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É possível desejar ‘Feliz’ dia de Professor? Imprimir E-mail
Escrito por Rodrigo Furtado   
Quarta, 15 de Outubro de 2008
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Há muito ouvimos essa estória de "produtividade" na universidade. Tudo bem, ela tem o seu lado necessário, institucional, funcional. A questão, penso, é a necessidade de relativizarmos esse conceito no âmbito de cada IES (Instituição de Ensino Superior), naquilo que lhe é específico. Em algumas IES’s, a produtividade vem por "via prussiana", por decreto, como critério de classificação e seleção entre os pares, entre os projetos de departamento, no âmbito das agências de fomento à pesquisa etc., sob a máscara de meritocracia (mas ao estilo do self-made man, do individualismo exacerbado). A própria idéia de currículo acadêmico sustenta essa "corrida" por acúmulo de títulos, congressos, "artigos" etc. É a famosa frase: "nossa, tô com a corda no pescoço. Meu(inha) orientador(a) me pressiona, tenho que publicar, tenho que ir pra tal congresso etc." Ou: "tenho que dar um upgrade no meu Currículo Lattes. Estou ‘dando’ aula aqui, na verdade, é pra fazer meu Lattes".

 

Lembro-me de uma frase dita em sala de aula por um ex-orientador e professor do Departamento de Antropologia, Política e Filosofia, em Araraquara, que concluía seu doutorado em 1999, na USP, sob orientação de Gabriel Cohn: "dou aula desde 1976, quando isso aqui se transformou em UNESP. A minha geração tinha a idéia de que um mestrado e um doutorado eram a mesma face de uma realidade: eram a obra de uma vida inteira. Se olharmos Fernando Novais, seu tema principal levou treze anos. Outros, levaram 5, 7 anos de trabalho árduo, seqüencial. Não quero treze anos, mas hoje, para concluir meu doutorado, sinceramente, estou com dificuldades, pois os valores de minha geração são outros, uma vez que queriam que o finalizasse em 5 semestres. Minha cabeça não abstrai essa idéia. Olhe para vocês: muitos aqui agora estão matriculados em 7, 8, disciplinas, alguns ‘loucos’ em até dez disciplinas em um período. Na minha graduação fazíamos três, quatro disciplinas ao ano. Graduação era para se aprofundar na matéria-prima conceitual, nos clássicos".

 

Octavio Ianni, este "monstro sagrado" do pensamento social latino-americano (que nos deixou há pouco), também em Araraquara, em 1997 ou 1998, numa palestra disse: "Eleja duas, três, disciplinas que você precisa e faça delas o tom de sua formação. Mergulhe nelas, estude-as, pois vocês estão matriculados em várias matérias, hoje. Eu entendo a necessidade disso, mas entendo também que vocês terão que cumpri-las para obter os créditos, para formalizarem sua graduação e se formarem. Pois será impossível se entregar a todas como é necessário. Então, elejam 2, 3, e se dediquem de corpo, alma e mente, pois daí você tirará aquela matéria-prima que lhe acompanhará para o resto de sua vida, e de sua profissão". Sem comentários! Doída, mas madura essa observação.

 

Ora, é muito simples a conta: quanto mais rápido você terminar os níveis de pós-graduação, e se tiver bolsa isso passa a ser um imperativo categórico, melhor para você. Afinal terá um "título", melhores salários (?), melhor cargo... E nós (a instituições, os "patrões" acadêmicos etc.) vamos melhorar nossos indicadores de produtividade. Falácia! Quantos colegas e conhecidos estão "escondendo" seus títulos de doutorado para poderem ser contratados por aí, e muitas vezes apenas para dar aulas. Muitos outros são dispensados justamente por serem detentores desses títulos.

 

Cada vez mais as pesquisas exigem os chamados estudos de caso. Quantos conseguem, hoje, com facilidade propor uma pesquisa teórico-conceitual sem ser em algum momento questionado sobre o "pragmatismo" que a "ciência" tem que ter? Lembro-me de um amigo, hoje professor na Universidade Mackenzie, em São Paulo, que dizia que a Filosofia - que fique bem claro - ainda está sendo o centro de resistência às pesquisas meramente de estudo de caso. Mas que esse "pragmatismo" já estava invadindo os programas de mestrado e doutorado. "Não sei até quando a Filosofia vai resistir!", vaticinou. Sinceramente, pode até não concordar comigo, mas chique é ler Platão. E para bom entendedor, pingo é letra.

 

Já em outras instituições, numa outra realidade (bem positiva), essa produtividade é vivenciada pela motivação do trabalho, do ambiente, da idéia de pesquisar e no tempo adequado para realizar os estudos. Aqui, sim, é diferente! E convenhamos: é cada vez mais difícil encontrar algo parecido por aí.

 

Nas IES’s particulares sabemos o que a grande maioria pensa: universidade, ou faculdade, é para "dar aulas". E somos extremamente mal remunerados pelas aulas, apenas pelas aulas (aqui não entram os projetos de extensão, a pesquisa, a assessoria etc.): somos horistas na maioria das instituições espalhadas por aí. Logo, o cálculo capitalista não faz esforço para aparecer: ganha mais - e isso não quer dizer que ainda assim se ganharia bem - quem conseguir mais aulas num único lugar. Outro fato raro, pois os "pacotes de aulas" são pequenos. Portanto, muitos de nós temos que nos transformar em "nômades acadêmicos". Maior número de aulas, num maior número de instituições, se possível.

 

Sinceramente, nunca imaginei, à época de meu colegial, que um dia seria normal um aluno conviver com a idéia de casa do professor, essas que as faculdades, universidades, escolas de Ensino Fundamental e Ensino Médio (pré-vestibular) mantêm por aí. Passaram a ser necessárias dentro, amiúde, da equação capitalista que assola a educação. Aliás, educação é "mais um produto", ou se preferir, um serviço oferecido ao mercado.

 

Então como teremos o tempo necessário (isso é público e notório para quem freqüentou com alguma responsabilidade um curso superior) para ler, "futricar" nos artigos, textos, vídeos, seja online ou numa biblioteca, num arquivo, num sebo? Resenhar, fichar, refletir, escrever, reler, preparar, planejar e comunicar uma aula, como? Será que os "empresários/executivos" da educação algum dia freqüentaram nem que seja um curso em docência para perceberem o tanto que é sério, difícil, complexo e, no mínimo, trabalhoso fazer um planejamento? Que essa preparação é uma necessidade de o professor assumir uma postura séria e crítica de transformação da realidade, portanto, que um planejamento, seja ele qual for, é político-pedagógico? Isso significa dizer que a atuação de um professor não é isenta de tomada de decisões, não é a-histórica e desprovida de alguma ideologia. Que não é simplesmente uma "mastigação" das idéias de outros autores que serão lidos(?) e debatidos(?).

 

Penso que nunca freqüentaram qualquer discussão sobre isso, afinal, o cálculo mercantil reduziu tudo, e a própria esfera do produzir conhecimento, a mais uma variável econômica. Falamos hoje em capital intelectual, não é mesmo? Aquele, dentre os vários tipos de capital, que mais agrega valor. E qual o final dessa equação? Os salários, ou seja, aquele elemento necessário para garantir alguma sobrevivência (atenção, não falo de vivência, mas de uma sobrevida! Qualquer dúvida é só visitar a obra de Max Weber) nas regras inexoráveis do capitalismo. Não tenho escolha: não posso vislumbrar o Ser, pois estou condenado ao Ter, mesmo que esse valor seja apenas um valor, um ideal, uma propaganda com forte apelo ideológico, e não uma realidade.

 

Dia do Professor! E essa categoria profissional na base, no ambiente "povão" dos professores, ou seja, nas escolas públicas, escolas pequenas particulares e no enxame de IES’s que brotam por aí, será que essa categoria tem, produz ou quer produzir alguma consciência de si e para si? Isso não importa, pois mesmo chorando os nossos insucessos "profissionais" temos que produzir, já que "fila anda". Não é assim que se diz? Ontem, hoje, amanhã, teremos que produzir, mas o problema é que muitos não sabem que a produção vista pelas pessoas na segunda, na terça, na quarta, começou bem antes: na preparação, nas horas de correção das montanhas de trabalhos e avaliações, nos "agradabilíssimos" diários, ou seja, naquilo que se assemelha a um fordismo acadêmico ou escolar. A própria ANDES – Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (http://www.andes.org.br/) - vem travando um trabalho de luta e organização da categoria acerca da temática do produtivismo acadêmico, da produção do conhecimento e da alienação do trabalho docente. A alienação é nossa companheira e nos confronta vis-à-vis!

 

O único feriado que talvez mereça alguma atenção neste mês de outubro seja o de Nossa Senhora Aparecida. É o único que reconheço - a despeito dos críticos religiosos e das teorias daqui ou dali e sob o prisma da organicidade da cultura brasileira e dos paradigmas da antropologia - como legítimo.

 

Quando o Dia do Professor foi criado, em 1963 (às vésperas do golpe militar e da ditadura que se iniciaria neste país), por determinação do Decreto Federal 52.682/63, foi assim definido: "para comemorar condignamente o Dia do Professor, os estabelecimentos de ensino farão promover solenidades em que se enalteça a função do mestre na sociedade moderna, fazendo participar os alunos e as famílias". Na verdade, não há discussão nenhuma, crítica e reflexão alguma. Passa-se o "dia" e sequer alguma troca de idéia acontece. Esse dia pode ter nome, a intenção pode até ser "boa", mas qualquer um sabe que é apenas mais um dia para configurar no calendário de feriados. Sua utilidade é apenas mais um dia sem colocar os pés na escola provavelmente.

 

O resto é o resto... Professor: dia feliz?

 

Rodrigo Furtado Costa, 32, é cientista social pela UNESP/Araraquara, especialista em Gestão e Exercício da Docência no Ensino Superior, professor da UEMG/Frutal e Faculdade Frutal.

 

E-mail: prof_rodrigo_sociologia(0)yahoo.com.br

 

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