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A crise e o Brasil Imprimir E-mail
Escrito por Wladimir Pomar   
Terça, 28 de Outubro de 2008
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Os impactos da crise sistêmica do capitalismo sobre o Brasil não podem ser avaliados fora do contexto da nova divisão internacional do trabalho e do capital. Não se pode subestimar, por exemplo, que um dos fatos mais significativos deste início do século 21 foi o surgimento da China, e de outros países em desenvolvimento, como novas potências industriais.

 

Nas crises anteriores do capital, o que valia era a atitude e a capacidade de resposta dos países centrais. Na atual crise, o decisivo será a atitude e a capacidade de resposta dos países emergentes, em especial da China. Em termos mais concretos, espera-se que o mercado interno chinês seja capaz de absorver a redução de suas exportações para os EUA e para a Europa e, além disso, continuar importando os produtos dos países em desenvolvimento e pobres.

 

O Prêmio Nobel Joseph Stiglitz considera que a China será capaz de cumprir esse papel porque o interesse dela "não é o de fazer todo o dinheiro que seja possível e promover o capitalismo... Seu interesse principal é a estabilidade". Por quê? Porque a estabilidade, em seus aspectos econômicos, financeiros, sociais, políticos e diplomáticos, é fundamental para que a China mantenha seus programas de desenvolvimento econômico e social, nos próximos 30 a 50 anos.

 

A soma da poupança e das reservas internacionais chinesas está próxima dos cinco trilhões de dólares. É com isso que o governo chinês conta, neste momento, para elevar o padrão de vida dos seus 300 milhões de camponeses, e dar um novo salto no consumo doméstico. Com isso, e outras medidas de ajuste, a China tem condições de enfrentar a crise de 2008 em condições melhores do que enfrentou a crise de 1999.

 

O mesmo ocorre, em certa medida, com outros países da Ásia do Pacífico, e da África e América Latina. Os países sul-americanos terão que se voltar ainda mais para o fortalecimento das relações econômicas, comerciais, tecnológicas, políticas e culturais com os países da Ásia do Pacífico, como China, Vietnã, Cingapura, Tailândia e Indonésia, e regiões como Hong Kong, Macau e Taiwan, além da índia e África do Sul.

 

Alguns economistas consideram que o Brasil depende dos mercados mexicano, chileno e chinês para suas exportações. Parecem desconhecer que, nos últimos anos, o governo brasileiro trabalhou para diversificar suas exportações, que eram dependentes dos Estados Unidos e Europa. México e Chile são parceiros menores do Brasil na América Latina. E embora a China receba mais de 10 bilhões de dólares em exportações brasileiras, isto ainda representa uma parcela muito pequena das exportações totais do país.

 

Portanto, não é aí que residem as vulnerabilidades externas do Brasil. No momento, elas se concentram na falta de regras para a atuação dos capitais de curto prazo. Este é, provavelmente, o principal ponto fraco do Brasil frente à crise financeira e sistêmica internacional. O Brasil permite que estrangeiros e brasileiros convertam seus ativos em dólar, e os mandem para o exterior, sem qualquer restrição séria.

 

Nessas condições, com a saída de capitais para a compra de bônus do Tesouro americano, ou para cobrir rombos em outras áreas, a volatilidade do câmbio exigirá um sucessivo desencaixe das reservas nacionais pelo Banco Central, que podem chegar a 100 bilhões de dólares, ou mais. Se ultrapassarmos esse ponto, a crise do capitalismo pode bater fortemente sobre o Brasil.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

 

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Última atualização em Qui, 30 de Outubro de 2008
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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