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Ativo e passivo: o Jogo do Mico Imprimir E-mail
Escrito por Pergentino Mendes de Almeida   
Terça, 21 de Outubro de 2008
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Não sou do ramo, mas aprendi que a contabilidade moderna foi criada a partir da invenção da partilha dobrada: classificando todos os valores da empresa em ativos e passivos, ambos devem ser iguais. Essa é a idéia do que seja um "balanço".

 

Mas dizer que o ativo é igual ao passivo não quer dizer que sejam a mesma coisa. Se de um lado eu devo (passivo), do outro me devem (ativo). Por exemplo, se eu faço um empréstimo num banco, isso é um passivo meu (dívida ou "contas a pagar"). Para o banco, é um ativo (crédito, ou "contas a receber"). Simples, não? Funcionou bem desde a Idade Média até a era do Capitalismo Industrial. A soma de todos os ativos iguala a soma de todos os passivos.

 

Mas recentemente o Capitalismo Financeiro sofisticou enormemente todas essas contas. Inventaram os derivativos, os futuros, a securitização e a alavancagem. Quem estudou, como eu, rudimentos de Economia antes da década de 80 e 90 do século passado, nunca aprendeu o que é isso. O princípio me parece simples; entretanto, repito, reconheço o meu despreparo no ramo, mas dá para intuir alguma coisa a respeito. Por exemplo, se tenho um terreno, que é um ativo meu, posso loteá-lo e vendê-lo em pedaços a 50 outras pessoas, lucrando um x a cada venda vezes 50 vendas.

 

Ora, se o meu passivo (dívida) é um ativo do banco (crédito), por que ele não pode fazer o mesmo? Então eles fizeram. Fizeram com os créditos atuais e com as expectativas futuras de variações do mercado em dólares, petróleo, soja, trigo, milho etc. Apostas. Quem dá mais, quem dá mais, vai rodar, vai rodar – mas a brincadeira pressupõe que, enquanto possível, ninguém diga: ‘Rien va plus, les jeux sont faits’. Então eu pico em pedaços a minha expectativa de ganhos, junto com os meus ativos (que são passivos alheios), crio papéis que não são moedas sonantes, mas que aumentam o volume monetário em circulação, vendo e revendo, ganho um pouco de cada vez (às vezes muito, quando tenho sorte), repito o processo 24 horas por 7 dias da semana, que para isso existem bolsas e mercados funcionando em todos os fusos horários do planeta, de Londres a Nova York e de Nova York a Tóquio – e ganho uma fortuna com isso. Tudo devidamente legal e auditado. O efeito, via internet, é a globalização da especulação, o livre trânsito dos capitais (liberdade de mercados), mas não da mão-de-obra (ah, isso não! -seria atentado contra a soberania das Nações e o controle do Estado sobre os seus cidadãos), a concentração da riqueza, o esvaziamento dos sindicatos, a queda dos salários reais, a terceirização e o fortalecimento da economia informal (prova da vitalidade da livre empresa!).

 

Agora, pensando no agregado desse sistema, sempre me incomodou uma dúvida. Como se podem fazer fortunas assim com base em papéis e jogos contábeis, sem criação de coisas úteis à população em geral, mas apenas com a criação de ficções úteis ao próprio mecanismo que as alimenta? Como se pode aumentar a produtividade com base em automatização e dispensa de pessoal para economizar custos, sem haver aumento correspondente de produtos, de empregos e de mercados em geral?

 

Podemos dizer que o próprio Capitalismo Financeiro deu uma resposta a essa pergunta. Gerou aumento real de produção e riqueza para todos, apesar de ter concentrado os benefícios nas classes mais abastadas. É verdade. Papéis, papel moeda e títulos públicos foram emitidos e a liquidez aumentou enormemente em escala mundial. Essa liquidez facilitou o crédito bancário e estimulou o consumo dos que podem pagar prestações a perder de vista com juros crescentes. Foi o efeito Reagan ("trickle down" da lucratividade concentrada e da liquidez excessiva). Sobrou dinheiro para todo o lado, então ficou fácil ganhá-lo e investi-lo com riscos cada vez maiores, desde que os lucros fossem proporcionalmente maiores.

 

Eu sempre achei que isso um dia iria trombar com seu limite natural, que é o que hoje os economistas chamam de "Economia Real". Como se houvesse duas igualmente válidas. Com o excesso de liquidez, o dinheiro vem fácil. Eu empresto fácil, mesmo a quem eu sei que vai pagar apenas as dez primeiras prestações das 120 contratadas: elas já cobrem o custo, ou boa parte dos juros. Pouco importa. Antes de eles pararem de pagar, eu já ganhei dinheiro suficiente para emprestar a mais cem ou duzentos, que vão pagar dez prestações, e daí por diante. É uma corrente de São Jorge em escala mundial. Sempre me pareceu evidente que isso daria um mau resultado. Há anos, espero uma crise maior. E ela veio. Isso me fez lembrar recentemente de um autor antigo, não lembro quem, mas parece que foi alguém do século XIX, que andava dizendo que o capitalismo sobrevive em ciclos, de crise em crise. Mas deixa pra lá, que estamos no Século XXI e o Muro já é coisa do passado.

 

Com a crise atual, voltei a ter um pensamento incômodo, pois me parece coisa de paranóico. Será que só eu sou inteligente e só eu sempre vi que isso ia acontecer? É a impressão que tinha, assistindo aos comentários de economistas e ex-ministros na televisão, lendo os artigos das revistas, os editoriais dos jornais etc.

 

Então, o que não entendo é o seguinte: todo esse ativo financeiro alavancado (8 a 10 vezes o valor original, no mínimo), no fundo, no fundo, tudo não passava simplesmente de um passivo meu (aliás, superestimado), devidamente picotado em papelotes? Ao nível agregado, social, dívida se transforma em crédito e o crédito beneficia o credor, como se a dívida não existisse: a securitização encapa tudo e, com os derivativos, cria um mundo ideal onde só se pode ganhar. Faz sentido? Eu sempre achei que havia algo estranho nisso. E agora está vindo (ou se está ainda em processo de vir) a crise que eu temia. E as pessoas se dizem surpresas. Como assim, surpresas? Ninguém mais viu o que eu via?

 

Foi então que tive um "insight" revelador: "eles" sabiam de tudo desde o princípio. O sistema financeiro atual não é (como se diz em público) independente do sistema econômico e político reais; os grandes investidores e especuladores mundiais sempre souberam disso e previram as crises prováveis e as inevitáveis; eles são mais inteligentes do que eu, como prova o seu sucesso. O jogo, na verdade, é o Jogo do Mico: você passa papel de mão em mão, ganha um pouco ou ganha muito de cada vez, vai enchendo o bolso de dinheiro, e torce para o mico sobrar na mão de outrem, quando o "croupier" disser: "Rien va plus. Les jeux sont faits".

 

Pergentino Mendes de Almeida é diretor da LPM, empresa de pesquisas atuante desde 1969. Website:http://www.lpm-research.com.br/home.htm/

 

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Última atualização em Terça, 21 de Outubro de 2008
 

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