de mencionar que no último ciclo olímpico nunca se teve tanto dinheiro em mãos para investir no esporte brasileiro. Como bem observou o jornalista Chico Silva, no blog Futepoca, o COB teve 1,2 bilhão à disposição, fruto em grande parte da lei Agnelo/Piva, que repassa para o esporte 2% da arrecadação das loterias (85% do montante para o COB e 15% para o Comitê Paraolímpico Brasileiro).

 

Quando o público vira privado. Ou vice-versa

 

Porém, o pior de tudo é que a entidade continua agindo como se fosse uma empresa privada, de interesse exclusivamente particular, enfim, como se o esporte olímpico nacional fosse assunto interno de meia-dúzia de senhores. No entanto, sempre vemos membros do governo e do esporte brasileiro sorridentes nas mesmas fotos, com discursos que convenientemente se convergem, configurando a tradicional troca de favores entre público e privado reinante na pátria amada. Especialmente na hora de pedirem mais investimento governamental em áreas e eventos que teoricamente diriam respeito somente a eles, ou seja, privados.

 

Para encontrar alguma evidência de tal cumplicidade, não é preciso se esforçar tanto. O Jornal do Senado, em matéria também publicada no site do Congresso, ao falar de novas políticas do COB refere-se a Nuzman como presidente ‘eleito por aclamação’ da entidade. Ora, sabe-se muito bem que tal reeleição (o cartola ocupa o cargo desde 1995) foi conquistada de forma clandestina, em um hall de hotel, sem qualquer divulgação prévia e presença da imprensa. Só foi descoberta porque a reportagem da Folha de S. Paulo conseguiu se infiltrar na reunião e pôde contar ao mundo no dia seguinte que Nuzman havia se reeleito.

 

O fato em si não constituía novidade, no máximo o expediente utilizado. Para tornar a situação ainda mais constrangedora, Alberto Murray Neto, um dos mais altos membros do próprio COB, redigiu carta diretamente a Nuzman pedindo que se convocassem novas eleições, de modo a dar o mínimo de credibilidade e transparência ao processo. Entre outras coisas, Alberto também lembrou que tal forma de realizar a escolha poderia ser facilmente contestada (e derrubada) judicialmente.

 

Pois bem, é assim que prossegue o processo de transformação do Brasil em potência olímpica, a passos largos e sob céu azul como o da nossa bandeira, ao menos de acordo com nossos comandantes. O chato é que a realidade insiste em nos dar outra versão. As contas do Pan seguem dando dor de cabeça; algumas instalações construídas para o evento já estão em estado de abandono, contrariando a historieta do legado para a cidade; nossos resultados na verdade são pífios em relação ao tamanho, potencial e expectativa do país; o presidente do nosso comitê olímpico se reelege escondido em hall de hotel na zona sul do Rio e diz não haver afronta à democracia com tal procedimento; a farra de 2016 já foi iniciada. Como se vê, temas que merecerão abordagens mais profundas.

 

Gabriel Brito é jornalista.

 

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