Morte, tema-tabu?

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O próximo 2 de novembro é dia de finados, dos que findaram, os mortos. Será, no futuro, o dia de cada um de nós. Mas quem encara este destino inelutável?

 

Entre crianças de seis anos de idade convidadas a escrever cartas a Deus, uma delas propôs: "Deus, todo dia nasce muita gente e morre muita gente. O Senhor deveria proibir nascimentos e mortes, e permitir a quem já nasceu viver para sempre".

 

Faz sentido. Evitar-se-iam a superpopulação do planeta e o sofrimento de morrer ou ver desaparecer entes queridos. Mas quem garante que, privados da certeza de finitude, essa raça de sobre-humanos não tornaria a nossa convivência uma experiência infernal? Simone de Beauvoir deu a resposta no romance "Todos os homens são mortais".

 

É esse ideal de infinitude que fomenta a cultura da imortalidade disseminada pela promissora indústria do elixir da eterna juventude: cosméticos, academias de ginástica, livros de auto-ajuda, cuidados nutricionais, drágeas e produtos naturais que prometem saúde e longevidade. Nada disso é contra-indicado, exceto quando levado à obsessão, que produz anorexia, ou à atitude ridícula de velhos que se envergonham das próprias rugas e se fantasiam de adolescentes.

 

Conto sete amigos com câncer nos últimos dois anos. Dois, em estado terminal, me chamaram para conversar sobre a morte. Um deles observou: "Outrora, era tabu falar de sexo. Hoje, é falar de morte". Concordei. A morte era vista como um fenômeno natural, coroamento inevitável da existência. Hoje, é sinônimo de fracasso, quase uma vergonha social.

 

A morte clandestinizou-se nessa sociedade que incensa a cultura do prolongamento indefinido da vida, da juventude perene, da glamourização da estética corporal. Nem sequer se tem mais o direito de ficar velho. Nós, que já temos acesso ao Estatuto do Idoso, somos tratados por eufemismos que visam a aplacar a "vergonha" da velhice: terceira idade, melhor idade ou, como li na lataria de uma van, "a turma da dign/idade". A usar eufemismos, sugiro o mais realista: turma da eterna idade, já que estamos próximos a ela.


No tempo de meus avós morria-se em casa, cercado de parentes e amigos, no espaço doméstico impregnado de pessoas e objetos que constituíam a razão de ser da existência do enfermo. Hoje, morre-se no hospital, um lugar estranho, cercado por pessoas – médicos, enfermeiras, auxiliares – cujos nomes ignoramos. A agonia é suprimida pelos avanços da ciência - o coma induzido, a medicação que elimina a dor. Não há quase choro nem vela nem fita amarela. O rito de passagem – unção dos enfermos, luto, missa de 7º dia, proclamas – é quase imperceptível.

 

"Morrer é fechar os olhos para enxergar melhor", disse José Martí por ocasião da morte de Marx. As religiões têm respostas às situações limites da condição humana, em especial a morte. Isso é um consolo e uma esperança para quem tem fé. Fora do âmbito religioso, entretanto, a morte é um acidente, não uma decorrência normal da condição humana.

 

Morre-se abundantemente em filmes e telenovelas, mas não há velório nem enterro. Os personagens são seres descartáveis como as vítimas inclementes do narcotráfico. Ou as figuras virtuais dos jogos eletrônicos que ensinam crianças a matar sem culpa.


A morte é, como frisou Sartre, a mais solitária experiência humana. É a quebra definitiva do ego. Na ótica da fé, o desdobramento do ego no seu contrário: o amor, o ágape, a comunhão com Deus.

 

A morte nos reduz ao verdadeiro eu, sem os adornos de condição social, nome de família, títulos, propriedades, importância ou conta bancária. É a ruptura de todos os vínculos que nos prendem ao acidental. Os místicos a encaram com tranqüilidade por exercitarem o desapego frente a todos os valores finitos. Cultivam, na subjetividade, valores infinitos. E fazem da vida dom de si – amor. Por isso Teresa de Ávila suspirava: "Morro por não morrer".

 

Padre Vieira, cujo quarto centenário de nascimento se comemora este ano, advertia no sermão do 1º domingo do Advento, em 1650: "No nascimento, somos filhos de nossos pais; na ressurreição, seremos filhos de nossas obras".

 

Frei Betto é escritor, autor de "A obra do Artista – uma visão holística do Universo" (Ática), entre outros livros.

 

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Comentários   

0 #9 mmmJobisson Ferreira Silva 11-01-2009 10:18
Não sei se é algo inerente a minha personalidade,mas tb sinto um profundo desconforto em relação a essa descaracterização,a essa idéia transformar a morte num mero fracasso do individuo,retirado-lhe todas as suas transcendências.
Pessoalmente,concordo plenamente com o poeta quando nos define como "cadáveres adiados",mas a grande beleza está em fazer da da certeza inelutável da nossa finitude a mola propulsora de uma vida cheia de sentido,de utopias,de coragem.
E a vida precisa ser sentida em todas as suas dimensões,todas as suas alegrias,todas as suas tistezas.
Acho ridículos tb esses eufemismos(melhor idade e afins)
Concordo com o Jô Soares quando ele diz que ,a rigor,só há duas idades:Vivo e morto.
Cabe a nós,então,fazer da certeza da nossa finitude a poesia de nossa existência.
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0 #8 Nem a vida e nem a morte tem mais valorSergito Andrade 01-12-2008 13:36
Há umas duas semanas átras, um homem morreu atropelado aqui em frente ao trabalho. Logo cedo, por volta das 6hs da manhã.
O comentário da sexta-feira, dia da morte do sujeito, era somente este. Quem era o cara ? Como ele morreu ?

Ouvia-se falar que ele tinha sido atropelado por um caminhão. E foi mesmo. Mas o que mais chamava atenção nas conversas por todos os cantos era por que ele não estava na calçada, por que ele não tentou atravessar a avenida pela faixa de pedestre ou por que ele estava naquela esquina de bicicleta, sendo que a empresa paga o vale transporte para vir ao trabalho de ônibus. Não ouvi nenhum comentário do tipo: Será que ele tinha família ? Filhos ? Onde trabalhava ????

Acho que esta situação se encaixa muito dentro desse texto onde foi comentado que a morte nada mais é, para aqueles que "chegam" a ela, de um simples fracasso do indíviduo. É lamentável saber que hoje nem a vida e nem a morte tem mais valor.
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0 #7 Maria de Fátima Batista França 17-11-2008 15:16
Gostei muito, principalmente pelo grau de profundidade que aborda o assunto. E também porque estou tendo que lidar com esta situação, tendo em vista morte de grandes amigas e o grave estado de saúde de minha mãe.
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0 #6 ProfundoJosé Tadeu Genaro 04-11-2008 21:06
Caro Frei Beto;

Esta tua matéria me tocou profundamente, não consigo comentá-lo, só sei que estou sentindo agora um grande desejo de refletir a respeito.

Muito obrigado.

J. Tadeu Genaro
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0 #5 A dissocialização das relações humanasFabiano Souza SIlva 02-11-2008 21:30
Ao ler o texto do ilustre Frei, relembrei alguns momentos do ínico do mês de setembro deste; relembrei a morte do meu pai. E foi realmente assim, em um hospital estranho, com médicos, enfermeiras e auxiliares, cujos nomes não recordo; meu pai permaneceu por 13 dias em coma induzido. Entrou pela frente do hospital, saiu por trás, com as mãos e pés amarrados, vestido apenas com um voal. Este texto de Betto é para nos dar forças para lutarmos contra a individualização pregado pelos neoliberais. Precisamos, como nunca, nos unir como só um, pois, juntos, um dia, "seremos a maioria".
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0 #4 Há mortes e mortes....Raymundo Araujo Filho 02-11-2008 17:09
oje em dia estou ficando meio chato para filosofias. Há muita coisa se fazendo passar por tal, mas que não passam de pensamentos pouco profundos e mal concatenados. Quando não focados para e sobre uma minoria.

Penso que o texto do frei Beto tem este problema.

Refere-se apenas a aquelas mortes onde o candidato pode ter seus últimos suspiros em reflexões e/ou orações, com acolhimento de amigos, confidentes e familiar, que dê para que o rito se configure como descreve frei Beto acima. Quase como cenas possíveis até nas elenovelas, tão criticadas embora, ao contrário do que afirma o texto, têm as suas cenas de velótrios e enterros, sim. Também adoram cenas de casamentos.

Mas, temos de nos lembrar TODOS OS DIAS que a maior parte das mortes que ocorrem hoje NÃO são mortes "vividas" como tal. São sem "glamour" e sem confidências.

Mas sim, fazem parte de violências e inqüidades outras, que impedem o "candidato" de fazer qualquer reflexão, que não seja conduzida pelo desespero, agonia dolorosa, quando não pior.

Portanto, não sendo religioso, mas sabendo muito bem o que é a genuína Compaixão de Cristo, que preferencialmente se atém aos desvalidos, perseguidos e ignorados, aí sim o frei Beto diz acertadamente, banaliza a morte, como se fosse artigo de consumo.

Mas, a minha insistência em exigir textos comprometidos com uma visão mais trágica e perversa das "mortes sociais", estas sim carentes de textos filosóficos que as aponte e analise, é um contraponto para que qualquer pensamento não seja elevado à caegoria de "ensaio filosófico", pela pouca profundidade que têm ou por se aterem, ao meu ver como faz o texto acima,naqueles que mais ou menso tiveram o acolhimento necessário para seus últimos momentos.

Afinal, emora não religioso, fui educado em uma sociedade Cristã, e conhecedor de familiares e amigos que souberam traduzir de forma popular e não elitista, o verdadeiro sentimento Cristão. Inclusive frente ao acolhimento necessário dos desvalidos, em seus momentos finais, muitas vezes evitáveis, por simples ações, estas sim, escondidas hje.
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0 #3 A morte não é tudo...dermeval vianna 02-11-2008 17:04
Parabens pelo artigo, Frei Betto. Mas acho que quem enfeiou a morte foi a Igreja Católica Apostólica Romana.Entre os gregos a morte sempre foi vista como uma coisa natural.Veja o caso do filósofo edonista - Epicuro, cuja essência do pensamento era viver bem, aqui e agora.Se os deuses eram indiferente a nós, e a morte uma inevitabilidade, então por que não encararmos essa figura ossuda, como escreveu José Saramago em seu romance - As intermitências da morte. Escreveu ele nesse romance que a morte resolveu entrar em greve, e a partir daí o sistema mundo entrou em crise.Mas crise maior foi dos cardeais de Roma, pois que, sem morte não haveria ressurreição, e daí, tampouco vida eterna.
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0 #2 Somos mortaisMarluce da Cunha Viégas 02-11-2008 14:18
Parabéns pelo artigo,ele nos faz refletir sobre a morte,assunto que todos evitam falar.Recentemente numa reunião ao tocar no assunto,algumas amigas pediram para parar,pois não queriam ouvir falar sobre coisas tristes.Achei estranho,afinal de contas é a única certeza que temos na vida e portanto precisamos não só falar como nos prepararmos para ela.Os avanços da medicina moderna,o aumento da expectativa de vida,e todos os recursos para prolongar a vida,tudo isso está fazendo com que as pessoas cada vez menos pensem na sua finitude,o que é uma pena,pois com isso esquecem-se de investir na fé,no altruísmo.no amor e nas relações familiares,o que fortalece o espírito e eleva a alma e faz aceitar não só os revezes da vida,mas a própria morte.
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0 #1 VERDADEIROSônia Maria 02-11-2008 13:03
Conciso, claro, direto e, acima de tudo: verdadeiro.

Precisamos resgatar o humano 'direito à morte' - sem essa perspectiva (inelutável, como ele bem escreve), não conseguimos viver: estamos continuamente apenas lutando por não morrer. Isso é já estar morto, enganando-se de 'estar vivendo eternamente'.

Como sempre, Frei Betto está de parabéns por sua lucidez e profunda e sensível percepção do sofrimento humano inserido no momento social-cultural-histórico.

Sônia
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