Mito e cinema IV: A natureza-mulher e o dever do homem

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Um diálogo:

 

– Você nunca sente falta de mulher?

 

– Mulher pra noite inteira? Ahahahahah... Eu peguei uma indiazinha pra morar comigo uma vez. A pior vagabunda que se vendia por qualquer ninharia... No fim, troquei-a por um rifle Hawkin! Os seios de uma mulher são a rocha mais dura que Deus já colocou sobre a terra, e eu não consigo achar sinal algum entre eles!

 

Tirado do belíssimo filme de Sydney Pollack, ‘Mais forte que a vingança’ (EUA, 1972; o título original é Jeremiah Johnson, nome da personagem principal). No filme, Jeremiah Johnson (Robert Redford, num de seus melhores papéis) sobe a montanha, abandona a civilização em busca de uma relação genuína com a vida em contato com a natureza. Lá encontra "Bear Claw" (pata de urso), Chris Lapp, há tempos adepto do anacoretismo, de quem obtém a resposta acima.

 

Notem-se os termos da relação entre mulher e natureza – mistério, traição... E também a relação com o rifle: mulheres, claro! Mas sem um bom rifle é impossível sobreviver. O bordão de "Bear Claw" no filme é: "You can’t cheat the mountain, pilgrim, the mountain’s got its own ways (Você não tapeia a montanha, peregrino, a montanha tem os caminhos dela)", seguido de um silêncio...

 

O indivíduo em contato direto com a natureza – eis a idéia mais cara ao faroeste americano. Na verdade, essa é uma idéia que remonta ao século XIX, aparecendo fortemente nos escritos dos autores "transcendentalistas": Henry David Thoureau, Ralph Waldo Emerson, Margaret Fuller, George Ripley, Elizabeth Peabody, dentre outros.

 

Reagindo ao intelectualismo e ao racionalismo em voga na época (principalmente em Harvard), os transcendentalistas viam no encontro com a natureza a possibilidade de romper os códigos de uma dominação religiosa puritana e autoritária. Thoureau diz que busca na natureza "uma vida de simplicidade, independência, magnanimidade e confiança", longe das convenções civilizatórias e aprisionadoras.

 

E talvez não haja mito mais reatualizado do que o do bom selvagem... Ainda que não com esse nome, a idéia é antiga: na sua condição natural, o ser humano é livre como em sociedade jamais foi ou será. Somente ali, na solidão, sob as leis únicas de Deus e da natureza, é possível ao indivíduo humano o reencontro consigo mesmo – e, por intermédio desse reencontro, o encontro com a verdade e a essência das coisas. A verdadeira natureza humana só se nos revela quando abandonamos a civilização corrompida e entramos em contato com a natureza – aí e então tudo se esclarece, compreendemos finalmente o mistério da vida.

 

Mas esse é só um aspecto da questão. A natureza também é freqüentemente associada à idéia de uma feminilidade misteriosa, uma mulher ao mesmo tempo sedutora, virgem, difícil de se penetrar – a rocha mais dura sobre a terra! Para domá-la, é preciso conhecê-la – quem o fará? O novo Adão: o peregrino desbravador, o colono bravio que submete as forças selvagens pela sua diligência e inteligência. Essa imagem da natureza liga-se à ideologia do destino manifesto: ao contrário das revoluções na Europa, que almejavam transformar o velho homem para uma nova realidade social, as revoluções nos EUA (políticas e espirituais) almejam preparar o novo homem americano para enfrentar uma nova realidade. O mito da liberdade natural do indivíduo se entrelaça, dessa forma, com os motivos edênicos na visão da América – expandir as fronteiras, reconquistar o paraíso, afirmar o valor humano – de certo homem sobre tudo mais.

 

Mas não é só a montanha que não se pode tapear. Fugir da civilização, como Johnson aprenderá amargamente, é impossível. Onde quer que te escondas, ela te caça. Assunto para a próxima coluna.

 

Cordiais saudações.

 

* * *

 

EVENTO: Todo mundo já sabe, mas não custa: 32ª Mostra de Cinema. Exibição de Berlin Alexanderplatz, de Rainer Werner Fassbinder, na íntegra. Ok, é uma série feita para a TV, mas e daí? Informações: http://www.mostra.org/32/home.php?language=pt

 

EVENTO 2: Outro evento cinematográfico nem tão alardeado quanto a Mostra está pra começar em São Paulo: a exposição Cinema Sim − Narrativas e Projeções, que explora a presença da linguagem cinematográfica nas artes visuais. De 29/10 a 21/12, no Itaú Cultural. Informações: http://www.itaucultural.org.br/cinemasim

 

Cassiano Terra Rodrigues é professor de Filosofia na PUC-SP e acha que, ultimamente, é a natureza que foge das pessoas...

 

Contato:Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

 

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Comentários   

0 #4 Edith S. Frankenthal 28-10-2008 12:54
Há comentários e comentários. Esse é do tipo que abre portas. Se o autor não fosse professor, deveria se tornar um. Felizmente já é.
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0 #3 Cíntia Vieira 25-10-2008 17:25
Gostei do texto, mas fiquei pensando: será que essa oposição entre natureza e civilização não está se tornando obsoleta?
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0 #2 Leandro Cardim 25-10-2008 09:58
Olá Cassiano! Como sempre, acho muito interessante seus escritos. Este achei mais ainda, o senso de humor e a profundidade fazem aumentar a qualidade de seu texto de uma maneira extraordinária... Abraço, Leandro.
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0 #1 Natureza sem fimSandra Aurora Muñoz 25-10-2008 06:24
Caro Cassiano,

Nao conhecia o movimento dos transcendentalistas.
Tampouco vi o filme mas vou procura-lo, gosto muito de Robert Redford.
Todo filme que trata de alguem saindo de seu lugar de origem em busca perdida ou orientada, mas em busquedad de algo, tem esse transfondo temático que muito me fascina.
Acabo de voltar do Libano, e és o primeiro contato estabelecido com o Brasil desde minha volta. Parece que foi feito pra mim. Porque o que o que senti na viagem poderia chamar assim: transcendentalismo.
Num lugar com tantas etnias, e nós em contacto direto e intimo com cada uma delas, no corpo a corpo em 32 espectaculos para 8.200 pessoas...Num lugar batido e sofrido por mais de 30 anos de conflito, eu me refugiava .
para o que sempre disse que é minha religiao última: a Natureza.
Ela em mim, como mulher, eu nela buscando-me constantemente.

Poderia te criticar (voce até prefere, jejeje) mas nao consigo. Hoje parece que teu artigo foi escrito pra mim.

Até breve com muitos abraços. So far away, so close,

Sandra Muñoz
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