Kassab e a cegueira da classe média

 

- "É um absurdo investir tanto dinheiro público em teatros luxuosos e em piscinas aquecidas nos CEUs do fundão da periferia. Aqueles nordestinos não têm cultura e vão destruir tudo". Chilique de uma especialista na área de saúde e estética.

 

- "Eu fico puto com estes corredores de ônibus. Gastei uma fortuna no meu carro e ele anda mais devagar do que os ônibus. Parece que a prefeita privilegia quem não tem carro". Desabafo de um ex-gerente de uma multinacional do setor de alimentação.

 

As duas declarações absurdas, mas verídicas, revelam bem a visão mesquinha da chamada classe média paulistana. Foram dadas, com a maior franqueza, por vizinhos do bairro da Bela Vista, na região central da capital paulista, quando Marta Suplicy ainda era prefeita. Este comportamento tacanho talvez explique por que Gilberto Kassab, representante do que há de mais conservador na política, deu de goleada neste bairro, venceu o primeiro turno e, segundo as pesquisas, deverá se sagrar o vitorioso no pleito neste final de semana, salvando o oligárquico Demo da total falência.

 

As farsas paulistanas

 

O mapa de votação do primeiro turno mostra que Kassab venceu com folga nos bairros nobres e de classe média da cidade; Marta Suplicy só ganhou nos extremos da periferia. Já as pesquisas de segundo turno revelam que o demo tem 73% da preferência entre eleitores que ganham acima de 10 salários mínimos. Estes dados corroboram a triste história do maior centro econômico do país, que sempre apostou em farsas conservadoras. É certo que a visão elitista da classe média paulista é antiga e não deveria gerar surpresas. Mesmo assim, ela causa asco e revolta. Numa linguagem sarcástica, o jornalista Nirlando Beirão, editor da coluna Estilo da revista Carta Capital, lembra:

 

"São Paulo era contra Getúlio Vargas e a favor da oligarquia. Apoiou o populismo de Adhemar de Barros e inventou Jânio Quadros para a política. Vociferou contra Juscelino Kubitschek. Com as Marchas com Deus pela Família, preparou e apoiou o golpe militar de 1964. Revelou Maluf. Na eleição municipal de 1985, elegeu Jânio contra Fernando Henrique. Na primeira direta para presidente, elegeu clamorosamente Fernando Collor. FHC contra Lula? FHC duas vezes. Maluf contra Eduardo Suplicy? Maluf. Pitta contra Erundina? Pitta. Serra contra Lula? Serra. Alckmin contra Lula? Geraldinho. Serra contra Marta? Serra. Kassab contra Marta? Kassab... Quando Erundina venceu em 1988, não havia segundo turno. Em 2000, o eleitor correu para Marta só porque tinha se cansado da impagável dupla Maluf-Pitta. Exceções que confirmam a regra".

 

Come mortadela e arrota caviar

 

Já o sociólogo Emir Sader avalia que São Paulo se tornou "o núcleo mais conservador do país, o estado mais odiado pelos outros estados, porque assume a imagem da ‘vanguarda econômica’, de discriminação em relação aos outros, pretendendo, desde FHC, assumir o espírito reacionário de 1932. Não por acaso se constitui no estado o pior da imprensa nacional – Folha, Estadão, Veja –, instrumentos de propaganda da oligarquia paulista. O bloco sócio-político da direita representa o egoísmo de quem resiste às políticas de distribuição de renda e de incorporação dos excluídos".

 

A chamada classe média, que reproduz acriticamente a ideologia dominante, teria ódio a Lula, a Marta Suplicy e ao conjunto da esquerda. Para esta camada, que come mortadela e arrota caviar, Lula representa "o nordestino chegado a São Paulo pela expulsão das secas do nordeste, operário que se forjou politicamente na oposição à oligarquia, discriminado por ela, odiado hoje porque promove políticas de redistribuição de renda que acusam as oligarquias pelo que não fez quando foi governo e pela sua responsabilidade em fazer do Brasil o país mais desigual do mundo. O oposto a FHC, ídolo dessa classe média conservadora e da elite branca paulista", fustiga Sader.

 

Decifra-me ou devoro-te

 

O livro ‘Classe média: desenvolvimento e crise’, organizado pelo economista Marcio Pochmann, ajuda a decifrar o enigma deste segmento social, alvo da cobiça dos conservadores. Ele usa como referência conceitual de classe média "o conjunto demográfico que, embora com relativamente pouca propriedade, destaca-se por posições altas e intermediárias na estrutura sócio-ocupacional e na distribuição pessoal de renda e riqueza. Por conseqüência, ela termina sendo compreendida como portadora de autoridade e status reconhecidos, bem como avantajado padrão de consumo".

 

Ele subdivide a classe em média/alta (executivos, gerentes e administradores) em média/média (ocupações técnico-científicas, postos-chaves da burocracia pública e privada) e em média/baixa (professores, lojistas, entre outros). Indica que este estrato social teve forte expansão no país em decorrência das mudanças no capitalismo brasileiro, com o fortalecimento do papel do Estado e o aumento do trabalho assalariado. "Sem a propriedade e a posse de alguns meios de produção, a nova classe média assalariada encontrou a diferenciação em relação à classe trabalhadora não apenas pela extremidade do rendimento, mas também pelo padrão de consumo elevado".

 

Neoliberalismo e guinada à direita

 

Após seus anos de glória, porém, ela também foi vítima do tsunami neoliberal. "A partir da crise da década de 1980, com a adoção de medidas recessivas e choques inflacionários seguidos, nos anos 1990, por políticas neoliberais de abertura comercial e financeira, a classe média sofreu as conseqüências da semi-estagnação econômica, do desemprego e queda de renda. A conseqüente perda de status da classe e as dificuldades crescentes do mercado de trabalho cada vez mais competitivo e exigente de novas qualificações impactaram diretamente as suas aspirações de ascensão social". A ofensiva neoliberal rompe o padrão de reprodução da classe média.

 

"Ganha ênfase o conjunto de ocupações vinculadas à existência de algum meio de produção e à posse de propriedade privada, como no caso dos micro e pequenos negócios ou das atividades autônomas". As mudanças objetivas se refletem na sua subjetividade. "Segmentos importantes da nova classe média repudiam o Estado e jogam o peso da crise sobre o excesso de direitos e de ‘encargos sociais’. A nova classe média proprietária volta-se para o consumo das elites, mostrando-se profundamente reticente a qualquer forma de nacionalismo. Enquanto encolhe a renda da baixa e média classe média, a alta classe média ‘cola’ no processo de financeirização".

 

"De um lado, a classe média que depende da expansão econômica, da prestação dos serviços públicos e sociais e da diversificação produtiva vê seu espaço de ação cada vez mais minguado; enquanto, de outro, uma nova classe média, ostensiva em seu padrão de consumo, aproxima-se da elite dominante e revela profundo escárnio em relação às potencialidades do desenvolvimento nacional. O motivo é evidente: a efetivação destas potencialidades implica a contenção e controle do seu modo de vida transnacionalizado e essencialmente anti-republicano. Será que a atual classe média realmente deseja que o país avance se isso lhe custar ceder alguns privilégios?".

 

Aliada das elites dominantes

 

O livro lembra ainda que a classe média se beneficia das injustiças sociais, com diversos tipos de serviços pessoais – empregada doméstica, faxineira, segurança particular, babá, motorista – que estão disponíveis devido à abundância de mão-de-obra barata no Brasil. "Naturalmente, qualquer variação no status quo modificaria essa relação da classe média com a mão-de-obra abundante, tirando-lhe o proveito dos serviços pessoais e reduzindo a sua posição social hoje privilegiada". Como conclusão, a obra chegava ao veredicto que explica a tendência eleitoral deste segmento:

 

"Esse quadro reforça a posição tradicional conservadora do grupo em luta pela manutenção das suas regalias. E isso torna a classe média uma aliada dos grupos dominantes do país, da ‘elite do poder’. Sendo assim, não é difícil de entender o verdadeiro sentimento de contradição que parece atravessar esse heterogêneo grupo social: de um lado, o sonho de modernidade, de progresso, de competência e de sucesso; de outro, o contato, o apadrinhamento, os serviçais, a aparência. É quase como o mito da caverna: alia-se ao discurso conservador em detrimento da compreensão mais profunda do país concreto e, por isso mesmo, só observa sombras da realidade".

 

Cegueira beira a burrice

 

Nesta cegueira preconceituosa, a chamada classe média beira a burrice. Repete acriticamente as manipulações da mídia venal. Gosta de ouvir e ecoar os comentários dos colunistas mais elitistas e rancorosos, como Arnaldo Jabor, Diogo Mainardi, Boris Casoy, Lucia Hipolito, entre outros. Metida a esperta e informada, esquece facilmente que Celso Pitta devastou a capital e que tinha como seu principal secretário o atual candidato Gilberto Kassab. Sem memória, releva o sombrio período da ditadura, que hoje tem como herdeiros os oligarcas do demo (ex-PFL), escorraçados pelas urnas no país inteiro, mas salvos na "capital da modernidade".

 

Egoísta e egocêntrica, ela não percebe que o país não se desenvolverá, inclusive alavancando as suas camadas médias, sem justiça social; que a miséria estimula a violência e criminalidade; que a barbárie acirra o apartheid social, com os presídios para os pobres e os condomínios fechados, cercados de segurança e câmeras para os abastados. Ela se opõe às políticas públicas a serviço do conjunto da sociedade e depois reclama dos congestionamentos provocados pela "civilização do automóvel" privado. Critica o Bolsa Família, mas sonha com sua bolsa de estudo no exterior. Diz não ser racista e preconceituosa, mas cada vez mais se parece com a elite fascista da Bolívia.

 

Altamiro Borges é jornalista, membro do Comitê Central do PC do B e autor do livro recém-lançado "Sindicalismo, resistência e alternativas" (Editora Anita Garibaldi).

 

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Comentários   

0 #12 Luiz Zenda 16-02-2009 13:40
Querem terceiro turno é? Aqui em São Paulo, vocês não emplacam mesmo. Marta, Mercadante e outros petelhos não tem vez aqui. Sugiro uma migração para os bolsões do Bolsa Família...
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0 #11 Muito bom!Alexandre 05-01-2009 17:44
Esse artigo está muito bom! Parabéns! Mostra o pensamento individualista da classe média, característico do próprio capitalismo

O Kassab, queridinho da mídia, queridinho dos empresários e braço direito dos tucanos, é a representação mais sólida da direita conservadora em São Paulo. A diferença básica entre direita e esquerda é que a direita se interessa com o próprio bolso e a esquerda com a população. Eleger o Kassab é a mesma coisa que dizer \"Olha, eu apóio a miséria e apóio as desigualdades sociais em São Paulo, porque pobres, argh, são pobres\" - pensamento presente até em algumas cabecinhas de vento da própria classe baixa, manipuladas pela mídia.

O Kassab em 2 anos não fez mais nada do que continuar o governo tucano, tentando eleger novos eleitores. O Kassab contando com muito mais verba do que a Marta não fez metade do que ela fez por São Paulo!
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0 #10 Felipe Guerra 05-12-2008 14:57
Realmente o jornalista citou diversos fatos verídicos, essas
ultimas eleições foram no mínimo ridículas.
Primeiramente por parte da mídia,
o horário eleitoral quando não é puro humor, é demagógico e meloso. Sempre mostra um pseudo-pobre que foi beneficiado por tal candidato e começa a elogia-lo de diversas formas.
Sinceramente como membro da classe média devo dizer que
não voto em um candidato para que
ele recapie a minha rua ou leve o metrô mais perto da minha casa. Prefiro muito mais que ele faça algo pela periferia e regiões mais necessitadas,porque isso sim muda a cara da cidade, mas obviamente a classe média em geral não vota pelo bem da cidade, e sim pelo bem próprio.
Axo que o pior de tudo nessas eleições foi o fato da Marta ter falado relaxa e goza na TV e todo mundo cair matando. E obviamente todo mundo se esqueceu que o Kassab discutiu e gritou com um cidadão que prostestava por ter ficado sem emprego devido aquela ridícula lei de tirar faixas e letreiros da cidade toda. Ridículo ainda é citar o fura-fila como um ponto positivo do mandato do prefeito Kassab. De todas acho que essa é a obra faraônica mais ridícula de são paulo, que no momento só serve para congestionar o trânsito na região e impressionar os mais tapados. Por que será que ele não controi essa maravilha do tranporte público em bairros mais luxuosos? A expansão do metrô é pior ainda, feita no meio de bairros residenciais e sem planejamento algum, se a população visse como são divididos os contratos de contrução das estações de metrô assinados pela prefeitura ninguem mais usaria o metrô. Mas assim é a cidade de são paulo, nada muda, tudo nela é feito para impressionar a futura massa eleitoral, e o povo continuar sem memória.
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0 #9 Êta classe reacionária!Paulo 03-11-2008 15:40
A classe média, burguesa e reacionária, que vota PSDB/PFL, é egoísta, preconceituosa e xenófoba. Não conhece o significado da palavra inclusão e só tem olhos para o próprio umbigo. Ajudou os golpistas de 64 e agora vota unida na aliança de centro-direita. Não é à toa que Kassab bateu, de lavada, nas regiões onde se concentra o poder econômico e os interesses capitalistas.
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0 #8 COMPLEMENTOmauro balmiza 31-10-2008 13:43
Parabéns pelo artigo acima, ele consegue sim contribuir para entender a complicada classe média paulistana, traduziu o que eu sempre procurava expressar..
moro no centro de sp, e me lembro muito bem dos esgorços da Marta para melhorar o centro de SP quando ela era prefeita( reformas do mercadão, favela do gato, prédio são vitor, projeto belezura, reurbanização e recuperação do velho centro de sp) hoje o centro de sp está jogado a própria sorte, paredes sujas, abandonado, decadente e desagradável.
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0 #7 Raimundo 29-10-2008 09:03
A classe média paulistana é um câncer na política nacional.
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0 #6 incoerência e manipulação do votoAmanda Mota 28-10-2008 12:58
Concordo com o artigo. Acho que a classe baixa vota errado, não é uma questão de que a esquerda é boa( eu mesma nao defendo nenhuma das partes), mas ser pobre, da periferia, pegar onibus, ganhar pouco , sofrer pra burro e votar em partidos conservadores é uma tremenda incoerência, é talvez a forma do pobre se parecer com o rico, imitando-o.
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0 #5 Reparando excessosClovis Augusto Eça Ferreira 28-10-2008 12:57
Li e reli este artigo, e pretendo rever os textos citados. Desde já, protesto contra o tom extremista dos estereótipos que tentou impingir aos \"paulistas\". Cheira a preconceito regional, principalmente ao opor, de um lado, Getúlio - o grande populista que atrelou o sindicalismo ao Estado, e de outro o sistema oligárquico, sinalizado como privilégio paulista. Ignorou a estreita relaçao entre a esquerda brasileira e as cidades industriais de Sao Paulo, e reduziu a mera exceçao, o voto de confiança dado a Lula, em seu primeiro mandato, e a Marta, posteriormente recusados.
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0 #4 Anônimo 28-10-2008 12:57
\"quando a gente quer batalha e consegue tem que ensinar a pescar\".

Acho que essa NÃO é a realidade. Tem muita gente que quer, batalha e só o que consegue é continuar sobrevivendo.

Lamento concordar que SP está bem próximo do que o articulista afirma.
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0 #3 ComentárioJoão Batista 28-10-2008 12:56
Eu discordo de tudo que o jornalista Altamiro disse acima, o povo paulistano apenas exerceu seu legitimo direito de escolha, optando por aquele que se mostrou o melhor dentre os candidatos que se apresentaram. Só o fato da Marta admitir no debate de 24/10 que a cidade está mais rica, está claramente admitindo que a mesma está sendo bem administrada, então para que mudar? Porque correr risco se tudo está certo.

A Marta uma oportunidade de administrar bem a cidade de SP e não o fez, achou que, por estar de posse do poder poderia fazer o que quisesse, e começou a criar taxas e mais taxas, e o que é pior, taxas para os outros pagarem porque ele não pagava, tanto que recentemente foi acionada judicialmente e pagou quase R$ 500,00 de taxa de lixo, sendo a taxa de valor abaixo, supõe-se que ela nunca tenha pago. Criou inúmeras taxas sem se preocupar com a remota hipótese de um dia vir a precisar desse mesmo povo, e já por duas vezes precisou e recebeu o troco pelo que fez. Agora ela se arrependeu publicamente, mas agora é tarde, devia ter pensado nisso antes de criá-las.

Com sua saída da Prefeitura, tomamos conhecimento de que as taxas eram apenas por ganância monetária, pois o Serra acabou com a taxa do lixo logo no inicio de sua gestão e não fez falta alguma para sua administração, tanto que a própria Marta reconheceu que a cidade esta mais rica.

Só não viu que o Kassab fez por merecer esta magnífica vitória, aquele que se recusa a ver e ouvir, pois a cidade está em obra por todos os lados, até o fura fila que veio da gestão Pita, passou pelo mandato da Marta e nada mudou, o Serra/Kassab assumiram e inauguraram o trecho a muito prometido em poucos meses, e deram seqüência rumo a Cidade Tiradentes, já chegando na Vila Prudente onde estão construindo a parada.

Se o Kassab foi secretário do Pita, foi secretário, secretário é um funcionário que cuida de uma secretaria, ele não administra a cidade, esta é ocupação do Prefeito, mas foi bom a Marta ficar o tempo todo falando da administração Pita, isso só provou que nada encontraram para desabonar o Kassab que era o candidato, tentando até partir para a vida particular, no que deram com os burros n’água.

Agora uma coisa é certa, a Marta ficou a campanha inteira com o Pita na boca, com a estrondosa derrota sofrida, vai ser obrigada a engoli-lo, ou será que vai permanecer quatro anos com ele na boca?
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