Riachos viram esgoto no Rio de Janeiro

 

Recentemente, o governo do Rio de Janeiro anunciou que priorizará investimentos em um sistema conhecido como saneamento de tempo seco. Apresentou a proposta como alternativa à coleta e tratamento convencional de esgotos domésticos, a ligação dos esgotos domésticos, formando a rede coletora, com os coletores-tronco e interceptores, com destino final das águas servidas nas estações de tratamento, com melhoria de sua qualidade posteriormente devolvida ao ambiente. A proposta apresentada tem como objetivo permitir o lançamento do esgoto in natura em canais e riachos para depois bombear a água poluída para pequenas estações de tratamento. Isto é, pretende manter o uso dos corpos de água como receptores e rede coletora de esgoto. Um horror mesmo.

 

Há mais de quinhentos anos esse procedimento é empregado no país, com as conseqüências mais do que conhecidas e danosas, compreendendo grave comprometimento na qualidade das águas superficiais, como problemas de doenças de veiculação hídrica, eutrofização, crescimento de algas potencialmente tóxicas, entre outros.

 

Em São Paulo a situação não é diferente. O lançamento em rios e riachos do esgoto in natura de cerca de 10.000.000 habitantes ainda é empregado como procedimento de afastamento das águas servidas. Esta forma de uso deve ser abolida, pois não só degrada o corpo de água, mas também como procedimento de afastamento não é adequado, principalmente em grandes centros urbanos densamente ocupados.

 

Para as represas Billings e Guarapiranga, a aplicação direta de peróxido de hidrogênio ou sulfato de cobre na massa de água é a principal ação de controle do crescimento de algas, em particular as potencialmente tóxicas, as cianobactérias, que com suas toxinas podem causar a morte de seres humanos. Pior ainda, este procedimento de controle já é empregado na represa Paiva Castro, que abastece cerca de 10 milhões de habitantes da grande São Paulo.

 

Assim, a manutenção das atuais políticas públicas no uso e ocupação dos espaços, que seguem inalteradas, não deixa outra alternativa: no futuro, o Paiva Castro será como a Guarapiranga. Como tudo demonstra que não haverá mudanças nas intenções e interesses de nossos dirigentes de plantão, seja em São Paulo ou no Rio de Janeiro, nem no longo prazo, então de onde virá a água para bebermos? Qual será a qualidade da água empregada no abastecimento público? Qual será o custo final da água servida à população?

 

A solução é tratar o problema na fonte, coletando todo o esgoto gerado em sistema próprio e de fato afastá-lo, não permitindo o lançamento no manancial mais próximo. Temos também que disciplinar os usos e ocupações dos espaços, definindo prioridades, com reflexos na melhoria da qualidade das águas.

 

No entanto, vivemos eternamente no improviso cuidando unicamente dos efeitos, com infra-estrutura precária e políticas públicas ineficientes, e, pior, sem perspectiva de melhora. É como se a nossa dor de dente fosse tratada unicamente com anestésico, sem nunca ter o problema resolvido na base, ter o dente tratado em definitivo e monitorado visando prevenir novos problemas. A título de prioridade, continuamos com os procedimentos paliativos empregados como definitivos. Que horror.

 

Marcelo Pompeo é professor do departamento de Ecologia da USP.

 

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