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A Princesinha do Xingu Imprimir E-mail
Escrito por Rodolfo Salm   
Sexta, 10 de Outubro de 2008
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A cidade de Altamira, na região central do Pará, também é conhecida por Princesinha do Xingu. O apelido concorrente, "Capital da Transamazônica", além de bem menos simpático, é incompatível com o primeiro, pois implica na submissão do "reino" que seria o rio Xingu e que justificaria a existência de uma "princesa". Desde 1972, quando o então ditador Médici, em visita à cidade, derrubou simbolicamente uma castanheira, dando início à construção da estrada que levaria os "homens sem terra para a terra sem homens", muita gente batalha para que esse segundo nome pegue. Mas ali, hoje, a rodovia Transamazônica (BR-230), exceto no trecho que corta a área urbana, ainda é uma estrada de terra e a cidade à beira do grande rio (felizmente) ainda não lembra em nada uma grande capital.

 

101008_rodolfo_salm_1.jpg

 

Mas esta situação pode transformar-se radicalmente com a construção, na região da Volta Grande do Xingu, da polêmica hidrelétrica de Belo Monte, que exigirá o asfaltamento da rodovia Transamazônica, reforçando assim o segundo apelido. Então, as dimensões destas obras faraônicas podem fazer com que não só Altamira, mas toda a região transforme-se em um imenso canteiro de obras que pode até fazer lembrar a construção de Brasília. A diferença é que, com as obras concluídas, ao invés do traçado imaginoso de Lúcio Costa e dos monumentos de Oscar Niemeyer, teríamos ali a aspereza de diques, barragens e turbinas, além de uma extensa rede de estradas asfaltadas para dar acesso a toda essa estrutura. E muita mata devastada (note, na imagem de satélite, a já alta incidência de desmatamentos perpendiculares à estrada, no famoso padrão espinha de peixe. Agora imagine o quanto isso aumentará em caso de asfaltamento, o que facilita exponencialmente o acesso e, conseqüentemente, o fluxo de veículos e pessoas).

 

É curioso como hoje, em função da polêmica em torno da construção ou não da hidrelétrica, renova-se a batalha entre índios e ribeirinhos contra os colonizadores envolvendo a conquista da Volta Grande do Xingu. "O rio Xingu terá sido talvez o último dos grandes afluentes do rio Amazonas a ser colonizado". Foi com essa observação fundamental que André Costa Nunes abriu o capítulo "O massacre dos índios no Porto de Vitória", em seu livro "A batalha do Riozinho do Anfrísio" (Editora Alves), que trata do conflito entre brancos e índios no processo de colonização deste rio.

 

O Xingu pode ser claramente dividido em duas partes. De um lado o baixo Xingu, da sua foz, onde suas águas misturam-se com o mundaréu de águas do rio Amazonas, até o começo da região conhecida como Volta Grande. Trata-se de uma zona de águas lentas, com cento e poucos quilômetros de extensão, onde o rio chega a ter dez quilômetros de largura. Sua colonização, com a criação das vilas de Souzel e Porto de Mós, é antiga, contemporânea de toda a ocupação da região central da calha do Amazonas. De outro lado, da Volta Grande para o sul, a história é diferente. Espremido entre duas serras, o rio faz uma enorme curva, a tal Volta Grande. Neste percurso, sofre um desnível de mais de noventa metros, ao longo de 50 quilômetros. A seqüência de cachoeiras e corredeiras o torna instransponível para qualquer tipo de embarcação e até mesmo para muitas espécies animais. O peixe-boi, a tartaruga do Amazonas, o jacaré-açú e os peixes pirarucu, tambaqui, dourada e piramutaba, por exemplo, não conseguem subir este trecho do rio, estando limitados à sua porção baixa.

 

Conforme descreve Nunes, por volta de 1750 uma tentativa de estabelecer missão acima da Volta Grande, bem próximo de onde hoje fica a cidade de Altamira, terminou com os jesuítas sendo mortos pelos índios. A primeira expedição exploratória bem sucedida (do príncipe Adalberto da Prússia) só teria acontecido em meados do século XIX. Subindo o rio, Altamira é, ainda hoje, a última cidade que nossa civilização conseguiu estabelecer em suas margens até a sua nascente, a centenas de quilômetros ao sul dali, já no Mato Grosso (com exceção da, até há pouco tempo minúscula, São Félix do Xingu, hoje ligada por estrada ao eixo de desenvolvimento da rodovia Belém-Brasília e campeã nacional de desmatamento).

 

A colonização tardia, e ainda esparsa, da região do Xingu, bem como a dimensão das suas terras indígenas e o conseqüente bom estado geral de preservação das suas florestas (apesar da devastação acelerada nas áreas ocupadas pelos não-índios) explicam-se por suas violentas corredeiras, de difícil transposição. Ou impossível, quando se tem à frente, nas cachoeiras, bravos índios guerreiros contra quem batalhar em emboscadas. No fim das contas, os invasores passaram a usar um atalho, cortando a Volta Grande por terra. Então, a conquista da localidade de Altamira, logo acima da Volta Grande, no início de um longo trecho navegável do Xingu rio-acima, teve grande relevância para o colonizador.

 

Hoje, com a sua (ainda) exuberante natureza, Altamira tem uma forte vocação turística. Mas quem investiria em infra-estrutura para receber visitantes para praias que podem desaparecer para todo o sempre dentro de poucos anos? É paradoxal que, sendo uma promessa de desenvolvimento, a hidrelétrica seja atualmente a causa do estado de relativa estagnação econômica da cidade. Os hotéis de Altamira são básicos, e não turísticos, os orelhões não funcionam, a Internet é precária e as praias sujas. Além disso, o aeroporto ainda não tem estrutura para receber aviões de grande porte, as passagens das pequenas companhias aéreas são caras e as linhas são insuficientes. Enfim, não há qualquer incentivo ao desenvolvimento da atividade turística, em grande parte por conta da expectativa pela construção da mega-hidrelétrica. Diferentemente de Alter-do-Chão, na foz do rio Tapajós, conhecida como "o Caribe brasileiro" dado o intenso azul de suas águas. Ali está o foco do planejamento turístico do estado. Mas as águas verdes do Xingu não perdem em nada para as azuis do Tapajós.

 

101008_rodolfo_salm_2.jpg

 

Eu acredito que, com a construção ou não da hidrelétrica de Belo Monte, Altamira estará no olho do furacão das grandes lutas ambientais globais dos próximos anos. Não vão fazer a barragem facilmente. Mas também nunca vão desistir. Princesinha preservada ou capital degradada? Mais do que uma briga de apelidos, esta é uma disputa entre projetos alternativos de desenvolvimento. Um que beneficiará principalmente os empreiteiros, responsáveis pelas obras, e os grandes consumidores de energia elétrica. E provavelmente deixará um rastro de destruição ambiental e instabilidade social para a população local, em troca apenas de migalhas de desenvolvimento. O outro buscaria a preservação ambiental, o desenvolvimento do turismo e a multiplicação de oportunidades de emprego nos pequenos negócios. Este ainda será o dilema de Altamira por algum tempo.

 

Rodolfo Salm, PhD em Ciências Ambientais pela Universidade de East Anglia, é professor da Universidade Federal do Pará.

 

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Última atualização em Sexta, 10 de Outubro de 2008
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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