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Mangabeira, o desbravador da mata Imprimir E-mail
Escrito por Rodolfo Salm   
Sexta, 31 de Outubro de 2008
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Em meu último artigo, arrisquei afirmar que a cidade de Altamira, na beira do rio Xingu, em uma região ainda relativamente bem preservada no centro do estado do Pará, estará no olho do furacão das grandes lutas ambientais. Um evento em particular, ocorrido no dia 20 de agosto último, reforçou esta impressão. Descobri que, a poucas quadras da universidade, a governadora do Pará, Ana Julia Carepa, e o ministro de Assuntos Estratégicos, Mangabeira Unger, lançariam o Plano Amazônia Sustentável (PAS) no município.

 

Chegando lá, meu primeiro estranhamento. Em uma faixa em frente ao local, a cidade "agradecia" aos visitantes: "Obrigado pelo Plano Amazônia Sustentável", como se os representantes da elite local, responsáveis pela colocação da faixa, realmente ansiassem pela "sustentabilidade". Ora, segundo a definição mais aceita, sustentabilidade implica no uso dos recursos naturais de forma que este possa ser continuado pelas gerações seguintes sem perdas substanciais. Se levada a sério, essa busca deveria trazer algum receio para a elite de Altamira, por tratar-se de uma região na qual as principais atividades econômicas (extração de madeiras e agropecuária) são altamente destrutivas e nada sustentáveis. Mas, como temos repetido freqüentemente, o termo "sustentável" anda desprovido de significado por conta de seu mau uso.

 

Peguei uma cadeira nas primeiras filas para acompanhar melhor o que aconteceria ali. Apesar de ansioso por manifestar-me contra a devastação da floresta e contra a construção da usina de Belo Monte, não me parecia uma boa idéia desenvolver discursos inflamados e possivelmente já sair marcado como persona non grata para a classe dominante local. Quando soube da visita do ministro, lembrei-me imediatamente de um artigo de Danilo Pretti Di Giorgi (Mangabeira e as aventuras espaciais) sobre esta figura, designada por Lula como responsável por pensar o "desenvolvimento com sustentabilidade" da Amazônia e peça central no episódio da saída de Marina Silva do governo. Curioso sobre seu pensamento, o jornalista encontrou em seu livro "The Self Awakened: Pragmatism Unbound" (ainda não traduzido para o português) passagens realmente preocupantes, uma vez vindas do atual responsável pela "gerência" da Amazônia brasileira.

 

Resumidamente, o coordenador do PAS dá aval para a degradação ecológica. Apostando num futuro de ficção científica com soluções mágicas para os problemas ambientais, arrisca que "mesmo se a Terra definhar, acharemos um meio de escapar para outros pontos do Universo", como se o ser humano pudesse tornar-se descolado e independente do bioma terrestre. Como Danilo concluiu, o perigo desta mensagem é que é justamente isso que muita gente está querendo ouvir neste momento de preocupação e insegurança crescentes causados pela realidade das mudanças climáticas. A mensagem de Mangabeira defende que as pessoas "podem continuar nesse rumo que a resposta virá em breve, não é necessário mudar a direção, está tudo certo assim como estamos conduzindo o mundo".

 

Voltando ao evento, os organizadores tiveram uma idéia no mínimo curiosa: abriram espaço para manifestações da platéia antes dos discursos das autoridades. As manifestações começaram interessantes. Sheila Juruna, do Fórum Indígena do Pará, e Antônia Melo, do Movimento de Mulheres do Xingu, colocaram-se contra a construção da hidrelétrica no rio Xingu. Nas duas ocasiões tentei (discretamente, admito) puxar uma salva de palmas, mas não obtive sucesso em meio à platéia calada. Se você imagina que se tratava de um público tímido, engana-se. Na seqüência das declarações, diversos representantes da indústria, do comércio e principalmente do agronegócio bradaram contra os "excessos" do Ibama e da Polícia Federal nas operações recentes de fiscalização dos desmatamentos. Tais manifestações eram sempre acompanhadas de urras, vivas, aplausos e gritos de apoio dos mais variados.

 

Eu estava curioso para ver quem mais pronunciaria, além das ativistas, as palavras "preservação" ou "conservação" da floresta, que, naquele contexto, pareciam até proibidas. Para minha surpresa, elas só foram ditas novamente, e a partir de então repetidamente, quando o ministro Mangabeira começou a falar. Em um ambiente em que as manifestações haviam sido, fundamentalmente, seqüências de palavras de ordem com pouca articulação, Mangabeira Unger fez um discurso extremamente organizado sobre preservação e desenvolvimento, conceitos compatíveis, segundo seu ponto de vista. De certa forma ecoando as opiniões da platéia, ele criticou a via da repressão no combate aos desmatamentos. Para ele, a solução está em fazer com que "a floresta em pé valha mais do que o desmatamento". Conseguir tal feito e, mais, que só isso garanta a preservação da floresta, parece-me uma dupla ficção científica, tanto quanto a colonização de outros planetas, prevista como saída para a humanidade no livro de Unger. Mas esta é uma questão de opinião.

 

Porém, o furo maior de seu "discurso inteligente" e "conservacionista" foi dizer que o país poderia expandir consideravelmente o agronegócio sem devastar a Floresta Amazônica, contando apenas com a área desocupada do Cerrado. Ao defender esta tese (muito repetida por aí e que, dentre outros equívocos, ignora o valor da biodiversidade deste outro bioma), Mangabeira, esperta e discretamente, diz que a região de Altamira estaria na "transição" da Amazônia para o Cerrado. Na verdade, a cidade já está a cerca de 500 quilômetros mata-adentro. Mas era aquilo o que aqueles senhores queriam ouvir. Afinal, se estamos na transição, não se sabe bem quem está de um lado ou de outro e eles poderiam seguir desmatando suas terras "sem tocar na floresta".

 

Ainda que desagrade individualmente a algum fazendeiro em Tefé, por exemplo, mais 1000 quilômetros de floresta densa adentro, este "pequeno" golpe de 500 quilômetros permitiria a Mangabeira agradar a grande maioria dos desmatadores e seguir em seu discurso conservacionista de manter a "Amazônia intacta" (ainda que praticamente restrita ao estado do Amazonas), enquanto ela é rapidamente comida pelas bordas.

 

Parabéns ao professor Mangabeira, que não veio a Altamira para lançar nenhum "plano de sustentabilidade" Sua missão ali, por sinal bem cumprida, era dar àqueles homens algumas "dicas" sobre como falar sobre a questão ambiental de forma eficaz e trazendo resultados práticos positivos. E ele foi claro sobre a crescente cobrança internacional contra a aceleração dos desmatamentos em curso, alertando para o perigo e a ineficiência de um contra-ataque frontal a essa cobrança e seus principais atores. Apesar do seu português enrolado e arrastado, com sotaque gringo, foi notável sua aula de discurso pseudo-ambiental e politicamente correto. Atualmente, o domínio deste discurso é essencial para aqueles que querem continuar com atividades nada "sustentáveis" em área de floresta e ainda convencer nossos importadores de que cuidamos bem do ambiente, para que a balança comercial do agronegócio mantenha seu crescimento.

 

Rodolfo Salm, PhD em Ciências Ambientais pela Universidade de East Anglia, é professor da Universidade Federal do Pará.

 

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