Curvas da história

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Há 50 anos atrás, no dia 09 de outubro de 1958, morria o Papa Pio XII, após um longo pontificado de vinte anos, que tinha atravessado por inteiro a turbulência da segunda guerra mundial. Homem sábio, atento aos avanços da ciência, poliglota, erudito, tinha atualizado as posições da Igreja em todos os campos, tanto doutrinais como disciplinares. Deixava a Igreja em ordem, numa situação que parecia durar por longo tempo.

 

Ninguém imaginava as profundas transformações que iriam se desencadear na Igreja logo em seguida, com o anúncio do Concílio, no dia 25 de janeiro de 1959, feito pelo Papa João 23, que em tudo parecia contrastar com o papa Pio XII.

 

A história segue seus caminhos, nem sempre fáceis de discernir ou de antever. Ela faz suas curvas, muitas vezes imprevistas. Se não prestamos atenção, podemos ser lançados fora da rota, e ficar à beira do caminho.

 

Nossa época é pródiga em mudanças bruscas, que nos deixaram perplexos. Uma delas, sem dúvida, foi a mudança eclesial, provocada pelo concílio, que ainda não foi bem assimilado.

 

Às vezes as mudanças são espetaculares, com lances que chamam a atenção, como aconteceu com a queda do muro de Berlim em 1989. Quando a mudança é mais evidente, corremos o risco de ficar só na sua manifestação fenomenológica. Assim se interpreta a queda do socialismo real. Ela aconteceu, não a partir do muro de Berlim, mas da mudança de governo iniciada na Polônia em agosto de 1989. O muro estava bem firme, e não teria caído se não tivesse caído antes o regime político, corroído internamente pelo atraso tecnológico e pela crise econômica dos países do leste europeu e da antiga União Soviética.

 

Com a avalanche de notícias destas últimas semanas, trazendo lances espetaculares da crise econômica iniciada nos Estados Unidos e já exportada ao mundo inteiro, é evidente que estamos vivendo mais uma curva da história. É cedo ainda para medir os seus estragos. Mas algumas evidências já emergem com clareza.

 

Quando as mudanças são precedidas de lentos e progressivos acúmulos positivos, a história dá passos consistentes e construtivos. É o que agora podemos entender melhor ao analisar as mudanças eclesiais desencadeadas pelo Concílio.

 

A lenta e tenaz ação de Pio XII foi pavimentando a estrada do concílio. Durante seu pontificado foram se consolidando avanços teológicos muito significativos, em assuntos que depois seriam retomados e atualizados pelo concílio, sobretudo relativos à Bíblia e à Igreja. Mesmo havendo compreensíveis tensões na interpretação da renovação conciliar, dá para estabelecer um nexo positivo entre a ação de Pio XII e de João 23, para ficar em dois personagens simbólicos da história da Igreja em nosso tempo. É o que o atual Papa procura fazer, assim me parece, recuperando a memória de Pio XII, e destacando os méritos do seu pontificado.

 

Quando, porém, as mudanças acontecem como fruto de acúmulos negativos, elas acabam cobrando a conta dos abusos feitos, como acontece agora com o terremoto que está abalando profundamente os alicerces da economia mundial.

 

Todos davam como evidente a passagem do "capitalismo produtivo" para o "capitalismo financeiro", que a globalização tornava viável. Mas era mais do que evidente o desvio de finalidades do "capitalismo financeiro", que se nutria da especulação, que corria solta nas bolsas do mundo inteiro. Na onda das novas possibilidades instantâneas do mercado, os especuladores cavalgaram à vontade, misturando a economia real com as fantasias dos seus papéis fictícios e forjados pela insana fome de lucro, que é a alma do liberalismo econômico.

 

Agora o estrago está feito. No dizer da parábola, seria hora de separar o trigo do joio. Mas não está dito que o joio será lançado ao fogo. Não está ainda combinado quem vai pagar o estrago, quem vai se queimar. Faz parte da ideologia dos especuladores privatizar os lucros, e socializar as despesas. Se muitos bancos quebraram, não está garantido que o liberalismo quebrou sua espinha. O triste é imaginar que, depois desta farra maluca, a conta será repassada a todos, e o mundo continuará com o mesmo patrão por muito tempo ainda!

 

D. Demétrio Valentini é bispo de Jales.

 

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Comentários   

0 #1 JAIME RIBEIRO COELHO 11-10-2008 13:04
Parabéns, Dom Demétrio, pela clareza do artigo.
Gostaria de saber qual será a nova profecia do FUKUIAMA.
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